quinta-feira, 3 de março de 2016

A graça...

A verdadeira mulher é aquela cuja presença nos faz esquecer os problemas, as ideias, as inquietudes universais e as angústias metafísicas. Para aqueles que se encontram profundamente agitados por uma inquietude metafísica, a intimidade de uma mulher é corretora e reconfortante. Através da mulher, é possível atingir temporariamente uma doce, agradável e encantadora inconsciência. Nascida quase só para o amor, ela esgota todo o conteúdo de seu ser no impulso erótico. A mulher ama mais e sofre mais que o homem. [...] Gosto da mulher porque, ao seu lado, paro de pensar e posso plenamente realizar, por um curto período, a experiência do irracional. Junto de uma mulher, esquecemos que sofremos por causa do espírito, atravessamos as torturantes dualidades e retornamos a um fundo original de vida, a conteúdos primordiais e indivisíveis, derivados, como expressões orgânicas, da essência irracional da vida. Para os cavaleiros do Vazio, o contato com a mulher só pode constituir um caminho que, se não leva à salvação, com certeza gera um consenso temporário, um esquecimento reconfortante. A graça feminina tempera a tragédia masculina.

(Emil Cioran)

Nenhum comentário: