quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Calendário....

Tem gente que passa o ano inteiro dormindo e só resolve acordar às vésperas do novo ano; talvez pra voltar a dormir novamente. Tem gente que depende somente da sorte e não das próprias escolhas. Tem gente que irá consultar a previsão do horóscopo, o I Ching, pular 7 ondas, pular num pé só, combinar cores e fazer simpatias como se isso traçasse seus novos caminhos, pois tem gente que vive das sempre mesmas promessas de final de ano. Gente que diz acreditar no amanhã apenas pra empurrar o hoje com a barriga. Tem gente que perdoa o imperdoável para continuar acreditando no amor. Gente que não sabe que a diferença entre crer e saber é a mesma entre muleta e a chave da prisão. Tem gente que se acostuma com adoçante ao invés de doçuras. Que acredita que uma folha a menos no calendário possa ser sua redenção. Ou que pensa que só o amor de alguém possa ser sua redenção. Tem gente que coleciona entulho a vida inteira pensando ser algo de valor. Tem gente que guarda dinheiro e deixa tudo no caixão. Gente que pensa ter a vida inteira e resolve deixar para depois. Tem gente que muito se acha quando na verdade nunca se encontrou. Gente vivendo de sonhos mesmo se alimentando de ilusões. Gente que diz saber do mundo e mal conhece suas solidões. Gente que se acostumou ser gado porque está bom assim. Gente que pensa que pensa e ao final não pensa nada. Somos viciados em tentativas e dependentes de recomeços, que se servem do tempo para nos amansar a pressa e enrugar a pele, partir a alma e salvar os sonhos, pesar o corpo e libertar o peito, denunciar o amor e reparar enganos, perder de vista tristezas, perder a conta das lágrimas e não poupar sorrisos, repousar nossas verdades no colo após o cansaço das vidas caminhadas.

Ninguém é tanto tempo feliz por mais que queira, nem triste o tempo todo por mais que consiga.

(Guilherme Antunes, vulgo "eu", em 17.12.12)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Alquimia...

[...] A alquimia era esta: a raiva que viesse a sentir não deveria por ele ser condenada, pois, condená-la seria reprimi-la, tornando-se denso veneno a circular junto ao seu sangue. Condená-la seria o mesmo que condenar-se. A raiva que assim vier a sentir do outro poderá tornar-se mágoa e muro, impedindo-o de amar. A raiva que assim vier a sentir de si poderá tornar-se culpa e boicote, impedindo-se de amar.

Ambas as direções a comprometer-lhe a felicidade e os destinos.

domingo, 27 de dezembro de 2015

"Poesia", responderia...

Passou a entender o que falam as janelas quando se fecham com o vento e as esquinas quando se dobram. Passou a entender o tom grave dos trovões e a eternidade daquele senhor a vender pipocas frente ao parque. Passou a entender sinais fechados e aquele livro aberto justamente na página vinte e seis. Passou a entender repetições de filmes, carências, tédios e rinite alérgica. Passou a entender a demora do garçom e a prontidão do entregador. Passou a entender a linguagem das flores, das coincidências e dos erros de sua mãe. Passou a entender o que dizia o velho quadro no consultório, o cacoete do farmacêutico, a lágrima que hoje se convidou. Passou a entender a escuridão em torno da vela e a solidão do seu pai. Passou a entender o troco esquecido no balcão, o trocado pedido no farol, a conversa no banco de trás. Passou a entender a farpa no pé, no peito, memórias e pães embolorados e as simpatias de sua avó. Passou a entender as casas cor de ocre no centro, as igrejas sempre vazias, o comércio sempre cheio, o congestionamento sempre às sextas-feiras e as tristezas sempre aos domingos. Passou a entender desculpas e as urgências de um beija-flor, um cigarro aceso no ponto de ônibus, o cisco no olho e as entregas do carteiro ao seu vizinho. Passou a entender atrasos, acasos, desvantagens. Perdas, ganhos e fragilidades. Passou a entender o que diz o grilo, a cigarra e os medos. Passou a entender o que faz o sol na fresta da sua porta, o que acontece ao chamar o nome do seu cachorro e o café que esfriou entre as discussões. Passou a entender de estômago e de estresse. Passou a entender o olhar atento dos bebês e dos seguranças de loja. Passou a entender o que não entendem os seus amigos. Passou a entender as nuvens só para amar com a imaginação. Passou a entender a rapidez de uma chuva de verão e a inundação no corpo de quem perdeu alguém. Passou a entender o que nos causam as distâncias, as saudades, as verdades, o perdão e o amor. Passou a entender o som alto na madrugada e o que acontece quando a gente não diz o que deve dizer. Passou a entender o que é dormir, o que é sonhar e quais os dias de feira na sua rua. A vida entre seus silêncios e barulhos começou a conversar com ele e explicar-lhe tudo. E tudo que havia era uma coisa só. E como poderia ele explicar essa coisa só, caso lhe perguntassem? 

