terça-feira, 10 de março de 2015

Textura...

Um dia desses, minha mulher no meio de uma prosa nossa veio me perguntar qual é o cheiro da sua pele. Inesperadamente, como num interrogatório de uma só pergunta. Se doce, salgado, floral, frutado, azedo. Assim, à queima-roupa, emudeci, como se um calouro de engenharia precisasse explicar à banca sobre genética. Restou a minha cara de paisagem e uma garantia: casei-me com ela para desaprender minhas certezas. Descobri-me alheio à exatidão, um descatalogado dos sentidos, um órfão das classificações. No improviso dos meus vocabulários, só pude dizer a ela a verdade que sabia. E lhe disse: seu cheiro é o meu alfabeto, o meu braile, o meu baile, a casa pronta pra festa. É o seu cheiro que me abraça e me põe para dormir; que me beija e me chama a despertar. É o seu cheiro que me amansa e me excita, me deu batismo e primeira comunhão, deixando-me pronto para os pecados. É o seu pescoço a rua que passeio, suas coxas são o passeio que desfruto. A minha manhã de sábado, meu início de férias. Seu cheiro é a redenção do vento, a rendição do tempo, a celebração do meu olfato, minha graduação na poesia. É no antes e no pós banho, minha colônia de aconchego. É o seu cheiro quem me cheira a dar-me existência, e eu só existo na fragrância dos teus frutos. Cheiro-te como café, como amante, como amado. Imerso-me, bebo-te, farejo-te. Confundo seu cheiro com a minha paz. Cheiro-te como uma prece, como ritual. Seu cheiro é a textura do meu amor.

Não sei se me expliquei.

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