quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Engano...

Ah, enganam-se todos que creem que escrevo, senhora. Venço pelo cansaço os silêncios do papel, apenas. Insisto para que me contem algo, incomodo-os para que declarem aquilo que sabem. Intimido com agudos acentos e palavras cortantes. E por não saberem dizer nada além do que disseram-me, por não conseguirem denunciar-me pelas ameaças e tampouco pela falsidade, colo abaixo minha assinatura. Aproprio-me do que não é meu. Veja, eu não saberia falar de coisas tão bonitas e mentiras que nunca usei ou verdades que nunca me pertenceram. O alívio é que por isso sou inocente pelas coisas que acreditam os outros que nas letras os acuso. O alívio é que posso manter-me culpado quando nas letras os inocento.

Ah, enganam-se todos que creem que escrevo. É a vida que nos silêncios usa-me para escrever. É o momento quem descreve o momento. Eu sou usado apenas para redigir milagres que não me pertencem. Eu sou testemunha imediata das revelações.

Mas eu, verdadeiramente, nunca disse nada.

Um comentário:

Suzi Amaral disse...

Quero meu dinheiro de volta. :P