"Poesia", responderia.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Vários...

Sinto-me vários, a viverem do outro lado de mim.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Registro...

Há gente nesse mundo que mais fala com os olhos do que com a boca. Que mais confessa no abraço do que na palavra. Há gente que costura beleza nas entrelinhas enquanto remenda suas frases. Há gente que me conta dos invernos só porque ainda não ouviu sobre a coragem da semente, e que o tempo lhe será generoso se o coração estiver afinado com suas próprias verdades. Há gente que se vê pequena e que nos veste de grandeza exatamente pela grandeza que se tem sem percebê-la.

Hoje me vestiram assim de grandeza.
Obrigado pelo inesperado colorido do entardecer que me destes.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O Verbo...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és a semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas. Abençoa-me como abençoas o grão de areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egoísmo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me amor, como resposta para cada pergunta da vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Aconchego...

O meu amor
tem jeito de riacho e bebe da vida com as mãos
tem aconchego de rede
abraço de pracinha de cidade longe
e caminha como se cirandasse.

O meu amor
gosta de brincar no colo preguiçoso das manhãs
é digna de ser borboleta num final de tarde das primaveras
(talvez por isso se assuste tanto com as trovoadas)

O meu amor
tem cheirinho de café, de shampoo e de terra molhada - depende da hora
trança o cabelo como se ajeitasse caminho pro mar.
diz que não canta, mas fala poesia debaixo do chuveiro - eu já ouvi.

O meu amor
antes de deitar, chora porque reza
e chora apenas para continuar feliz.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Dentro...

Trouxeste-me vida para dentro de casa 
e te tornaste meu lar.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Café...

Procuro por um poema que te dê início; pelo verso que te celebre. Procuro insistentemente pela página que te explique com a mais palavra das ternuras. Mas tu não estás nas letras. Mas tu não estás nos livros. Tu estás em mim e isto explica tudo, visto que não há história tua antes de nós, exatamente por não ter eu história alguma antes de ti. Inventei-me outro para aprender a navegar ausências e atravessar demoras. Inventei-me num passado sem outra utilidade senão para alcançar-te. Ganhei nome apenas na tua boca; existência somente nos véus do teu corpo. Apenas e depois de ti, aprendi a desejar. E o que lhe dou continua meu como nunca antes houvera sido. Aquilo que somos, mistura-se e existe em todas as partes: isto deve ser alguma coisa de amor. Pois só tu sabes onde moram os meus milagres. Só tu sabes como trazer-me às borboletas. Os teus olhos tem tons de céu e isto deve ser definitivamente alguma coisa de amor. Veja, a chuva insiste em cantar para nós. As nuvens em sonhar para nós. O café em se perfumar para nós. O silêncio em se declarar para nós. A tua voz tem o mesmo som das alvoradas. As tuas cores todas feitas para a beleza. As sombras todas nos são descansos e porque tuas mãos em mim hoje haveriam de nascer os pássaros. Isto deve ser sim alguma coisa de amar. Porque há flores, cheiros, raízes, orgasmos, promessas, ventre, poema, verso e página que te celebram enquanto os meus silêncios todos cantam para ti. Se realmente isto é coisa de amar, então és o amor onde nunca me dói.

