terça-feira, 28 de abril de 2015

As mãos da discórdia...

Eu gosto de comemorar meu aniversário. E gosto de comemorá-lo por algumas razões: é um dia que te prestigiam apenas porque você nasceu; não sendo preciso ter feito nada além de estar vivo no mundo. Você não precisa ter sido promovido no trabalho, dar 3 seguidas, dominar 4 idiomas, publicar 5 livros, fazer uma boa baliza ou ser aprovado - com louvor! - no exame de fezes. As pessoas te parabenizam simplesmente porque você existe, sem precisar provar nada para ninguém. Gosto de comemorar meu aniversário por ser um dia que podemos chapar de açúcar mesmo numa segunda-feira de dieta, suspendendo sem culpa, a própria culpa, e sem recusar aqueles dois bolos-mousse de seis camadas que encomendaram tanto no serviço quanto em casa pra gente. Assim não decepcionaremos aqueles que irão comer o bolo de qualquer jeito em caso de desfeita nossa. Gosto de comemorar aniversário por ser o momento de por à prova tudo aquilo que aprendemos sobre paciência no resto do ano, ao atendermos a chamada daquela tia septuagenária que não lembrávamos, mas que reaparece altiva para desejar por 45 eternos minutos toda a felicidade do mundo, perguntando-nos inclusive sobre nosso irmão, pai, mãe, vó, carreira, estudo, papagaio and periquito. Gosto de comemorar meu aniversário pelo jeito de feriado exclusivo, ou melhor, pelo jeito daqueles dias comemorativos que a câmara municipal de Quixeramobim decreta ao dia do pipoqueiro vesgo. Ou seja, de nada serve e você embora se sinta contemplado, vai trabalhar do mesmo jeito. Agora, o que eu abomino no meu aniversário é a hora do parabéns. Primeiro porque, bem, eu abomino a hora do parabéns. Segundo porque eu simplesmente não sei o que fazer, a não ser me constranger. Eu não sei se canto junto (ou se mexo só a boca como se cantasse), se olho de um em um a minha volta ou se encaro somente o bolo. E o pior, eu não sei o que fazer com as mãos. Se as coloco no bolso, se cruzo os braços, se bato palma pra mim mesmo ou se peço uma criança emprestada da festa pra segurar. Que seja! Enquanto não houver regra de etiqueta ou compêndio de metafísica a aliviar minha angústia e resolver o caso, o primeiro pedaço será sempre, sempre, o meu.

2 comentários:

Karla Thayse Mendes disse...

Que saudade que eu tava dessa ilha! Muito bom estar de volta e poder mergulhar na tua poesia.

Abraço, poeta

B. disse...

Gostei bastante. Sempre descontraído, kkkk. O aniversário é uma faca de dois gumes, há a parte boa e também a parte ruim. Constrangimentos não deixam de existir, haha. Muito legal a sua visão sobre o tema.