sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Que não te vês...

vilão e vítima
são os outros nomes teus
em razão da luz que lhe falta ou lhe pousa
no espelho em que não te vês.

e seja qual o crime
que te furtes ou cometas,
ambos estão a lhe confessar:

a vida é devoração.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Virou a página...

cortava-lhe sempre a carne
com o travessão do que não disse.

afastava seu sujeito do verbo amar
e por tanto tempo impróprio a viver no imperfeito

calou boca e sonhos
num ponto final.

cansado,
virou a página.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

(Des)esperar...

Não, tu não sabes a real dimensão do desespero. O que é precipício, escuridão, aniquilamento. Talvez outros tantos desconheçam a vertigem contida na palavra: o desesperar no desespero; a inteira nudez em que não há nuances, e sim impotência revelada e dita no espelho turvo dos significados a sequestrar-nos de nós mesmos. Usamos diariamente o que não é trivial como se trivial fosse, palavras cotidianas que não correspondem às experiências últimas, viscerais, nossas existenciais verdades, misérias e virtudes. Aquele que atravessa o sentido de uma palavra desta aprende a usá-la na dose certa de sua pertinência. Assim é com a dor, que nos dá o silêncio como seu melhor porta voz, e que por conseguinte virá a refinar e embelezar a gratidão.

E assim também é com o amor.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Desmorrer...

Afoguei-me vezes sem conta nas lágrimas, senhor. Tanto remei contra e a favor que não mais soube quando contra ou a favor remava. A âncora lancei quando hora de partir; parti quando hora de aportar. Sofri de fomes e excessos, senhor. Sofri de miragens e silêncios. Naveguei em direção às tempestades, sempre às conveniências das minhas marés. Inventei piratas a saquearem os meus tesouros. Tornei-me filho distante das constelações. Graduei-me no tempo um marinheiro sem aprender a nadar.

Somente assim pude na própria vida, desmorrer.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Inteiros...

Seu toque criou mundos e amores inteiros dentro de mim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Travessias...

Podia ser que o amor germinasse e estivesse árvore a deter-se nas alturas. O medo seria zangada andorinha com desejos vazios de castigar nuvens. A beleza do amor atrairia a sorte: é somente disso que precisamos para as travessias, não? O destino tratar-se-ia de um abismo feio sem esta ventura. Até a morte cá chegar seria um longe. Até a esperança cá chegar seria um longe. A sorte no amor é precisar urgentemente do futuro. E tê-lo desde já.

O azar seria uma pressa de fugir.