sábado, 6 de fevereiro de 2016

Dos essenciais vocabulários de dentro...

Saudade: unidade de medida para os vazios da alma que nos trouxe o tempo.

Dor: limitação e justificativa da alma para não sentir, vestir, saber ou cultivar o amor em si, e por isso partir, temer, morrer, mentir, não se despir e não se entregar no verbo amar.

Alma: dimensão de nós que habitam os milagres e os pontos de interrogação. A promessa da semente e a dor depois do espinho. O que antecede os tempos e justifica quaisquer memórias. O elo entre as irmãs pedras e arcanjo. O olhar ante o pecado e o perdão, a escolha ou a omissão, o suspiro ante o medo e o encanto. A inexata resposta da reflexão. Aquela que garante a existência do amor em nós.

Amor: inevitável milagre que nos seus primeiros sabores e tons nos iniciam os outros. Sentir de personalíssima definição que orbitam os poetas e que conhece apenas o peito que sente.

Ego: aquele que guarda para si o melhor para depois, anunciando orgulhoso que guarda mais do que realmente tem e ao final se desilude, por esquecer o lugar de dentro onde acreditou que alguma coisa havia guardado. Ver também: ilusão.
Ilusão: dentro de nós é a força do desnecessário. A sombra em que adormeceram sejam olhos ou o peito. Véus despercebidos ou muito bem escolhidos. A irmã mais velha do erro. Alimento que não sacia, a cama que não descansa. Remédio amargo, sem data de vencimento ou de cura. Ver: Ego.

Mentira: facilidade para lidarmos e ajeitarmos a realidade conforme nossas conveniências ou necessidades; maneira de desculpar o engasgo das nossas virtudes. A prima-irmã do medo e intérprete das fragilidades. Usada quando evitamos assumir ou atravessar erros, coragens e a própria verdade, isto é, os compromissos que estabelecemos conosco e com o próximo. Embora possa ser usada de maneira abundante, custa-nos algo a ser cobrado sempre em algum momento no futuro.

Modéstia: fina cortina que ao mesmo tempo oculta e transparece, seja uma virtude, seja um talento; podendo também esta mesma cortina transparecer o nada que lhe oculta, sendo falsa a imagem porventura anunciada visto que inexistente. Ver: Ego.

Milagre: A dimensão do encantatório e dos impossíveis que nosso nome sabe mas espera-nos para visitar-nos quando à vida nos entregamos e nos permitimos. Ver também: merecimento e amor.

Merecimento: A primavera após o inverno. O dia depois da noite depois do dia. O destino que conseguimos carregar nos bolsos; o inevitável sempre diante de quem somos. O resultado das nossas ações despido dos acessórios da contrariedade e da reclamação. As exatas matemáticas da alma.

Definição: uma articulada tentativa de explicar à alma através das razões, as verdades que desde sempre já sabíamos.

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