segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Silêncios...

pedem-me os silêncios que me apresente
visto que eu sou aquilo que ninguém vê.

domingo, 29 de novembro de 2015

Para os raros...

Raros são os amores que dispensam promessas, visto que raras são as pessoas que promessas dispensam. Ouso dizer que vivemos de promessas mais do que de amores. Talvez porque saibamos bem o que seja uma promessa e nela nos agarramos como uma certeza. Mas e o amor, qual a certeza de sabê-lo o que se é? Promessas visam aliviar-nos garantindo-nos amanhãs. E o amor, garante-nos o quê? 

Um amor que se declare garantindo que amará amanhã, também é promessa.
Uma promessa que se declare garantindo que será a mesma amanhã, também pode ser amor.

Mas quando o amor não nos responde, o que ele é?

O amor quando não se reforça na promessa se fortalece no silêncio.

E quem sabe isto seja a maturidade daquele que aprendeu que as palavras são tão frágeis quanto os amanhãs, e saiba que os nossos caprichos e medos e boicotes são mais previsíveis do que queremos tanto prever, e saiba que os frutos virão amando-se desde agora a semente, e que a colheita não está em nada separada das raízes.

Raros são os amores sem necessidade de outra coisa senão o próprio amar: sem compromissos públicos na agenda, sem encontros marcados com as certezas, sem anúncios nas redes sociais e planos anunciados de férias e festas onde se espera se estar longe do fracasso de não ter sido aquilo que se prometeu.

Amar é verbo sem cobranças.
Amor sem promessa tem perfume de gratidão, perfumando-nos e, por consequência, perfumando o outro, sem esperarmos por isso.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Aviso...

Cada sentimento que escrevo e com exatidão lhe demonstro serve para convencer-te que sinto aquilo que escrevo. Cada emoção que lhe descrevo serve para convencer-te que sinto quando te reconheces por também sentir. As palavras que faço espelho para que enxergues a nós mesmos é estratégico. Engano-te, e muito bem. Quando alcances meu verbo terei eu antes morrido mil vezes. Quando entendas minha batalha terei eu antes perdido outras mil. Dou-lhe o que resta do meu passado visto que o que lhe ofereço é aquilo que não é mais, mas que satisfaz porque são palavras: frágeis substitutas das verdades. Trago-lhe texto pronto, aparado, com a devida assepsia das minhas loucuras e egoísmos. Trago-lhe produto refinado, com certa dignidade, distante da matéria-prima que de início me sufocou. Apresento-lhe o sofrimento pelo filtro do intelecto: coisa outra, maquiada, pronta para festa e bençãos literárias. O que vês não enxergas: sou o dobro, sou o excesso, sou o absurdo. Ao me tornar palavra já sou homem domado, domesticado pela linguagem. O transbordar é cenográfico, visto que ao iniciar parágrafo já terei sido antes inundação. Engano-te pois sou polida e comportada impressão das minhas confissões, mas não abuso do direito de ser outro. Apenas declaro o que fui com a interferência do tempo que me faz outro, com a palidez das distâncias do que não mais se é. As mentiras são sinceras e os cenários são reais, mas vês somente a sombra dos meus protagonistas. Verso sobre o inferno atenuando o calor, sobre as flores diminuindo os invernos. A linguagem é reino que com interesse manipulo e por capricho transformo, porque é na palavra onde me sinto na posse do que não sou. Aqui, mudo comodamente os limites das minhas prisões, antecipo vitórias e liberdades, altero por conveniência definições e conceitos sobre mim. Se lhe disse acima sobre meus egoísmos, poderia reescrever falando apenas das minhas virtudes. Na palavra me condeno ou me inocento, embora não me isente de ser e viver o que sou. Por isto, enganei-te para enganar-me, pois convencer é poder ser convencido. Mas já basta! Quero desconstruir miragens, desmentir crenças, abandonar gaiolas. Quero assumir minhas existências e ser honesto nos meus despropósitos. Quero sentir mais e pensar menos, descartando a ingênua ideia que cultivei de que tenho controle sobre alguma coisa. Escrevi por ter sido tanto tempo escravo. 

Voltarei a escrever somente quando me tornar devoto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Categorias...

Aquilo que já havia sofrido como a mais severa angústia também lhe era a mais cristalina benção, posto que ausente esta e quaisquer outras bençãos lhe seriam impossíveis.

Talvez entre verbetes e sinônimos, acordar, despertar, levantar e amanhecer devessem ser bebidos como inevitável paradoxo que nos revela alternadamente nosso estado de espírito e, aos bocadinhos, a generosidade da própria existência ao permitir atravessá-los, dia após dia.

Viver é estar disponível para os milagres e demais categorias de felicidade.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Da sabedoria dos rios...

O amor deveria assemelhar-se ao riacho que se desenha por entre as curvas isentando-se das culpas por não caminhar em linha reta, pois, no fundo sabe do seu inevitável destino em ser mar. O amor ganha forças com o que foi mas, tal qual a sabedoria das águas, nunca olha para trás.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Hoje não...

Amo-te pela poesia das coisas ditas como se não houvesse nunca dito antes palavra: uma importância, um significado, uma realeza, uma andorinha sequer a partir dos lábios contente e fazer-me céu. Vivi com silêncios como luto inconsciente por não saber de ti. O que viesse a dizer me era velha página de jornal, formalidade, preenchimento, um catálogo de conveniências necessário para sobreviver aos dias.

Uma espera, no melhor das hipóteses e esperanças.

Hoje não.
A minha palavra é celebração.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sinto muito...

