quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Afinemos os ouvidos...

Não basta somente a dor; dói-nos ainda mais porque doemos. Dói-nos mais por permitirmos chegar a doer. Afinal, quem de nós ousaria deixar-se chegar a este ponto? Quem permitira atestar a própria inabilidade, a incompetência emocional em se gerir? Quem baixaria guarda aceitando a própria queda diante de si? Rezam velhas vozes que aceitar as próprias derrotas é se permitir acertar na próxima. Reconhecer nosso real tamanho é árduo mas necessário ofício. Assumir fraquezas é ato honesto de coragem, pois que tendemos a nos agigantar para fugir da responsabilidade que dizemos não ser nossa, ou nos apequenamos a decretar nossa incapacidade de não lidarmos com o que nos ameaça. O irônico é que embora seja difícil nos encontrarmos em qualquer uma destas polaridades, parece-nos mais fácil do que aceitarmos o peso e alcance das nossas ações. Por cômodo equívoco, desconhecemos a exatidão da nossa grandeza. Culpamos o outro pela impossibilidade de não sermos melhores - gritando à vida as injustiças que nos cometeram pela infelicidade que não coube em nossas metades - ou nos projetamos maiores e mais perfeitos: é o outro que erra, não eu; é o outro quem sempre erra, jamais eu. Não assumimos a paternidade dos monstros por não querermos que eles nos devorem, quando na realidade é por aceitá-los na nossa casa que então na hora certa poderão partir. Nós que estamos tão certos de tudo e não sabemos fazer nada, nós que buscamos o céu mas não sabemos o que fazer quando perdemos o chão, cumpre lembrarmos aquilo que nos conta a alma: as sombras nos gritam certezas, a luz nos sussurra verdades. 

Afinemos os ouvidos.

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