segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O que nos falta...

Não é amor o que nos falta, não. Toda gente tem amor, esse sol que é sempre sol, é da natureza dele ser assim. O que varia, como variam os instantes, é a quantidade de camadas de nuvens de confusão, de ignorância, de raiva, de medo, que o encobrem. Tem vez até que acinzentam o céu todinho pra depois fazer a vida chover torrenciais embaraços. Tudo bem, chuva sempre passa, tempestade que seja.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta é soltura. É expressão. É desarme. É poder dançar com a vida sem passo marcado. É parar de dar trela pra bobagem. É desacreditar que somos especialistas em afeto. É parar de julgar. É parar de encher barriga de dor. É mudar a faixa do CD que canta o passado com drama.

É escolher deixar de chorar pelo sofrimento vivido em 1815. É levar luz pra conversar com a sombra e deixar que as duas se entendam e se tornem amigas. É a ousadia de descolar o umbigo de qualquer orgulho, arrogância e redondezas.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes nos falta, é perceber que os relacionamentos são mais vivos tanto o quanto são imperfeitos porque perfeição, no contexto humano, é quimera. O amor é perfeito, mas nós, seus recipientes, ainda não. Dizemos tolices, fazemos tolices, quando queremos apenas dizer a nossa admiração ou gratidão ou encanto ou tudo junto.

Todos nós falhamos no amor, e às vezes falhamos muito, mas o que continua a nos mover, mesmo quando nos atrapalhamos, eu acho, é o destino de acertar cada vez mais um pouquinho. De soprar mais um pouquinho as nuvens. De deixar o nosso sol dizer mais um pouquinho o seu tamanho todo.

Não é amor o que nos falta, não. O que, muitas vezes, nos falta, é a capacidade de perdoarmos a nós mesmos e aos outros.

Perdoar com a consciência da terna compaixão, da generosidade, da empatia, porque muitos de nós vivemos boa parte da vida como sóis culpados, como sóis assustados, mas todo sol, por trás de toda culpa, de todo susto, de qualquer enganosa aparência, quer apenas sorrir o seu lume.

Às vezes, apenas ainda não sabe como. Saberá. É da natureza do amor. 
O que nos falta não é aprender o amor. O que nos falta, sobretudo, é desaprender o medo. 

Nisso também, não importam os enredos, estamos todos juntos.

(Ana Jácomo ::: Um carinho que ganhei de suas mãos e que depois de tanto tempo cá comigo decidi semear aos olhos que precisam se encontrar com ele. Assim como um dia ela semeou aos meus. Espero que me perdoe)

Um comentário:

ivani ramos disse...

Guilherme: Com toda certeza a Ana Jácomo se sentirá lisonjeada com esta semeadura compartilhada. De forma alguma, tão belo ofertório, merece ficar engavetado e deve sim ser apreciado pelos olhos de todos aqueles, que assim como eu, precisava se encontrar com ele.
Não carece de nenhum perdão, mas sim, de muita gratidão. Gosto muitíssimo de tudo que você, carinhosamente posta em seu blog. Obrigada sempre!