quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

E isso era tudo...

Um dia desses me lembrei de uma visita de fim de semana que fiz com meus pais à casa de um casal amigo deles. Eu devia ter um pouco menos de 10 anos. Lá pelas tantas a cerveja havia acabado; e hoje sei o quão difícil é prosseguir a prosa depois que o copo ameaça secar, e de vez. Saíram então meu pai e seu amigo em legítima cruzada, na busca de reverter o quadro trazendo mais, deixando minha mãe e a mim com a anfitriã e o seu filho. 

Passado algum tempo, os dois voltaram pra casa. Em choque, pálidos, tensos, contando-nos do desespero de testemunharem um acidente de moto. Horrível. Acredito que o motociclista tenha morrido na hora - pelo menos foi isso que me restou imaginar pela quantidade de sangue e os imprecisos detalhes que coloriram minha memória mas que poupo aqui as palavras todas.

Meu pai, transtornado, e olhando para mim por alguns eternos segundos, transformou-se. Começou a falar alto e a gesticular. Na minha direção. Até eu entender o que estava acontecendo e o que ele dizia, fiquei assustado. Usou-se de um bocado de tempo para desfiar rosários e dar-me um sermão imprevisto. O resumo: disse-me que se eu viesse um dia a comprar uma moto trataria de destruí-la, e em seguida me desmontaria inteirinho com ela. Disse-me taxativo, num descontrole shakespeariano nunca visto por mim.

Não sei o que pensou minha mãe e os seus amigos ao escutarem aquilo. Para mim não houve cenário nem figurantes em volta. Éramos nós dois e o seu desespero quem falava. Repreendia-me com a fúria do medo, por um futuro que nunca chegou a acontecer. Eu mal sei andar de bicicleta!

Consegui ver ali o que hoje vejo ainda melhor. Suplicava o jovem pai que seu filho jamais partisse. Gritava seu carinho para que respeitasse o seu cuidado. Deu-me a responsabilidade de não desobedecer, não a ele, mas ao próprio tempo. 

Consegui enxergar ali o que somos todos nós: enquanto para sempre amadurecemos, queremos ser compreendidos ao comunicar o nosso amor e as nossas urgências.

Advertia seu amor sem saber advertir. 
Amava-me.

E isso era o suficiente para entendê-lo.

Um comentário:

Solange Duarte disse...

O amor às vezes choca..

Bjs.Sol