(para ela)

sábado, 19 de dezembro de 2015

Da leveza...

[...] e não mais houve leveza entre eles quando passaram a esperar um do outro por alguma coisa. A armadilha era essa: buscaram se assegurar da espontaneidade amorosa do início com garantias de que pudessem esperar no amanhã aquilo que no ontem haviam sentido. A leveza em nós pousa exatamente por não a convocarmos e ao desejarmos por ela não a encontraremos, pois, teremos nós pelo próprio desejo a afastado. A leveza é uma distração festiva daqueles que tanto se gostam, sem qualquer compromisso na agenda.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Am(é)m...

Amamos como nos amaram. Amamos como permitimos que nos amem. Amamos como permitimos nos amarmos. Amamos como gostaríamos de ser amados. Amamos como gostaríamos de ter sido amados. Amamos como já nos faltou amor. Amamos como faltou amarmos. Amamos de posse de todas as certezas. Amamos carregados de todas as dúvidas. Amamos como se fosse simples. Amamos como se difícil fosse. Amamos como se fosse apenas desejo, e desejamos como se pudesse ser amor. Amamos como faltou termos acertado mais. Amamos como faltou termos errado mais. Amamos como se fosse o primeiro. Amamos como se fosse o último. Amamos como se no amor tudo esperássemos. Amamos como se não quiséssemos nada mais. Amamos como se nos sobrasse. Amamos como se nos faltasse. Amamos melhorados. Amamos piorados. Amamos armados e armamos jeitos vários de não amarmos mais, para depois desamarmos ainda amando. Amamos como quem busca. Amamos como quem se encontrou. Amamos. Amemos. Ao menos, que possamos dizer que ao final tentamos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Banheiro...

Grita-nos a verdade durante todo o tempo, mas quem se dá ao luxo de ouvi-la? Quem se permite atenção para entendê-la? Somos como o homem a ignorar o mendigo que insistente nos chama apenas para avisar-nos que a carteira do bolso caiu. Não olhamos para a verdade porque mesmo sendo bela poderá ela se parecer conosco, e assustados, descobriríamos que somos aquilo para o qual nunca olhamos. A verdade conosco caminha nua mas, ah!, nossos pudores correm a cobri-la toda com as mais enfeitadas mentiras, crenças e ideias. Ainda que não caibam. Ainda que velhas. Ainda que rotas. E disfarçados dos personagens astuciosos de nós mesmos, insistimos saber somente os diálogos que nos convém, sussurre a verdade outras tantas linhas nos bastidores a completar o espetáculo. Afinal, o que nos sobrará sem as histórias que sustentamos, as vitórias que contamos e poses que mantemos? O que me pouparei de doenças e sintomas a dolorosamente confessarem verdades que a força calei e reprimi? Qual verdade então me restará sem as verdades que fingi? Quem seremos sem as virtudes que encenamos? Sem ter o quê com o que convencer, o que nos revelará o espelho do outro? 

Por ora, contentamo-nos apenas com o do banheiro.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Quando se...

Quando se percebeu amando - verbo este deliciosamente posto no gerúndio - havia ele já cruzado passos da sutil linha entre qualquer coisa e o amar. Pudesse esta qualquer coisa antes ser paixão, entusiasmo, desejo, afeto, dedicação ou estes todos e outros mais catalogados. O que agora era, era a soma e a exata descontinuidade disto. E não seria o tempo a legitimar o amor. E não seria palavra vinda da boca a iniciar o tempo em que se ama. Quando se percebeu amando, havia já colhido em silêncio o fruto da árvore sem se dar conta. Quando se percebeu amando, percebeu apenas porque já se era outro. 

Caia o homem no abismo para elevar-se, dando por si nos seguintes dias do seu próprio renascer.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Pedido...

