domingo, 8 de fevereiro de 2015

Mudo...

Para que o homem escreva se faz necessária uma dose de caos. Será o desequilíbrio na sua dinâmica interior a dar passagem para os significados. A instabilidade da psiqué cria a necessidade em deixar a porta aberta para que escapem suas emoções, e é pela inexatidão de si que a porta se mantém aberta e a palavra nos alivia, pois, fosse o homem sistema fechado e morreríamos sufocados por excesso de mundo. A loucura seria certa se não pudéssemos nos derramar no verbo. A letra nos corta para que a pressão não nos estoure, libertando-nos momentaneamente da nossa condenação: a desordem da nossa própria existência. E será o caos o meio e a forma a fazer-nos atentar para a impermanência das coisas; a palavra filha do vento. A nossa impermanência e incompletude pedem o apoio das palavras. Somos mancos. Na perfeição não há linguagem. Não há o que dizer. Há contemplação, silêncio e repouso, opostos à nossa condição aflitiva. Escrever é um descanso no cansaço de ser e estar. Imperfeitos. Escrevemos para dar consistência às esperanças, para convocarmos alguma redenção, ainda que versemos exatamente pelos seus contrários. A palavra é o único lugar onde a mentira nos acontece, seja ela a nos salvar ou a nos perder.

Deus é mudo.

3 comentários:

Wendel Valadares disse...

"É preciso ter um caos dentro de si
para dar à luz uma estrela brilhante".

(Nietzsche)

Como isso é verdadeiro, meu caro poeta. É necessário que haja uma inquietação interior para que algo verdadeiramente útil aconteça no exterior. "Na perfeição não há linguagem", não há excessos, não há transbordamento e não há poesia. Na palavra mentimos para dizer a verdade.

"Deus é mudo", mas fala.

Um abraço.

Lúcia Mel disse...

Amei! Lindo...

Poeta da Colina disse...

A saída sem direção.