terça-feira, 30 de junho de 2015

Atenciosamente...

Onde fecho a torneira? 
Onde se encontra o registro? 
Como se tapa o buraco? 
O lugar por onde me sai o excesso de vida
é o lugar por onde me entra o excesso de mundo.

A não sentir tanto,
a não pensar muito,
a não me doer todo,
a não viver demais

alguém me dê a medida,
alguém aponte com exatidão:
Como devo sentir o que sinto?
Como devo pensar no que penso?
Como devo morrer no que deve partir?
Como proceder com o que resolveu ficar?

Alguém me conte como se comportar.
Como é não morrer sempre pelo exagero
com um intenso cravado no peito,
por um transbordamento a sufocar-me 
a própria alma.

Por favor, dêem-me a cura das alternâncias,
das incongruências,
das contradições,
dos altos e baixos.

Aceito dores de parto
a livrar-me de vez destas angústias.

Atenciosamente.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Palhaço...

[...] porque depois de profundas tristezas que nos escolhem vez ou outra nesta vida, para continuarmos fazendo sentido para nós mesmos, precisamos nos reinventar. Assim faz o palhaço ao escolher seu novo número, quando a versão antiga de si já não agrada mais a ninguém. Para ele, meu filho, o silêncio de sua platéia é esta profunda tristeza de que lhe falo.

domingo, 28 de junho de 2015

A minha fé...

banho-me na poesia
a secar-me as mágoas tantas.

ilumino-me no poema
a apagar-me os medos todos.

diluo-me nas letras
a ganhar-me alguma solidez.

recordo dentro de um verso
o que fora busco esquecer.

entre raízes, razões
mentiras e mistérios
acredito:

a palavra também é minha fé.

sábado, 27 de junho de 2015

Lábios...

Ele está a dizer as coisas com cuidado como se lhe guardasse o próprio amor na boca. Como se fora um fruto, um filho, e ao falar à sua amada dá a luz por entre os lábios sem se dar conta que se faz noite.

Um homem amado jamais anoitece.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Recomeçar...

Parece-me, filho, que carregamos defeito de nascença: estaremos sempre desconfortáveis em nossa própria felicidade. Por isso nela não permanecemos, partindo para regressarmos inúmeras vezes. Veja, não a boicotamos. Isto é aparente, uma das tantas mentiras que contamos para não lidarmos com a verdade. Bebemos o suficiente para sentirmos sede novamente. A felicidade demasiado longa amarga-nos.

O homem sempre criará desculpas para recomeçar melhor os seus destinos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Da paixão...

beijo-te a seguir como se fora o primeiro beijo.
beijo-te o primeiro como se fora o único.
amo-te com a força das marés sob a lua cheia. 
amo-te como dragão cheio de fúria.
amo-te como a devoção da taça ao vinho.
amo-te como se pudesse empreender milagres.
não sou outro que não tu mesma enquanto te amo.
não separo o tempo do espaço nos abraços.
não separo teu nome da minha boca nos sorrisos.
não afasto tua paixão da minha pele
nem dos destinos.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Atravessá-la...

A mim me parece, filho, que o amor quase sempre encontra os despreparados. E só saberemos se somos um deles se o amor vier a nos encontrar. Eis dolorosa ironia, não haver outra maneira de nos livrarmos da dúvida sem atravessá-la.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Dialética...

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...

(Vinicius de Moraes)

domingo, 21 de junho de 2015

Com o boicote...

O equilíbrio entre as tensões dos nossos contrários, tais como o claro e o escuro, a razão e a emoção, o salto e o recuar do abismo, deve ser buscado dentro de nós mesmos, e não fora. Pedir aos outros garantias não nos dá nada além de fragilidade, e a necessidade de cada vez mais nos sentirmos seguros através deles. Não haverá descanso. O amor viverá num território delimitado pela claridade, pois somente ali poderão alcançar os olhos. As entregas passarão por um silencioso controle de qualidade a que submeteremos o coração e a vida. Qualquer deslize das nossas certezas que colecionamos incessantemente com argamassa, poremos a própria verdade do sentimento em dúvida.

Poderemos flertar com o boicote.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Nunca...

Nunca imaginei que estar feliz pudesse incluir tanta tristeza.

(Mario Benedetti in: A primavera num espelho partido)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

O nada que preciso...

Não quero muitas
E nem poucas palavras.
Não quero definições
E nem quero sentenças.
Quero apenas caminhar com sede
E ouvir-me silenciosamente,
Enquanto atravesso essa vida em tumulto,
Esse alarde,
Essa insana busca de tudo,
Para o nada que preciso.

(Aline Binns)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

L´amour...