Se posso pedir-lhe algo, peço que jamais expulses o amor de ti. Peço que não expulses a ideia do amor, pois, expulsá-la seria diminuir o teu mundo, achatar coisas e pessoas num mesmo plano, num mesmo tom, num mais do mesmo, reduzindo a vida num cesto sem flores, numa rua sem saída, comprimindo-a ao tamanho onde não mais cabe o coração. Desistir da ideia do amor é fazer da realidade pobre cenário ao sabor dos acasos e mornas alegrias, sem espaço para qualquer novo inteiro encanto ou arrebatamento. Desistir da ideia do amar é anular a existência dos destinos e apegar-se somente à roda ininterrupta dos desejos, visto que é o amor quem nos salva das fatalidades, da instatisfação como pano de fundo dos dias, do condicionamento entre mente e corpo, libertando-nos das leis da física ao dispor-nos cotidianamente aos milagres. O amor dá sentido aos passos transformando-os em caminhos. A ideia de amar permite que nos salvemos da repetição criminosa dos amanhãs, da rotina quase mecânica que apaga-nos pouco a pouco sem qualquer piedade. O amor são inesperadas acontecências e expulsar a ideia deste amor é não dar chance aos pássaros na janela por fechá-la junto com as primaveras. Desistir de amar não será desistir de doer, mas apenas ganhar a aridez como certeza. Desistir de amar é sentenciar ao amanhã um ontem não merecido. Desistir de amar é impedir-se de chamar a esperança e ela resolver escutar. A ideia de amar é permitir-se generoso vez que a partilha continuará a ser possível. O amor faz com que a chuva não agrida os telhados, o amor nos suga o veneno do pessimismo fatalista, o amor concede-nos histórias às estrelas e expulsar a possibilidade de sua volta é sufocar-se dentro de si, asfixiando novas cores, outras sementes e sorrisos, como cúmplice insensível da obviedade e das tristezas. Permitir que o amor fique é se permitir dissolver dolorosos antecedentes. Permitir que o amor fique é dispensar o que ocupa espaço e, o que tem valor guardá-lo nas prateleiras da memória. Permitir o amor ficar é deixar a porta aberta. Para que seja você a regressar.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Sábado...

A tristeza é um
sábado
que não amanheci
pra ver você.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Se reconhecer...

Oculta-se o encanto de uma mulher na fraqueza do homem que não sabe amá-la. Assim como o homem que diante do seu próprio amor à mulher que contempla será sempre um venturoso.

Feliz aquele que no outro verdadeiramente permite - ao amar e ser amado - se reconhecer.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Reeducação existencial...

Anda me convocando a vida para que a enxergue mais bela. Pediu-me para isso a cura, não dos meus olhos, mas do próprio peito. A receita que passou tempos sussurrando no ouvido só foi realmente ouvida quando me doeu sorrir e custou sonhar. Trata-se do perdoar para resolver-me com o passado e do perdão a me permitir ainda melhor no futuro. A seguir dito o que muito provável virão a perceber nesta jornada caso assumam prossegui-la: a leveza como inevitável sintoma a acontecer-nos por atravessarmos este processo alquímico e corajoso de transformação em trazermos à luz o que por tanto mantivemos nas sombras, para então podermos de vez nos despedirmos, inclusive dos apegos às versões de nós que um dia escolhemos e não mais nos serviam ou nunca serviram realmente. A honestidade conosco mesmo será valor que não permitiremos novamente perdê-la, para não nos sujeitarmos ao que jamais mereceríamos mas que ao final nos sujeitamos, colecionando as mais diversas mentiras, sejam as que escondemos por entre as camadas profundas de nós ou as que contamos aos outros para que nos convençamos do que gostaríamos de ser mas desgostosamente não somos. A doença como anúncio das metades que insistimos em caber, das frustrações que apodrecidas insistimos em acumular e das mentiras que insistimos como verdade tornar-se-á a compreensão necessária para a limpeza dos males e abandono das defesas que criamos para não mais doer e que acabaram doendo-nos muito mais. A gratidão será a filha deste novo relacionamento conosco e que com carinho nos aproximará ainda mais da vida, que por tanto tempo nos distanciamos ao entulharmos no espaço sagrado entre nós e ela - onde a própria vida acontece -, culpas, ressentimentos, mágoas, raivas e medos que colecionamos ao longo dos capítulos e tristezas mas que não soubemos como antes dispensá-los. Anda me convocando a vida para que a enxergue mais bela. Torno-me eu mais belo para então enxergar a vida.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Congestionado....

Eu, congestionado de palavra outro dia procurei mulher a saber soltar poema preso no peito. Assim que a encontrei exigiu-me de imediato que inspirasse fundo enquanto contasse até três. Beijou-me inesperadamente a boca pelos eternos dois segundos de antes.

Curava-me:  afinal, o que haveria mais para mim senão suspirar? 

- Teu poema preso era este sorriso - dissera-me. 

E me pediu retorno.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Embriagavam...

Apontava no outro os vazios que ela mesma carregava e carecia preencher. O que não se permitia perceber era a semelhança das ausências que com as ausências do outro dialogavam. Não enxergava que no outro faltava o que nela também não havia. Assim, apontar era um jeito de distrair-se de si e nada fazer; pois ao reclamar não escutaria as verdades que lhe caberiam entender. E o que também mal sabia é que assim seriam todos os seus encontros: sempre um espelho.

Fosse um espelho apenas confirmando a si própria ou um espelho a convidá-la a reconhecer-se e aceitar-se com tudo o que se é e o que não se tem; inevitável início para buscar ser outra que ainda não havia sido e inesperadamente encontrar consigo mesma como jamais houvera antes encontrado. Isto por até então estar ocupada demais com o vazio seu que no outro lhe incomodava.

Bebia ela como bebiam os outros dos seus próprios reflexos. 
E eles todos se embriagavam.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Ele está nu...

 [...] no final das contas convocam-nos as tristezas para que sempre fiquemos nus diante de quem mais importa: nós mesmos.

Pois é da característica mesma dela solicitar-nos tal nudez para que venhamos a saber como vestir-nos com novas e outras roupas, visto que a tristeza é o preciso sintoma que aborda-nos para dizer-nos entre algumas coisas que as roupas que temos não estão mais a servir.

Mas insistentes somos em recusar tal conselho e pedido; e quão fácil encontrar maltrapilhos pelas ruas que diariamente atravessamos.

Entre eles, quais de nós?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Venenos...

Quanto de veneno é preciso beber para saber que para curar-se basta parar de bebê-lo? Que não me seja desta vez a dose fatal. Será a cor do sangue que verte ou o profundo dos abismos aquilo que me despertará? Pois ignoro o aviso urgente das tonalidades. Qual será o degrau a iminência da queda? Pois os arrependimentos sempre me aconteceram tarde. Colecionei culpas e sufoquei alegrias. Acumulei tristezas e boicotei amores. Das dores distraí-me com outras e estas outras anestesiaram-me a vida. Os ressentimentos todos que guardei nos silêncios engessaram-me gravemente os papéis. Aliás, quantas violências permitimos após as primeiras? E qual delas servirá para estilhaçar de vez a autoestima? E o que mais então nos faltará para convocarmos o medo? Afinal, qual o preço que pagamos para quitar nossas ruínas? Confesso, adoeci severamente de mim mesmo. E o que ando a fazer? Curar-me usando de pontos finais nas histórias passadas que hoje encerro para salvar o protagonista. Assim não saberá a loucura ou o desespero os meus rastros. Será o tempo exato a mudar-me e não ser por eles encontrado: alterar o endereço das prioridades, descolorir os lados escuros de dentro e por-me inteiro do avesso. Quanto de vida apodrecida e sentimentos mofados não engoli! Poderia eu esperar por menos para limpar-me senão por agudas dores de parto das mágoas e raivas acumuladas que trago à tona para com a anuência do meu autoperdão poder cada uma delas matar e jogar no lixo? O que não descartei tornou-se poema triste e outros tristes sintomas. Enfeitei-me de feios frutos das minhas desordens somente para não aceitar minhas misérias. Compareci às festas fingindo equilíbrio. Acenei com charme pela janela apoiado nas angústias. O lirismo tornou-se a beleza das tragédias. Para não aceitar minhas fraquezas, calei sofrimentos deixando-os somente falarem por versos. Amontoei rancores e orgulhos trincados por não me permitir ser outro. Creditei-me herói contra vilões que criei apenas para acreditar-me herói. Fechei os olhos para sombras e não enxerguei saída através da minha própria luz. Por isso quase me acabei num definitivo inverno a ouvir para sempre apenas meus próprios ecos. Mas quão generosa tem sido a vida a reensinar-me a não convocar tristezas, dispensar medos antes de quaisquer amanhãs e conjugar velhos erros somente na memória e não mais no coração.

