domingo, 30 de agosto de 2015

Destino...

'Desde quando felicidade é destino?' - pensava. As pessoas faziam coisas com ideias exatas de cumprir roteiros como se ao final felicidade as aguardasse. Como se fosse conquista, como se devêssemos exaurir tristezas para o devido merecimento, como resultado direto de acertadas escolhas. Não conhecia quem houvesse aportado na felicidade. Não conhecia quem a houvesse buscado e pela busca encontrado. Assim, tinha direitos em desviar-se das tristezas. O desvio mesmo lhe era uma pequena felicidade. Como todas as outras felicidades. Pequenas. Como todas as grandes felicidades.

Não importava.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Tola...

Parecia ela precisar repensar sempre seus sentimentos para que se mantivessem afinados com a dor. Eram as releituras de sua miséria a esmiuçar os próprios erros e os alheios que lhe afetavam, ensaiando e repassando diálogos e outros pretéritos incômodos, prendendo-se a cada um deles, fosse pela culpa ou pelo ressentimento. Bebia ela o veneno da frustração, da raiva e da tristeza. Era assim como cultivava sua tolice. Sentia-se tola, definitivamente, não conseguindo deixar de ser apenas por se saber que é.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Para calar-me...

Não me atreveria ensaiar palavras de impacto - como vejo tantas por aí - a declarar amor aos teus olhos, justamente por seres tu a leitora. Liberto-te dos clichês amorosos açucarados meu amor, embora paradoxalmente vivamos todos e cada um deles no dia-a-dia.

Quão descabido são os expedientes do mais do mesmo que usam os amantes para afirmar união e jurar fidelidades? Pergunto em nosso caso: afirmar o quê? Não venho cá afirmar aquilo que o nosso amor sabe o que é. E se se encantam os outros com o que escrevo, é por mera casualidade, pois, pensam que vivem o mesmo que nós e se encontram aqui refletidos. A única semelhança entre eles e nós é que também somos um casal.

As palavras vendem coisas - e por sinal prometem mais do que entregam - tais como suspiros e certezas. Mas as entrelinhas confessam verdades, e outras coisas pela razão exata de serem entrelinhas. Costuro palavras que apenas em ti caem bem, embora as tentem vestir os outros. Apenas tu podes decifrá-las. Decifrar-me. Beber de mim e matar a sede. E peço que tu leias no silêncio do nosso quarto depois do orgasmo. Encontrarás no meu corpo e no abraço aquilo que sempre declaro sem nunca dizer.

As palavras são os pretextos do amor para calar-me.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Os erros nossos...

Sofremos pela ausência das raízes que a nós nos inventaram;
quão reais são os desesperos e artificiais as alegrias?

Ressentimo-nos do vento que continua a bater 
sem respeito a qualquer tragédia,
pois para longe do que é certo ou parece-nos acertado
continuamos a fazer coisas sem saber ou por uma lúcida estupidez.

Ignorantes, perdemos ainda mais por cultivarmos a dor das perdas.
Ignorantes, atrasaremos ainda mais por descontarmos esta dor nas primaveras.

Rezamos antes de dormir para que os outros 
venham a perdoar os erros nossos.

A esperança é que amanhã estejamos mais despertos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Maturidade...

As idades vão além das velas assopradas, meu filho. Despindo-se a ideia de tempo em que atravessamos as coisas postas, elas pouco tem que ver com os calendários. A idade mostra-se no que costuramos e como costuramos com aquilo que vivemos. A idade mostra-se na resposta que damos às perguntas que fazemos e na pergunta que fazemos às respostas que nos dão, conforme trocamos de cenário ao longo dos passos. A idade mostra-se na palavra a concedermos gentileza e a gentileza que concedemos por calar. O que se verifica nos documentos faz-se apenas referência à história dos lugares nossos e da geografia do próprio corpo.

A expressão de uma idade bem vivida, filho, chama-se maturidade.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Qual amanhã?

Ver-te os teus detalhes todos; teus traços, tuas expressões; como mexe a boca, como puxa o "r", as entonações, as pausas, o teu perfume; o laço que tens no cabelo; como apoia os braços na mesa, para onde vão teus olhos quando sem jeito, quando se lembram, quando prestam atenção nas minhas mãos enquanto distraído falo. 

Vital será respirar através dos teus olhos e dos teus sorrisos.
Vital será ficar para o por do sol contigo porque és tu a beleza do por do sol.

Ah, mulher! 
De qual sonho vieste? 
Com qual sonho te vestes? 
Com qual palavra te despes? 
Com qual silêncio me teces?

E em qual amanhã tu me amas?

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Expectativas...

Expectativa é teimosia antiga nossa, filho, em que exigimos aos agoras aquilo que não lhes cabe. É noite mal dormida para adiantar manhãs. A semente que no descaso à sua primavera quer no inverno vender seus próprios frutos. Um presente vivendo de futuro e o futuro vivendo já de romances. O cigarro que se apaga sem direito tragarmos. Devorar o relógio, o estômago, a paciência. Irmã rebelde das esperanças, expectativa é dispensa dos caminhos e apego às chegadas. Filha mais nova da ansiedade, é o disfarçado avesso das entregas.

Ali, meu filho, amor não resiste muito não.


"Só se está intraquilo enquanto se tem esperanças". (Hermann Hesse)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Definitivamente...

