segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Inspiração...

Já faz um tempo que não tenho mais o que dizer, mas ainda escrevo. Tornei-me represada possibilidade de novas páginas de mim. Tornei-me palavra ressecada que nenhum fruto entrega, distante lembrança dos meus florescimentos, um completo esquecimento das minhas venturas. Sou palavra polida pelo ego a dar lume ao que nada mais brilha. Sou uma falta, um bloqueio, uma negação das minhas inspirações; alma turva que não mais enxerga as transparentes traduções das minhas marés. Eu sou a poesia de uma flor que já morreu. O lado de dentro tornou-se prisão dos meus vocabulários. As repetidas tristezas que vivo azedaram a poesia e o amor a quem ninguém dediquei, nem mesmo a mim. Vivo anestesiado em meus escuros enquanto as repetições me assombram. Desaprendi liberdade e verso sobre aflições nas quais me graduei. Ensinava sobre asas, hoje falo sobre avessos. Antes apontava caminhos, hoje ando em círculos no meu íntimo labirinto de temas e pregações. Eu sou a aridez das minhas próprias histórias que não mais testemunham as levezas no papel. Como o semeador que nada fez, adormeci nas letras e ganhei alergia aos encantamentos que não pratiquei. Gastei meu repertório de virtudes ensaiadas. Escrevi sob encomenda das sabedorias que não ouvi e hoje nada mais escuto. Versei sobre invisíveis que nunca vi e agora nada mais enxergo. Eu que não falei sobre as minhas verdades não sei mais o que dizer. Resumo a escrever para vomitar engasgadas tristezas com a facilidade de quem atravessa nuvens mas não toca o céu. Sou a mais real das ilusões que encontrei. Assumi papéis, todos em branco. Desfiz romances e assumi dramas. Peço diariamente que a literatura me salve a ser outro em outro capítulo que agora não sou, visto que sou obra de ficção, e quem sabe, uma obra do acaso: inacabado e inacabável. Já faz um tempo que não tenho mais o que dizer, mas ainda escrevo exatamente por não saber mais o que escrever. Nem como parar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Destinos...

Amor, vim socorrer tuas sementes que temem os invernos. O medo dos amanhãs nascem aos olhos não pelos caminhos imprevistos que podem conduzir-te ao erro, mas pelo fracasso passado dos erros que não soubemos nos despedir. Quando percebemos que as chaves da prisão encontram-se desde sempre no bolso, a essa descoberta podemos chamar verdadeiramente de ano novo. Descultive o temor da repetição destes teus atos empoeirados. Aprende que é possível recomeçar ou renascer sem sair do lugar. A verdade é terra sem caminhos dentro de cada um, onde liberdade é o espaço para nos movermos dentro de nós lançando as sementes para as possibilidades que virão a ser. Apropria-te de ti, pois não há nada nesta vida que não seja responsabilidade. Não devas nada ao azar, tampouco à sorte. Cresça mesmo por entre as estiagens; é para isso que nos servem os ciclos e as dores. Saiba que não há sentido imposto em nossos passos, porque não é o destino quem de fato nos guia, mas nós quem o guiamos; ele é a possibilidade que temos em olhar para um só caminho e escolher segui-lo. És o resultado das escolhas que ainda irás fazer. O futuro pouco sabe de nós. Assim, cumpre teu dia hoje como se fosse teu inteiro destino, porque o é. 

E cuida o melhor que podes do teu agora, todos os teus amanhãs passarão por ele...

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Casal...