Eu, protagonista dos meus erros, testemunhei os alheios como registro que guardei na memória e nunca soube aproveitar. Não houve quem me desse nitidez ou exatidão das coisas que sofremos nem a clareza da desordem de tais coisas. Anestesiei-me com ausências e distâncias. Consumi o corpo acumulando venenos. Consumi a alma reprimindo desastres. Gastei o tempo em bebidas, implicâncias, egoísmos, distrações, sexo, vaidades, cigarro e comprimidos. E embora ela não nos ignore, a verdade é aquilo que temos por costume ignorar. Isto foi o que aprendi justamente por jamais ter me dado antes a chance de aprender. E seja como ela venha, ninguém a anunciará senão os teus próprios sintomas. Ninguém lhe contará de um abrigo qualquer a evitar encarar tuas tristezas e tempestades. A verdade virá arrancar tua mentira. Ainda que para isso extraia tua miséria pela carne e precise você morrer para continuar. Ainda que a dor te deixe à beira da loucura e o cansaço te convoque às desistências. Somente assim, saberemos da força ao nos enxergarmos desesperadoramente frágeis. Somente assim, saberemos quão covardes fomos ao convocarmos à força nossas coragens. A sabedoria acontece-nos desta maneira: quando passamos a viver sem o medo que tanto custou-nos sentir. Pois quando faltou-me tudo, sobrou-me a fé. E por restar-me a fé, todo o mais me foi acrescentado. Por ela evitei prender-me para sempre nos meus próprios escuros.

Se nela não crês, amigo, sinto muito.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Excessos...

Usamos do corpo em demasia quando queremos demitir a mente, filho. Comer demais, beber, trabalhar, por-se a deitar com mulheres demais é uma aparente celebração. Viver em excesso faz-se o nosso esconderijo enquanto não nos encontramos. Os momentos servirão apenas para atravessarmos os momentos. 

Assim, fazer é um modo temporário de desistir.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Entenda...

entenda isto:

o amor está nos teus olhos.
preso, agarrado, fincado, 
instalado,

talvez o amor seja os teus olhos mesmo.

e é por isso,
é por isso,

definitivamente é por isso
que poderás voltar a amar,
recomeçar-se,
reinventar-se,

num novo par de olhos que desejes.
assim que os teus olhos
voltarem novamente 
a enxergar.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Esqueça-a...

Se buscar pela felicidade não a alcançará, meu filho. Esqueça-a - eis meu conselho para ser feliz. Permita-se esquecer e lembrará adiante o que nos é óbvio mas óbvio não nos parece: quando não nos preocuparmos em encontrá-la poderá ela então ser encontrada. A felicidade acontece-nos como algo indireto, como efeito de uma causa que não a causará se esta for nossa intenção. Ao avivarmos a própria luz descobriremos a sombra para os descansos. Por isso, ocupe-se, existencialmente. Celebre, reclame, aprenda, maldiga, ensine, sangre, perdoe, partilhe, ame. Quando você menos perceber, mais será percebido. 

A felicidade é a resposta que nos concedemos quando nos dispensamos das perguntas.

domingo, 8 de novembro de 2015

Sem futuro...

[...] perguntei àquele homem sem futuro como podia ele então continuar a existir?

Disse-me que o futuro é promessa que poderá ou não vir a ser, mas não a esperança, que já se encontra ao alcance como fruto a ser provado. Por isso enquanto os outros sempre esperam por se realizarem no amanhã e apenas por ele vivem, seja ele próximo ou distante - isto não importa -, atravessa este homem todos os seus agoras com a esperança de que se alimenta.

(Ensinou-me assim na entrelinha que gratidão não é tema do que viremos a ter, mas daquilo com que já nos encontramos e que pela soma, somos)

Pudéssemos...

Afortunados seríamos se viéssemos a morrer lúcidos, de olhos abertos, esperando a morte a recebê-la, para que venha a nós atravessá-la e por nós nos atravesse; tal qual barqueiro cruzando rio à outra margem, ao tempo igual das águas a cruzarem barco e cumprirem seus destinos. Pudéssemos nós aguardar a morte cheios de vida, para não nos desperdiçarmos na passagem. Quem sabe descobriríamos que somente à beira saberíamos quem somos, ainda que no instante último e anterior a não sermos nada mais. Talvez se a encontrássemos, distraída, antes dela nos encontrar, poderíamos sem turbulências abdicarmos do nosso existir e sem urgências, sabermos o que fazer com nossas sensações. A morte me desenraizará, cancelando as autoridades de ser eu, imporá silêncios como véu a separar-me dos vivos, porque viver é fazer barulhos. Serei um ausente apenas por não me escutarem mais. A morte nos apontará verdades: ela fará com que passemos a nos dar conta da vida e os outros a se darem conta de nós. A morte igualmente permitirá mentiras: enfeitando-nos com dignidades na boca dos viventes a dar-nos qualidades que pouco usamos ou nunca tivemos. Poremos em xeque nossas crenças, atualizaremos nossos medos, recobraremos os graus de parentesco com os eternos, descobriremos onde desaguam os mistérios. Aquele que diante da morte se encontra tem direitos de suceder-lhe tudo, inclusive continuar vivendo. Suspeito que a dita cuja tenha afinidades com os milagres, embora o que saiba da morte é aquilo que sei da vida: atravesso-a sem saber ao certo o que nela sou e o que ela é. O que desejo não é saber, e sim que a felicidade seja sempre uma das últimas palavras a escrever e comunicar, de qual lado for.