domingo, 17 de maio de 2015

Se queres...

Mulher, se queres me amar peço: ama com força, com os dentes, ama com as unhas, com os olhos, o quadril, as tempestades, ama com tuas vísceras, tua ira, ama como se viesses a criar os deuses todos. Ama com a intensidade das marés sob a lua cheia. Ama a aliviar-me da minha própria e finita condição; a dar-me vida e aniquilar-me ininterruptamente. Ama para afastar o ar ou matéria qualquer que nos afaste a boca. E bebe de mim, come de mim, sorva saliva como alma a diluir na tua. Ama para escrever-nos o futuro e apagar-nos o passado. Ama como uma neurose, como doença, e como a cura. Ama como tua maior ambição e o teu mais nobre desapego. Ama como a dor jubilosa do orgasmo, e cale o tempo entre as tuas pernas, cale a dúvida entre os teus gemidos. Lambe-me o queixo e a paz que estendemos entre os lençóis. Ama para interrupção suave do tempo, para o cessar brusco do mundo. Apertar o peito, dilatar pupilas, derramar o sonho, incendiar a lágrima, o sangue, vencer a morte. 

Deita-me na cama dos absurdos, e brinda-nos o amor.

Nenhum comentário: