terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sinto muito...

Eu, protagonista dos meus erros, testemunhei os alheios como registro que guardei na memória e nunca soube aproveitar. Não houve quem me desse nitidez ou exatidão das coisas que sofremos nem a clareza da desordem de tais coisas. Anestesiei-me com ausências e distâncias. Consumi o corpo acumulando venenos. Consumi a alma reprimindo desastres. Gastei o tempo em bebidas, implicâncias, egoísmos, distrações, sexo, vaidades, cigarro e comprimidos. E embora ela não nos ignore, a verdade é aquilo que temos por costume ignorar. Isto foi o que aprendi justamente por jamais ter me dado antes a chance de aprender. E seja como ela venha, ninguém a anunciará senão os teus próprios sintomas. Ninguém lhe contará de um abrigo qualquer a evitar encarar tuas tristezas e tempestades. A verdade virá arrancar tua mentira. Ainda que para isso extraia tua miséria pela carne e precise você morrer para continuar. Ainda que a dor te deixe à beira da loucura e o cansaço te convoque às desistências. Somente assim, saberemos da força ao nos enxergarmos desesperadoramente frágeis. Somente assim, saberemos quão covardes fomos ao convocarmos à força nossas coragens. A sabedoria acontece-nos desta maneira: quando passamos a viver sem o medo que tanto custou-nos sentir. Pois quando faltou-me tudo, sobrou-me a fé. E por restar-me a fé, todo o mais me foi acrescentado. Por ela evitei prender-me para sempre nos meus próprios escuros.

Se nela não crês, amigo, sinto muito.

2 comentários:

Déborah Arruda. disse...

Você é sempre sutilmente voraz, Gui! As palavras aqui urgem, na cadência impetuosa dos olhos.

Um abraçaço!

Juliêta Barbosa disse...

Gostei do texto: "A Ilha de um homem só", gostei do que escreveu... Tem alma!