domingo, 19 de julho de 2015

Os versos...

Os versos não são como se acredita, sentimentos apenas (estes nós os temos em demasia), mas são experiências. Para fazer um verso deve-se ver muitas cidades, seres humanos e coisas; deve-se aprender a conhecer os animais, sentir o vôo dos pássaros e saber o gesto das pequenas flores quando se abrem ao amanhecer. É necessário recordar os caminhos já percorridos por lugares desconhecidos, encontros inesperados e despedidas pressentidas, os dias da infância surgidos de forma estranha, seguidos de profundas e graves transformações; os dias transcorridos sós e silenciosos; as manhãs perto do mar; pensar nas altas horas da noite cheias de murmúrios, levando consigo todas as estrelas do céu. É preciso também ter lembranças de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual à outra; recordar os gestos das parteiras. Deve-se também estar ao lado dos moribundos, ter sentado ao lado dos mortos, com uma janela aberta que bate constantemente e tão pouco basta em ter apenas lembranças. É necessário saber esquecê-las, se são muitas, a ter a grande paciência para esperar para que voltem, só quando estas lembranças se fazem em nós sangue, gesto, sem um nome que possamos distingui-las de nós mesmos, então pode acontecer numa hora insólita brote dentro delas a primeira palavra de um verso, de um poema e se leve a bom termo.

(Rainer M. Rilke)

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