Eles não bebem do mesmo café, nem brindam do mesmo vinho e tampouco dividem do mesmo trabalho. Eles não moram no mesmo bairro e não leem as mesmas notícias. Eles não se sabem como aqueles que vivem a disciplina do já conhecido relógio dos relacionamentos. Desconhecem o tempo das esperas e a espera por respostas. O que sabem é ser descanso e segredo um do outro exatamente porque não se precisam, tão-somente se gostam. Colecionam nas prosas, levezas que se conversam, esquinas que se namoram, muitos sonhos, absurdos e confissões que só as almas afins e os espelhos do quarto podem saber do que a gente é feito. E não há ninguém que desconfie de suas verdadeiras identidades, não há quem descubra qual vento os carrega, que medo os aprisiona, nem quem saiba de suas vontades sinceras declaradas apenas na língua que criaram e que diz mais ou menos assim: Que a gente é feito pra caber onde não cabe. Que a gente é feito pra ter o que não possui. Que a gente é feito pra viver como não vive. Que a gente é feito para crer no que é incrível. Que a gente é feito pra amar como não ama. Que merecimento é uma escolha. E que pertencer vai mais além do que suspeitamos. Não, não há ninguém que possa imaginar que eles no dia-a-dia sejam um casal, apaixonados por ausências. Ausências de cobranças e sentenças, julgamentos e pedidos de alforria. Ausência de regras, de moralismo barato, pesos do mundo, críticas alheias, rotinas, boicotes tantos e dias pela metade. Não esperam do outro aquilo que o outro já não seja. Não carregam pretensões bobas de acordar juntos no dia seguinte, por já serem colo e carinho em qualquer lugar. Apaixonados pela falta de incertezas, enamorados pelas levezas em comum. Recusam ao suspeitarem de laços que possam vir a pesar e impedir braços abertos e que impeçam os voos constantes do pensar e do desejo. Ela dá nome aos seus imensos. Ele se aconchega no cheirinho de descompromisso dela. E por morarem um no outro, não carecem de explicações. O mundo inteiro lhes pertence e isso é o suficiente. Não há falta que incomode nem distância que emudeça. O mundo inteiro lhes cativa e isso é o importante. Assim, não se trancam, não se impedem nem se cobram - mas se encantam. São cúmplices de suspiros e co-autores das vergonhas que repartem, dos prazeres que se permitem. Seus únicos compromissos na agenda são com o acaso e com as singelezas. Só eles sabem de seus pecados, além e aquém das formas, nomes, papéis, pautas e cenários que inevitavelmente vivem. São insuspeitos, ousados e discretos. São inteiros em seus pedaços, mas são pequenos em seus inteiros. São também alérgicos ao morno, ao medo, ao mesmo e ao cinza que descolore a intensidade dos encontros e que só eles sabem o remédio. O que querem é essa leveza poisada no ar. O que buscam é a garantia de que nada os prenda ou os garanta. O que esperam é não ser motivo de qualquer espera. Chamam isso de poesia. Por isso, são tão livres quanto condenados, por celebrarem pecados e portas abertas sem ninguém saber. 

Dividem a única culpa que carregam e que reconhecem: a de não sentir culpa nenhuma.

(Guilherme Antunes & Camila Heloíse)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Queimar os olhos...

O amor, meu filho, talvez seja aquilo que no outro faz-nos frequentemente visitarmos os sorrisos. O amor há de nos causar incômodo, não ao certo pela ausência de quem ama, mas pelo muito do que nos deixa do amado. Veja, do amor posso falar somente pelos seus efeitos, visíveis em nós. Assim, não é possível haver rigor para diretas definições. Vestir-se de amor é despir-se de certezas, devendo ajustarmo-nos a ele e não seu contrário. Digo-lhe isso pelo que com convicção desaprendi, filho. Culpa das imprecisões do verbo amar. E tudo porque posso dizer-lhe que amei, embora não saiba dizer o que é o amor. Posso dizer-lhe que sei amar e que fui amado, mas não sei dizer o que o amor é. Pois nos braços do amor morri e das suas mãos à vida tornei, mas não sei o contorno daquilo que pôs-me a morrer ou renascer. Creio que tenha sido por isso que o vivi, por não defini-lo na busca de um extático conceito. O amor talvez só tenha sua desenvoltura se não o encaixarmos no exato sentido dos vocábulos. Sabemos de sua sombra pelo descanso que nos permite. Mas insatisfeitos, insistimos em encontrar aquilo que a cria, perdendo nisto o exato lugar dos repousos, vindo a queimarmos nós os próprios olhos.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O nosso silêncio...

Há momentos na vida em que não adianta dizermos a quem dói "calma, vai passar, não se preocupe". Muitas vezes as aflições não se aliviam com palavras, com incentivos, com certezas nossas que emprestamos na melhor das intenções. A alma pede afago, o cansaço pede colo e a desperança que nos enfraquece pede a distração que nem sempre trazemos como receita no nosso repertório. Há momentos em que não adiantará dizermos nada - ou tudo - a quem dói. Há momentos em que apenas o improviso do carinho saberá como cuidar, e que, sem imaginarmos como, diluiremos a tristeza do outro por ouvir o outro sem lhe dar respostas, por estendermos a mão mesmo sem sabermos o que fazer depois, permitindo que ao partilhar seus cacos e metades alivie-se do excesso de mundo que o atormenta.