O peito enchemos de orgulho como se tudo sozinhos conquistássemos.
Como se não fôssemos obrigados a pagar, nem a sorrir.
Empatamos a vida - e os outros - com retóricas, como se estivéssemos cheios de razão.
E magoados, aguardamos satisfações que não nos dão.
Apanhados diminuídos, incertos, assustadoramente lúcidos, perdemos o tempo ganhando as idades.
Cuidam-me como planta, como coisa, como qualquer coisa.
Escolhem por mim o que me apetecer. E apeteço-me, como se tivesse alguma liberdade.
Fingimos dizer que a solidão interessa-nos de algum modo. 
Assunto que usamos pela companhia de não ficarmos sós.

O amor, definitivamente, é para heróis.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Da vida e dos destinos...

Quis moça desavisada deixar seus encontros e querências todas nas mãos do destino. Acreditava que se assim se cumprisse estaria ela abençoada com cenários e personagens quaisquer que lhe cruzassem, legitimada a esperar desde agora as oportunas resoluções de suas questões e intrincados labirintos, facilitada a aceitar amargos que não previra e agradecer pelas alegrias que não planejara. Mas, o que é o destino senão uma ideia, um conceito? O que é o destino senão um nome? Onde estaria senão nas páginas da literatura e dos dicionários? Não sabia moça que dava vida à vida, tirando vida de si para isso. Não percebia que à abstrata ideia dos destinos dava-lhe substância, forma ao conjunto impreciso dos seus amanhãs, consistência às possibilidades e personalidade a um ente criado pela linguagem do homem a quem passamos a confiar a revelação das escolhas do que (acreditamos que) não escolhemos. Diminuímos nosso alcance por conta própria ao transferirmos a quase inteira responsabilidade das nossas ações à esta ideia sem braços, dando-lhe o poder de ditar-nos muitas das vitórias, fracassos, perdas e coincidências, frutos talvez de um mero capricho ou da experiência que pensa este tal destino ser necessária a dar sentido ao nosso caminho. Não percebia moça a ilusão de que todos sofriam, e que as mãos do destino eram as suas próprias mãos, não podendo colher no amanhã se não fosse ela a jogar desde já suas sementes.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Naufragar...

Às vezes naufragar é mais prudente do que continuar remando. Na vida nem todas as coisas são superáveis, possíveis, continuáveis. Uma perda, um final, uma agressão, uma dor, um trauma. Nem sempre vale a pena prosseguir. Saber o momento de largar as armas, soltar a corda, declarar cansaço e desistência. Continuar no mais das vezes equivale a apostar em um jogo que inevitavelmente iremos perder: o tempo, o espaço, a coerência, o amor próprio, outras alturas. Às vezes é necessário desistir, sentir o gosto da derrota, sem pensar o que se poderia fazer mais. O problema é que pensamos. O ruim é saber o momento correto. Precisamos saber o imenso de mar em que moramos e desmoronamos. 

Se navegar é preciso, naufragar é essencial.

domingo, 9 de agosto de 2015

A que não sou...

Não sei a mulher que sou, mas sei a mulher que não sou. Não sou a mulher que se esconde nos tachos, a mulher que se cala nas horas, que se entrega ao embuste da segurança, à fraude suportável de ver passar o tempo. Não. Não sou. Não sou a mulher do fado e das lágrimas, a mulher do enfado e das rotinas, dos sonhos que se arrastam pelas esquinas. Não. Não sou. Não sou mulher de sorrisos quando existe a gargalhada, de aldeias quando existe o mundo. Não sou nem um milímetro menos do que aquilo que posso ser, e se um dia cair, foi porque tentei saltar e não porque preferi aceitar.

(Pedro Chagas Freitas)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Engano...

Ah, enganam-se todos que creem que escrevo, senhora. Venço pelo cansaço os silêncios do papel, apenas. Insisto para que me contem algo, incomodo-os para que declarem aquilo que sabem. Intimido com agudos acentos e palavras cortantes. E por não saberem dizer nada além do que disseram-me, por não conseguirem denunciar-me pelas ameaças e tampouco pela falsidade, colo abaixo minha assinatura. Aproprio-me do que não é meu. Veja, eu não saberia falar de coisas tão bonitas e mentiras que nunca usei ou verdades que nunca me pertenceram. O alívio é que por isso sou inocente pelas coisas que acreditam os outros que nas letras os acuso. O alívio é que posso manter-me culpado quando nas letras os inocento.

Ah, enganam-se todos que creem que escrevo. É a vida que nos silêncios usa-me para escrever. É o momento quem descreve o momento. Eu sou usado apenas para redigir milagres que não me pertencem. Eu sou testemunha imediata das revelações.

Mas eu, verdadeiramente, nunca disse nada.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Dos motivos...

Arte das mãos da Carina Boldi.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Ocupação...

Sabemos dos sentimentos pelos espaços que ocupam, dizia minha vó. A tristeza afasta-nos do outro a botar cada qual nos lados distantes da casa. O medo põe-nos sempre debaixo da mesa. A solidão preenche vazios nos cantos da sala. O sofrimento amontoa-nos a descartar-nos na primeira oportunidade. E o amor vem a ocupar-se de nós na mesma cama apertada. É o suficiente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Improviso...

A vida, meu filho, parece-me um contínuo esvaziamento e preenchimento do que há em nós. Um acúmulo constante e um esquecimento contínuo da gente mesmo. A silenciosa batalha entre o que somos e o que desejamos ser. Creio que se não caminhamos para nos encontrarmos, fugimos para não nos perdermos; e esta diferença é sutil aos nossos olhos. Carregamos miséria para não ficarmos ricos, e por vezes deitamos antes mesmo da morte nos deitar. Isto porque temos medo de cairmos pelo excesso de nada com que nos sufocamos.

Eu só lhe declaro isso, filho, porque nossa vida é um improviso; nas mesmas cenas e cenários de sempre.