domingo, 5 de julho de 2015

Mia Couto...

Cuidado com este homem que teceu no ventre do próprio nome, armadilha da fêmea encarnada, distraindo com enganos de gênero, os desavisados olhos que não sabem que antes de nascer o mundo, poesia nasceu mulher. Assim, Emílio sagrou-se Mia no amanhecer. E cuidado pois tenho seguros receios de que ele nos roubará todo o encanto das linhas, sobrando-nos apenas um arredondado nada aos mundanos poetas como nós, contentando-nos todos com triviais fonéticas, desencontros consonantais e finitas reticências. Cuidado com este gajo que cultivou nas mãos, as mágicas competências que muito bem conhece seu povo. Que fez do ouvir, abensonhada estória a se escutar. Que fez das infinitas funduras do céu de dentro, o último voo do flamingo. Que ao contar dos seus próprios passos, deu um outro pé à sereia. Que na tradução do seu próprio continente, fez confessar a leoa. Cuidado com este homem que se legitimou nas paternidades da poesia e, armado de doçuras e sabendo-nos apaixonados por ela, concedeu permissões para a visitarmos, ficando de namoricos no muro que separa nossa alma, da sua casa chamada terra. Prendamos definitivamente este homem para eternizá-lo na berma de nenhuma estrada, onde caminham as literárias vozes deste tempo.

(Palavras a celebrar o aniversário do homem que andou a ensinar-me as desenvolturas de afinar palavras)

Nenhum comentário: