quarta-feira, 15 de abril de 2015

Autobiografia...

Eu já contei estrelas. Eu já namorei o erro. Eu já fui casado. Eu já bebi demais. Eu já bebi de menos. Eu já me acidentei num outro país. Eu já vendi gelo pra esquimó. Eu já vendi a alma. E já libertei outras. Eu já queimei o arroz, o pão e o filme. Eu já driblei a morte. Eu já dublei minha mãe. Eu já tomei alucinógeno, semancol e chá de sumiço. Eu já me apaixonei pelo sotaque. Eu já abracei meus mestres. Eu já lutei e também fugi. Eu já matei e também morri. Já me atraiu a feiura. Já me cansou a doçura. Eu já chorei no colo da noite, nos braços da solidão, no peito de uma mulher. Eu já dormi em banco de praça. Eu já perdi o ônibus, o ponto, o equilíbrio e a educação. Eu já deixei livros pela metade, planos pela metade, amores pela metade. Eu já confessei e menti. Já atravessei noites em claro e dias no escuro da minha própria consciência. Já tomei banho de chuva, de balde, de mangueira, me sujei de doce e lavei roupa suja em mesa de bar. Eu já fui obsceno. Eu já fui santo. Já cantei na banda, no coral, o bingo e a mulher do próximo. Já pedi perdão e não perdoei. Quem me derrubou já levantei. Já cirandei sob um cajueiro. Já parei o carro para ir só lá no banheiro. Já contei piada em velório. Já chorei em festa. Já naveguei, já levitei, já mergulhei e dormi entre as flores do jardim. Eu já perdi a comanda, a hora, a inocência, a paciência, eu já perdi a linha. Eu já vi milagres, por-do-sol na praia e já me fiz de cego. Eu já perdi a fé e encontrei o amor. Eu já me senti tão foda que me fodi inteiro. Eu já perdi amizades e muito dinheiro. Eu já virei bom moço, pecador, sonhador, eu já virei o jogo, eu já virei o rosto, as costas, eu já me virei sozinho. Eu já fui tanto me sentindo um nada. Eu já fui um nada sendo para alguém um tudo. Eu já menti a idade. Eu já fui celebrado. Eu já fui esquecido. Já acabei e salvei relacionamentos, os meus e de outros. Já paguei promessas e apaguei às pressas. Já dancei forró, valsa, tango, samba e também fiz muita gente dançar. Já rasguei a seda, o verbo, o contrato, o contato, a camisa. Eu já caí no buraco, em tentação, no conto do vigário e em si. Já colecionei moedas, mágoas, amantes, arrependimento. Já fui cético, devoto, arrogante, patético, simpático, generoso e amante; já dei pendura em restaurante. Já armei a barraca, o barraco, o circo. Já arrumei a cama, um drama e confusão. Já salvei uma vida e desejei o mal. Já me senti um lixo e me achei o tal.  Já matei charada, o tempo, a aula e os sonhos.

Aí então eu me encontrei. E finalmente comecei a viver.

4 comentários:

Poeta da Colina disse...

"Eu já fui tanto me sentindo um nada" - perfeito!

Engraçado como a vida sempre acaba sendo sobre aquilo que a gente ainda não fez. Onde guardamos todo resto?

Rafaela Costa disse...

Que texto incrível *-*

CdeCereja disse...

acredito que vc tenha vivido intensamente antes de se encontrar ou de se perder.

goldenmoon. disse...

Texto intenso, maravilhoso!!