quinta-feira, 30 de abril de 2015

Arranhe...

Sabe o que eu quero de verdade? Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma...

(Clarice Lispector)

Selfies...

Uma observação a qualquer hora:

Se todos aqueles que postam suas trilhares de selfies acompanhadas de frasezinhas motivacionais e filosóficas praticassem realmente o que enfeitam suas poses sejam elas no espelho, na festa, na praia, na rua, na chuva ou na fazenda, o mundo talvez - talvez - fosse lugar um bocadinho melhor.

E caso assim fosse, ironicamente teríamos menos selfies com frasezinhas motivacionais e filosóficas.

Quanta sabedoria fotográfica nas redes sociais; a cada álbum de fotos que vejo e me sinto sendo dispensado da psicoterapia pela sabedoria fotogênica alheia.

Oremos.

terça-feira, 28 de abril de 2015

As mãos da discórdia...

Eu gosto de comemorar meu aniversário. E gosto de comemorá-lo por algumas razões: é um dia que te prestigiam apenas porque você nasceu; não sendo preciso ter feito nada além de estar vivo no mundo. Você não precisa ter sido promovido no trabalho, dar 3 seguidas, dominar 4 idiomas, publicar 5 livros, fazer uma boa baliza ou ser aprovado - com louvor! - no exame de fezes. As pessoas te parabenizam simplesmente porque você existe, sem precisar provar nada para ninguém. Gosto de comemorar meu aniversário por ser um dia que podemos chapar de açúcar mesmo numa segunda-feira de dieta, suspendendo sem culpa, a própria culpa, e sem recusar aqueles dois bolos-mousse de seis camadas que encomendaram tanto no serviço quanto em casa pra gente. Assim não decepcionaremos aqueles que irão comer o bolo de qualquer jeito em caso de desfeita nossa. Gosto de comemorar aniversário por ser o momento de por à prova tudo aquilo que aprendemos sobre paciência no resto do ano, ao atendermos a chamada daquela tia septuagenária que não lembrávamos, mas que reaparece altiva para desejar por 45 eternos minutos toda a felicidade do mundo, perguntando-nos inclusive sobre nosso irmão, pai, mãe, vó, carreira, estudo, papagaio and periquito. Gosto de comemorar meu aniversário pelo jeito de feriado exclusivo, ou melhor, pelo jeito daqueles dias comemorativos que a câmara municipal de Quixeramobim decreta ao dia do pipoqueiro vesgo. Ou seja, de nada serve e você embora se sinta contemplado, vai trabalhar do mesmo jeito. Agora, o que eu abomino no meu aniversário é a hora do parabéns. Primeiro porque, bem, eu abomino a hora do parabéns. Segundo porque eu simplesmente não sei o que fazer, a não ser me constranger. Eu não sei se canto junto (ou se mexo só a boca como se cantasse), se olho de um em um a minha volta ou se encaro somente o bolo. E o pior, eu não sei o que fazer com as mãos. Se as coloco no bolso, se cruzo os braços, se bato palma pra mim mesmo ou se peço uma criança emprestada da festa pra segurar. Que seja! Enquanto não houver regra de etiqueta ou compêndio de metafísica a aliviar minha angústia e resolver o caso, o primeiro pedaço será sempre, sempre, o meu.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

À mim...

Hoje, peço à vida ser abençoado e necessário abandono, para que o que restar de mim daqui pra frente seja a minha redenção, para que os amanhãs me acolham e me recebam outro, inteiro. Para que a próxima página esteja em branco e o coração, preenchido. Para que entre os meus erros, esteja também o meu próprio perdão. Entre os meus apertos, um horizonte em que lá eu honre os meus possíveis. Por isso escrevo, como prece, para acender luz, como pedido de absolvição da minha própria consciência; como pedido de renúncia dos medos que não me traduzem. Agora é o momento de reaver as asas. Por isso escrevo, como se aqui eu pudesse me confessar e me lembrar do que posso ser quando me sinto livre e amo; e do que posso ser ao me libertar naquilo que escrevo.

domingo, 26 de abril de 2015

Perdoa-me...

Pudesse eu chorar esta tua tristeza presa no teu canto.
Pudesse eu ouvir e tu falar da tua dor, diminuindo-a apenas por me dizê-la.
Pudesse eu apagar teu desapego e aliviar tuas dores de vento.
Pudesse eu apanhar no teu lugar, por doer-me menos deste jeito.
Pudesse eu tirar com as mãos os teus escuros todos de dentro.
Pudesse eu te promover a passarinho, converter-te em nuvem, celebrar-te riacho, tirando tuas intenções tolas de pedra.
Pudesse eu fazer-te semente uma vez mais e lhe prometer as primaveras.
Pudesse eu reanimar teus passos e ressuscitar teus sonhos.
Perdoa amor, por ser abraço somente alívio, e por ser ombro mero descanso.
Perdoa amor, por não conseguir fazer do meu corpo o teu recomeço.

Perdoa meu amor, por curar-te apenas na poesia.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Experiência...

Nunca olhar para alguém como um escritor experiente. Não existe isso. Nenhum escritor tem experiência. Escrever é uma coisa próxima de amar, nunca se tem experiência em amar. Ama-se sempre pela primeira vez e com risco, com esta coisa que parece que é a última vez.

(Mia Couto)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Correntes...

Estar é um improviso e ser é permanência, mas uma permanência descuidada por nós. Somos uma fragilidade desatenta às marés que nos atingem incessantemente. Não sabemos se as correntes nos levarão à terra firme ou nos afogarão de vez. Por isso desejamos as sempre mesmas e já conhecidas correntes. Acostumados com suas direções, sabemos pelo hábito para onde nos levarão. E então fazemos do imenso oceano, nossa particular e limitada lagoa, a navegarmos em círculos como se fosse tudo, como se fosse o bastante. E assim tememos as demais pois não sabemos o que será de nós para além das paisagens que não conhecemos. O medo nos desenraíza ao mesmo tempo em que nos prende no mesmo lugar. O não-saber nos apavora e nos desequilibra. Mas quem sabe se permitirmos que a ondulação do ir e vir das coisas mesmas não nos leve àquele lugar, real, e inédito onde possamos aportar e encontrar descanso, mas que por ora só alcançamos no espelho da poesia?

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Autobiografia...

Eu já contei estrelas. Eu já namorei o erro. Eu já fui casado. Eu já bebi demais. Eu já bebi de menos. Eu já me acidentei num outro país. Eu já vendi gelo pra esquimó. Eu já vendi a alma. E já libertei outras. Eu já queimei o arroz, o pão e o filme. Eu já driblei a morte. Eu já dublei minha mãe. Eu já tomei alucinógeno, semancol e chá de sumiço. Eu já me apaixonei pelo sotaque. Eu já abracei meus mestres. Eu já lutei e também fugi. Eu já matei e também morri. Já me atraiu a feiura. Já me cansou a doçura. Eu já chorei no colo da noite, nos braços da solidão, no peito de uma mulher. Eu já dormi em banco de praça. Eu já perdi o ônibus, o ponto, o equilíbrio e a educação. Eu já deixei livros pela metade, planos pela metade, amores pela metade. Eu já confessei e menti. Já atravessei noites em claro e dias no escuro da minha própria consciência. Já tomei banho de chuva, de balde, de mangueira, me sujei de doce e lavei roupa suja em mesa de bar. Eu já fui obsceno. Eu já fui santo. Já cantei na banda, no coral, o bingo e a mulher do próximo. Já pedi perdão e não perdoei. Quem me derrubou já levantei. Já cirandei sob um cajueiro. Já parei o carro para ir só lá no banheiro. Já contei piada em velório. Já chorei em festa. Já naveguei, já levitei, já mergulhei e dormi entre as flores do jardim. Eu já perdi a comanda, a hora, a inocência, a paciência, eu já perdi a linha. Eu já vi milagres, por-do-sol na praia e já me fiz de cego. Eu já perdi a fé e encontrei o amor. Eu já me senti tão foda que me fodi inteiro. Eu já perdi amizades e muito dinheiro. Eu já virei bom moço, pecador, sonhador, eu já virei o jogo, eu já virei o rosto, as costas, eu já me virei sozinho. Eu já fui tanto me sentindo um nada. Eu já fui um nada sendo para alguém um tudo. Eu já menti a idade. Eu já fui celebrado. Eu já fui esquecido. Já acabei e salvei relacionamentos, os meus e de outros. Já paguei promessas e apaguei às pressas. Já dancei forró, valsa, tango, samba e também fiz muita gente dançar. Já rasguei a seda, o verbo, o contrato, o contato, a camisa. Eu já caí no buraco, em tentação, no conto do vigário e em si. Já colecionei moedas, mágoas, amantes, arrependimento. Já fui cético, devoto, arrogante, patético, simpático, generoso e amante; já dei pendura em restaurante. Já armei a barraca, o barraco, o circo. Já arrumei a cama, um drama e confusão. Já salvei uma vida e desejei o mal. Já me senti um lixo e me achei o tal.  Já matei charada, o tempo, a aula e os sonhos.

Aí então eu me encontrei. E finalmente comecei a viver.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Versado nos abismos...

Ela pensa que sofro da mesma altura dela, que vejo o mesmo que ela vê, que o sol e a luz me alcançam do mesmo jeito que a ela enfeita, e que os monstros são equivalentes aos que ela sente. Não sinto, não vejo, não me alcançam e não sofro. Minhas quedas são maiores porque minha altura é maior. Vejo outras distâncias e minhas confusões não são equivalentes, ainda que muito se pareçam. Percorri inteiros labirintos enquanto ela ainda se familiariza com a desorientação. Mas isso não é vantagem meu caro, foi apenas o risco e o tempo de amadurecer. Hoje sou versado nos abismos.

domingo, 12 de abril de 2015

Atrevimento...

Antes de qualquer coisa e de mais nada: amo-te. Amo-te com tudo o que sou e que tenho. E peço-lhe perdão exatamente por isso: por amar-te com tudo o que sou e que tenho. Por amar-te com todos meus medos como nossas testemunhas. Por amar-te com meus sofrimentos como uma distância a mais. Por amar-te com toda minha insegurança como boicote. Por amar-te sem tempo para ser inteiro enquanto corro para sair do labirinto. Por amar-te no exato instante que te machuco, pois, amo-te também nos intervalos em que não te amo. Amo-te sempre sujeito aos precipícios e contradições, entre ciúmes demoníacos e angelical desapego. Amo-te à beira da morte, à beira dos sonhos, à beira da exaustão, da redenção e da loucura. O teu amor dá-me de beber junto aos milagres, pois, teu amor condena-me no exato instante que me humaniza, fragiliza-me no exato instante que me fortalece. Amo-te por isso: pela beleza da pétala mesmo diante dos ventos. Amo-te pelos excessos tantos, pelas ausências todas. Amo-te por ser o amor a fragrância a despertar cada um dos meus fantasmas, e por ser o amor a arma com que venço diariamente cada um deles. Amo-te fadado aos recomeços. Amo-te fadado a pedir sempre perdão, por cada chance que me dás para ser mais amor. Amo-te por exigir que retire de cena minha tristeza, que apague o diálogo da minha dor, que despeça do elenco meu egoísmo. Amo-te por anunciar comigo a vitória da luz, ainda que eu adormeça uma noite mais com medo dos meus próprios escuros. Amo-te para que as lágrimas que provocas me libertem. Amo-te para que as lágrimas que provoco te floresçam. Amo-te com tudo o que tenho e que sou. E peço licença por isso: por amar-te com tudo o que tenho e que sou.

Amo-te pelo atrevimento para ser feliz contigo.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cuidar...

Antes de falar, 
faça com que suas palavras passem por três portões;

no primeiro portão se pergunte: 
O que direi será verdade?

no segundo portão:
O que direi será necessário?

e no terceiro portão:
O que direi será amável?

(Sabedoria Sufi)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Inexatidão...

Não há prontos roteiros, apenas personagens e diálogos improvisados dos nossos (des)encontros. Um amor que inesperado nasce ou que tão logo deixou de ser. Não há necessários caminhos, apenas os que servem e os que não. Não há porta correta, apenas as que abrem e as que não. A melhor escolha às vezes pode ser não escolher. A melhor resposta pode ser nada dizer. A cura que serve às vezes é sentir doer. Às vezes para viver é preciso ter que aqui morrer. Não há acertadas previsões, além dos sonhos, das esperanças e dos desejos. Destino é a possibilidade que você tem em decidir olhar para um só caminho e escolher segui-lo. A inexatidão-de-nós é a mais comum das angústias, e a nossa mais bonita liberdade.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sobranças...

Sobram-me as noites, sobram-me os dias, sobram-me as tardes, sobram-me as manhãs, restam-me as madrugadas. Sobra-me a cama, sobra-me a sala, sobra-me o sofá, sobra-me a rede, sobra-me o quintal, resta-me a casa inteira. Sobra-me o trabalho, sobra-me o happy hour, sobram-me os amigos, sobram-me as bebedeiras, sobram-me os feriados, as férias, sobra-me tempo para qualquer coisa, restam-me os domingos. Sobra-me a toalha da mesa, a massa para lasanha, o vinho na geladeira, sobram-me os chás e os temperos, sobram-me os livros, restam-me as dedicatórias. Sobram-me os cenários, sobram-me os medos, sobra-me o silêncio, o vazio, o remorso, sobram-me os sonhos, resta-me o sono. Sobram-me os planos, restam-me os planos. Sobram-me lembranças, resta-me esquecer. 

Sobra-me tudo. 
Falta-me você.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Precariedade...

entre as tristezas, pousam-me as fragilidades:
ciência da precariedade de todas as coisas.

impermanência e despedidas como inevitáveis temas 
do lado oposto do sentir.

reunindo pecados afastei-me do sol para ver melhor
tudo quanto me põe a viver parece cansaço

e por ser-me o destino um assombro
e sorrir-me sempre o passado,
te aguardo para sempre na memória das ruínas.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Demissão...

a flor em cada semente contém a boa notícia das primaveras.
sementes são feitas de tempo: as flores, as primaveras e as coisas todas.
o tempo deixa-nos as coisas gêmeas: porque gêmeas de vida, 
pulsando-as e doendo-nos de vida, igualmente.
vida a precisar urgentemente dos futuros.

a morte é apenas a demissão do poema.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

1º de abril...

Hoje é um dia estratégico para dizer ao coleguinha de trabalho: você tem mau hálito.

E ser verdade.