Às vezes a vida que nos grita pede o nosso silêncio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Paredes...

Prisioneira de si, vivia sua vida como se cumprisse pena, atravessando os dias como a resignada desistente da luta contra uma doença incurável que fingia ignorar ter ela própria escolhido: a infelicidade. 

De alguma maneira, sofria mais para proteger-se de sofrer, fazendo do cansaço razão para erguer suas paredes.

sábado, 12 de setembro de 2015

A canção...

amo quando colocas tua alma na boca e sopra:

este teu canto de pássara
convoca-me 
dos meus próprios outonos.

deverias saber de antes mas
se não sabes, digo

és tu mesma a canção.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Consulta...

Consultei os búzios, as runas, ruínas, o boletim das estradas, o calendário da oficina.
Consultei o vinho, o vizinho, a cerveja, a própria certeza e a conta do bar.
Consultei o garçom, o maçom, bula de remédio, o síndico do prédio e as conchas do mar.
Consultei órbitas celestes, a figurinha do chiclete, minha tia ex-chacrete e os óbitos do jornal.
Consultei o mendigo indigente e o homem influente que ria da gente com seu traje formal.
Consultei a previsão do tempo, o extrato do banco, a velha no banco e do padre o sermão.
Consultei livro dos sonhos, anotação e dicionário, os cabides do armário, inclusive o coração.
Consultei o medo, a moda, a prosa, a chuva e o amigo antigo de Ipanema.
Consultei pajé, mané, a borra do café, o censo do IBGE e o resultado da telesena.

não importa:
no amor,
qualquer previsão
nos é sempre
favorável.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Zodíaco...

Contrariando habituais expectativas do zodíaco nos exatos dias do meu calendário, encaixo amanhã imprevisto: saber esquina ou mesa de bar em que a linha - aparentemente distante e independente - da sua vida, cruzará com a minha. No inimaginado encontro de retas e caminhos tão paralelos, sobrepostas faltas de ar; inesperados suspiros; insuspeitos e largos sorrisos; uma não planejada falta de jeito. Diante do acaso, um caso, um encontro, um romance. 

O amor tem dessas desnecessidades...

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Uma vez mais...

uma vez mais tratarei de lhe falar sobre a elegância das nuvens
explicando-lhe a importância da primavera 
a necessidade dos invernos;

uma vez mais faremos amor pela primeira vez;
falarei poemas. não importa se meus ou de outros, 
visto que são poemas;

uma vez mais dançaremos no quarto qualquer canção que escolheremos nossa;

uma vez mais descobriremos o lirismo dos silêncios;
uma vez mais lhe darei broncas por seres tão injusta consigo;
uma vez mais desconheceremos quando voltaremos a doer;
e da inocência faremos a cura da inocência que perdemos;

nossos dias são lugares felizes, amor
nossos corpos tem ângulos exatos
coragens e covardias nos serão exatamente suficientes.

amo-te para acalmar as horas todas
beijo-te com a urgência de um para sempre
deixa-me tão aberto ao mundo para que não precise dele;

uma vez mais, amor,
era este desassossego
de que precisava.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Cuidado...

Cuidado: a infelicidade quando muita na vida, afoga-nos para dentro de nós, criando risco de se desesperados, agarrarmos qualquer coisa ou pessoa que para nada nos serve ou ajuda. Passamos a viver o velho ditado: para quem está afundando, jacaré é tronco. Um tronco existencial e afetivo, no caso.

A carência deve ser compreendida como um pedido de socorro de nós para nós mesmos - e não um estado de mendicância - para não nos deixarmos à deriva, e recuperarmos o amor próprio que em algum momento da jornada se perdeu ou foi atirado ao mar por alguém que permitimos após convidarmos a embarcar conosco.

Há marés interiores que se tratam de avisos de retorno à terra firme. A alma sempre pressente as tempestades.

Sem amor próprio, entulhamos lixos e desencontros, nomes e desesperanças que aumentam enquanto nós diminuímos, conforme o tempo passa e nada muda.

Sem amor próprio, não adianta. Não haverá porto que nos deixe aportar em paz.

É apenas com o amor próprio recomposto que retomamos a dignidade. Dignos e sentimo-nos suficientes para então abandonar misérias que atraímos sem nunca nos pertencer, despedindo personagens que não cabem mais em nossos cenários, descartando cenários que não cabem mais em nossos amanhãs.

De posse do amor próprio, contamos nossas próprias histórias.
Sem ele, somos apenas rascunho.