quinta-feira, 26 de março de 2015

Angustiado...

De que adiantava me ocupar? Pois quanto mais eu me ocupava, mais descobria tempo livre na agenda para lutar com meus monstros e meus medos. Quanto mais eu buscava fugazes levezas, mais me deparava com os inevitáveis pesos que minha tristeza carrega. Quanto mais eu fujo, mais sou convocado pela consciência a me encontrar. Ela me cobra com cada vez mais intensidade e violência, que eu a esclareça e a clareie, despedindo os nós que antes, laços, enfeitavam-me e que não mais me servem porque continuamente me sufocam. Assim, eu resolvi de vez não resistir nem lutar. E confesso que esse continua sendo exatamente o problema. Porque eu mergulhei no escuro de mim, ou melhor, fui para lá atirado, e juro que tentei ainda não acordar nenhum demônio meu em nenhuma esquina minha. Não queria me meter em confusão. Embora eu identifique um por um, e saiba todos pelos nomes e pela cor, não me atrevo a enfrentá-los, mesmo que eu já os enfrente. Acordei-os todos com minhas dores e meus gritos. No final das contas não sei se eram eles que dormiam ou eu, sendo massacrado por distrair-me nos sonhos que cultivei. Doeram-me as inocências todas; a despejar-me sem qualquer cuidado para os longes. Ando ensaiando coragens, mas sem nenhuma emoção. Ando planejando fugas, mas sem nenhum caminho. Ando pedindo perdão, sem qualquer absolvição. Por enquanto, sou provisoriamente um homem angustiado.

2 comentários:

Unknown disse...

 Ando ensaiando coragens, mas sem nenhuma emoção. Ando planejando fugas, mas sem nenhum caminho. Ando pedindo perdão, sem qualquer absolvição. Por enquanto, sou provisoriamente um homem angustiado.

#perfeito ... obrigada por traduzir-me...

Anônimo disse...

Ao chegar pensei: "A casa do poeta!" Mas de súbito me veio: "Onde não vive o poeta?"
Suas poesias são sinceras, lindas e encantadoras. Como não amá-las?
Abraços e Sucesso, Gui!

Re Salles