domingo, 31 de maio de 2015

A outra margem...

Quais não foram as verdades que nas palavras decifrei a lhe explicar as mentiras que você mesma contava para si? Da poesia fiz diariamente a nossa prosa, oculta apenas àqueles que dela se utilizam como distração e fuga. Eu, ao contrário e imerso, aprendi linguagem sagrada que sabem as flores a oferecer-te convite às tuas próprias alturas. Dominei o diálogo dos silêncios tristes que usávamos, para decifrar nossos enganos. Inventei histórias a poupar-te das ilusões das tuas próprias histórias. Nas linhas teci mapa, tracei caminhos, abri janelas. E desde então que sempre te amo, sofro com a tua falta, mas sofro ainda mais com a falta que fazes a ti mesma. Doeu-me ver o quanto você se envenenou com os descaminhos. Perdoa não ter feito - a tempo - da literatura o nosso antídoto. As palavras nas linhas correram na direção contrária do teu caminhar, interpretando presente como se fosse equívoco, reescrevendo passado como se fosse equívoco, desejando futuro como se fosse improvável. A esperança na outra margem, ainda aguarda.

Escrevo aos teus olhos para ser nascente, para que bebas, para que fiques, para que ames.

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