quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O medo...

Ela sentia o medo. Não um medo a paralisá-la, como rezam os temores em suas habituais cartilhas. Era o medo que a convidava a lançar-se em tudo aquilo que nunca vivera. A pedir-lhe obediências de abandonar seguros caminhos que a prendiam nela mesma. A incinerar velhas certezas por fazer-se ainda hoje a sua própria luz. O medo era seu frescor, a porta aberta, a novidade. Desejava-o. Equivalia ao momento anterior de um salto, o maior deles. A hesitação a dissolver-se na coragem; a coragem a absorver-se no prazer. Sabia, não regressaria mais para si. Sabia que, ao perder-se de vez, reencontrar-se-ia, precisando para isso atravessar os tormentos de um renascer. Subir no mais alto degrau de sua história e sacrificá-lo para ganhar a vida, atirando-se de lá caindo sobre si mesma, destruindo a si mesma por inteiro, sem quaisquer fragmentos a colar e recompor. Sem projeções ou passadas ideias seria outra, liberta dos contornos que a confinaram em suas metades e tristes confortos. Cairia para levantar-se. O medo era também este, de reconhecer-se indomável para todos os sempres, sem nunca mais por os pés no chão e virar raiz. Não haveria mais chão. 

A esta queda, chamou-a de amor.

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