segunda-feira, 30 de março de 2015

Morrer...

Ela morreu.

Eu não mantinha conversa embora a acompanhasse. Não me era próxima mas sabia dela por conta da sua doçura e pelo conteúdo que me interessava. Soube da sua luta ao longo dos meses através das publicações que diariamente abundam por aqui. Soube pelas palavras tristes de amigos em comum. Ao ler a notícia, choquei-me. Ao saber do fato, amargaram-me os olhos. Ela não era uma amiga, mas uma conhecida. Doeu-me mesmo assim. Doeu-me pela surpresa, doeu-me pelo inesperado, doeu-me pela breve idade com que partiu. Doí como um intruso, como um clandestino, por saber da tristeza e me doer pelo seu mundo que não frequentei, pela prosa que não aconteceu, pela gentileza que não trocamos, pela presença da ausência daqui em diante.

Ela morreu. E nunca esperamos pela morte. Se porventura esperamos, não significa que estejamos preparados. Nunca estamos preparados. Ela compunha o meu cenário, era parte do meio em que sou e me relaciono, era parte do universo em que sou parte. Aí a morte vem para lembrar que estamos vivos, gritando com sua grosseria. Esfregando na nossa cara que tudo é breve e frágil. Doeu-me porque sou breve e frágil, e não lembro disso. Ouso até por esse esquecimento, o capricho de manter mágoas idiotas e defeitos descartáveis.

Ela morreu. Cumpriu seu tempo, seu combinado consigo mesma. E nós, ignorantes de tudo, ainda somos surpreendidos pela nossa própria incapacidade de enxergarmos os caminhos, aceitarmos o inevitável e o óbvio: não temos todo o tempo.

A morte sempre virá cravar a verdade na pele e doer-nos pela urgência de viver, convocando-nos às providências, tais como ser, estar, sentir, amar e perdoar.

É mesmo provável que os bons partam primeiro, deixando-nos aqui a tatearmos o mundo com o seguinte e silencioso conselho:

É a ameaça da morte que nos convida ao sentido da vida.

Encante em paz, moça bonita.

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