terça-feira, 22 de setembro de 2015

Casal...

Eles não bebem do mesmo café, nem brindam do mesmo vinho e tampouco dividem do mesmo trabalho. Eles não moram no mesmo bairro e não leem as mesmas notícias. Eles não se sabem como aqueles que vivem a disciplina do já conhecido relógio dos relacionamentos. Desconhecem o tempo das esperas e a espera por respostas. O que sabem é ser descanso e segredo um do outro exatamente porque não se precisam, tão-somente se gostam. Colecionam nas prosas, levezas que se conversam, esquinas que se namoram, muitos sonhos, absurdos e confissões que só as almas afins e os espelhos do quarto podem saber do que a gente é feito. E não há ninguém que desconfie de suas verdadeiras identidades, não há quem descubra qual vento os carrega, que medo os aprisiona, nem quem saiba de suas vontades sinceras declaradas apenas na língua que criaram e que diz mais ou menos assim: Que a gente é feito pra caber onde não cabe. Que a gente é feito pra ter o que não possui. Que a gente é feito pra viver como não vive. Que a gente é feito para crer no que é incrível. Que a gente é feito pra amar como não ama. Que merecimento é uma escolha. E que pertencer vai mais além do que suspeitamos. Não, não há ninguém que possa imaginar que eles no dia-a-dia sejam um casal, apaixonados por ausências. Ausências de cobranças e sentenças, julgamentos e pedidos de alforria. Ausência de regras, de moralismo barato, pesos do mundo, críticas alheias, rotinas, boicotes tantos e dias pela metade. Não esperam do outro aquilo que o outro já não seja. Não carregam pretensões bobas de acordar juntos no dia seguinte, por já serem colo e carinho em qualquer lugar. Apaixonados pela falta de incertezas, enamorados pelas levezas em comum. Recusam ao suspeitarem de laços que possam vir a pesar e impedir braços abertos e que impeçam os voos constantes do pensar e do desejo. Ela dá nome aos seus imensos. Ele se aconchega no cheirinho de descompromisso dela. E por morarem um no outro, não carecem de explicações. O mundo inteiro lhes pertence e isso é o suficiente. Não há falta que incomode nem distância que emudeça. O mundo inteiro lhes cativa e isso é o importante. Assim, não se trancam, não se impedem nem se cobram - mas se encantam. São cúmplices de suspiros e co-autores das vergonhas que repartem, dos prazeres que se permitem. Seus únicos compromissos na agenda são com o acaso e com as singelezas. Só eles sabem de seus pecados, além e aquém das formas, nomes, papéis, pautas e cenários que inevitavelmente vivem. São insuspeitos, ousados e discretos. São inteiros em seus pedaços, mas são pequenos em seus inteiros. São também alérgicos ao morno, ao medo, ao mesmo e ao cinza que descolore a intensidade dos encontros e que só eles sabem o remédio. O que querem é essa leveza poisada no ar. O que buscam é a garantia de que nada os prenda ou os garanta. O que esperam é não ser motivo de qualquer espera. Chamam isso de poesia. Por isso, são tão livres quanto condenados, por celebrarem pecados e portas abertas sem ninguém saber. 

Dividem a única culpa que carregam e que reconhecem: a de não sentir culpa nenhuma.

(Guilherme Antunes & Camila Heloíse)

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