domingo, 22 de fevereiro de 2015

Inferno...

Eu irei para o inferno. Com passagem só de ida e sem chances de cancelamento. Eu irei para o inferno e chegarei com honrarias de um chefe de Estado, com o prestígio de um líder religioso, como o ganhador de um prêmio Nobel. Receberei as mais calorosas boas vindas, camarote com porcelana chinesa e mil toalhas brancas. Serei finalmente um sucesso, celebrado pela minha incoerência, festejado pela competência em ser emocionalmente incompetente. Serei aplaudido de pé pelos meus desperdícios: de tempo, do outro, de mim. Serei abraçado por todos os amores que por capricho joguei fora. Autógrafos por todas as chances que por orgulho descartei. Serei aclamado por acreditar nos deuses mais pagãos - como o sofrimento - e dar minha vida toda a ele em sacrifício. Serei notícia pela minha cegueira existencial, manchete pela exímia habilidade em transformar frustrações em raiva e destruição. Ganharei medalhas por me arrepender muito mais vezes do que ter feito melhor. Creio até que ganharia a chave da cidade se lá fosse uma. Serei palestrante a contar como coleciono todas as contradições do mundo e exijo coerência de todos que me cercam. Serei convidado à jantar para explicar como nego meus erros e transformo responsabilidade em culpa para jogar nos outros. Ganharei prêmios pelo vitimismo e troféus por escolher as palavras certas para dizer coisas erradas. Darei aulas por andar em círculos e deixar o que me serve escapar por um triz; por convenientemente acreditar que a vida é injusta e o mundo me é um eterno devedor, podendo com meu ressentimento cobrar a todos das maneiras mais infantis. E antes da minha primeira entrevista coletiva, chorarei nos bastidores. Por não ter roupa que usar, pois ir para o inferno é ficar nu. Diante de si mesmo. E não saber lidar com a vergonha que nos despiu e nos contou que costumamos nos colocar sozinhos no inferno para não sermos mandados para lá.

Um comentário:

Luana Barcelos Dantas disse...

Excelente artigo, profundo, inteligente, li 2 vezes para entender direito, mas interessantíssimo, concordo em gênero e número, que conhece o lobo vestido de cordeiro, sabe do que falas...