terça-feira, 27 de outubro de 2015

Desmorrer...

Afoguei-me vezes sem conta nas lágrimas, senhor. Tanto remei contra e a favor que não mais soube quando contra ou a favor remava. A âncora lancei quando hora de partir; parti quando hora de aportar. Sofri de fomes e excessos, senhor. Sofri de miragens e silêncios. Naveguei em direção às tempestades, sempre às conveniências das minhas marés. Inventei piratas a saquearem os meus tesouros. Tornei-me filho distante das constelações. Graduei-me no tempo um marinheiro sem aprender a nadar.

Somente assim pude na própria vida, desmorrer.

2 comentários:

Lu Sam disse...

Que interessante este termo para designar a vida... Vivemos desmorrendo para aprendermos a viver.
Muito bonito isso.
beijos.

Mae de Rafael, meu Xeberel disse...

Desmorrendi sempre para aprender a desviver...