O amor é quem confessa quando o ego se cala.
O amor é o que se desnuda quando o medo se despe.
Quando o cansaço em nós reside é o amor que permanece.
O amor é o silêncio quando é só o amor quem fala.

O amor é o que encontramos ao deixarmos de buscá-lo.
O amor é o que entendemos sem tentar analisá-lo.
O amor é a aceitação do próprio amor e seu contrário.
O amor é o espelho em que mais bonita te pareces.

O amor é o laço que a nenhum de nós nos prende.
O amor sabe ter pressa e também ser paciente.
Paixão sem amor amorna, paixão com amor acende.
O amor é a oração que o mundo inteiro compreende.

Amar é permitir-se ser cafona - e sublime - por pleno direito.
Permita-me ser cafona e sublime.
Por ser teu.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Perfeição...

Um dos sintomas da nossa busca sincera pelo amor é quando nele, 
por ele nos aperfeiçoarmos.

Aperfeiçoar-se é reconhecer que a perfeição no amor 
também inclui as nossas imperfeições.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Quer que desenhe?

A pessoa enjoa quando lê o que quer que seja num veículo em movimento.
A pessoa enjoará caso leia o que quer que seja num veículo em movimento. 
A pessoa sabe que enjoará caso leia o que quer que seja num veículo em movimento.

A segunda vez já seria o suficiente para que ela entendesse a ideia.
A terceira vez já seria o suficiente para que ela entendesse o recado.
A décima quarta vez já seria o suficiente para que ela entendesse a questão.

Ela insiste. Uma vez mais. Acha que desta vez não será bem assim.

A pessoa é você (e eu).
O veículo em movimento é a vida.

E se nesta analogia barata ligássemos o rádio, ouviríamos as notícias a nos dizer: tá difícil ou quer que desenhe?

domingo, 7 de junho de 2015

A fórmula...

Você não aguenta mais ser o que tem sido. E disfarça isso muito bem. A vida te convida continuamente e de tantos jeitos a ser outra, a recuperar muito do que já se perdeu, reconquistando a auto-estima, o equilíbrio, a serenidade. Você aprendeu muito bem a recusar convites. Sabemos, não é fácil. Rezar não é o suficiente. Chorar não é o suficiente. Doer não será o suficiente. Você sabe do que se trata: mudar escolhas, atitudes, a postura, o olhar. A alquimia interior que vivemos a adiar por acreditarmos que é o futuro quem nos reserva algo bom, não o presente. E por não sabermos hoje qual caminho tomar, escolhemos não tomar caminho algum. Sim, gostaríamos da receita pronta para a cura dos nossos males. Um sonho, um livro, uma cartomante a dar-nos o conselho certo, a orientação precisa que nos liberte das nossas angústias, das mágoas, ansiedades e dos nossos desgastados amores. Gostaríamos da mensagem reveladora, como se ler ou ouvir verdade sobre nós vinda dos outros nos libertasse de nós mesmos. Uma outra notícia que ainda não sabemos, a chave exata a nos aliviar dos ressentimentos, dos medos e culpas que arrastamos. Queremos saber a direção a seguir que nos alivie. Ansiamos pelo passe de mágica, o comprimido que ao despertarmos amanhã nos faça outros. Inteiros. E tudo porque desejamos ser outros sem deixarmos de ser quem somos. Desejamos a mudança sem sairmos do lugar, buscamos o novo céu repetindo as mesmas histórias e os mesmos dias nublados. Queremos que a boa nova seja compatível com tudo aquilo que temos sido, que o sacrifício se estenda até a página dois somente, que o desafio conviva com o falso conforto do cativeiro que enfeitamos com festas e fugas a que chamamos de vida. Assim, desejamos que o novo se encaixe perfeitamente no velho e que a novidade apareça entre as escolhas que repetimos. Queremos que a nossa independência nos traga sabedoria, e que a sabedoria nos leve à independência. Enquanto isso, esperamos. Que o amanhã se canse tanto quanto a gente e nos mude de direção. E que seja a vida a nos abrir a porta, não a gente mesmo.

A liberdade começa em segurar a chave antes de abri-la.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Advérbios...

moça tímida,
seu único jeito de sair de casa,
da casca
e de si

era enfeitada de poesia.

empurrou silêncio pra fora da boca
e vestiu palavra.

linda,
suspiraram os advérbios.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Colo...

Pudesse eu dar colo ao mundo todo,
para egoísta esquecer-me a dor inteira,
e das tantas metades muitas
que ainda muito me lembram tanto
a voz do teu amor
preguiçoso,
no meu céu
das manhãs
de quase 
junho.