Por ter o sofrimento tirado-me da órbita, trouxe-me a esperança novamente pro eixo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Silêncios...

pedem-me os silêncios que me apresente
visto que eu sou aquilo que ninguém vê.

domingo, 29 de novembro de 2015

Para os raros...

Raros são os amores que dispensam promessas, visto que raras são as pessoas que promessas dispensam. Ouso dizer que vivemos de promessas mais do que de amores. Talvez porque saibamos bem o que seja uma promessa e nela nos agarramos como uma certeza. Mas e o amor, qual a certeza de sabê-lo o que se é? Promessas visam aliviar-nos garantindo-nos amanhãs. E o amor, garante-nos o quê? 

Um amor que se declare garantindo que amará amanhã, também é promessa.
Uma promessa que se declare garantindo que será a mesma amanhã, também pode ser amor.

Mas quando o amor não nos responde, o que ele é?

O amor quando não se reforça na promessa se fortalece no silêncio.

E quem sabe isto seja a maturidade daquele que aprendeu que as palavras são tão frágeis quanto os amanhãs, e saiba que os nossos caprichos e medos e boicotes são mais previsíveis do que queremos tanto prever, e saiba que os frutos virão amando-se desde agora a semente, e que a colheita não está em nada separada das raízes.

Raros são os amores sem necessidade de outra coisa senão o próprio amar: sem compromissos públicos na agenda, sem encontros marcados com as certezas, sem anúncios nas redes sociais e planos anunciados de férias e festas onde se espera se estar longe do fracasso de não ter sido aquilo que se prometeu.

Amar é verbo sem cobranças.
Amor sem promessa tem perfume de gratidão, perfumando-nos e, por consequência, perfumando o outro, sem esperarmos por isso.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Aviso...

Cada sentimento que escrevo e com exatidão lhe demonstro serve para convencer-te que sinto aquilo que escrevo. Cada emoção que lhe descrevo serve para convencer-te que sinto quando te reconheces por também sentir. As palavras que faço espelho para que enxergues a nós mesmos é estratégico. Engano-te, e muito bem. Quando alcances meu verbo terei eu antes morrido mil vezes. Quando entendas minha batalha terei eu antes perdido outras mil. Dou-lhe o que resta do meu passado visto que o que lhe ofereço é aquilo que não é mais, mas que satisfaz porque são palavras: frágeis substitutas das verdades. Trago-lhe texto pronto, aparado, com a devida assepsia das minhas loucuras e egoísmos. Trago-lhe produto refinado, com certa dignidade, distante da matéria-prima que de início me sufocou. Apresento-lhe o sofrimento pelo filtro do intelecto: coisa outra, maquiada, pronta para festa e bençãos literárias. O que vês não enxergas: sou o dobro, sou o excesso, sou o absurdo. Ao me tornar palavra já sou homem domado, domesticado pela linguagem. O transbordar é cenográfico, visto que ao iniciar parágrafo já terei sido antes inundação. Engano-te pois sou polida e comportada impressão das minhas confissões, mas não abuso do direito de ser outro. Apenas declaro o que fui com a interferência do tempo que me faz outro, com a palidez das distâncias do que não mais se é. As mentiras são sinceras e os cenários são reais, mas vês somente a sombra dos meus protagonistas. Verso sobre o inferno atenuando o calor, sobre as flores diminuindo os invernos. A linguagem é reino que com interesse manipulo e por capricho transformo, porque é na palavra onde me sinto na posse do que não sou. Aqui, mudo comodamente os limites das minhas prisões, antecipo vitórias e liberdades, altero por conveniência definições e conceitos sobre mim. Se lhe disse acima sobre meus egoísmos, poderia reescrever falando apenas das minhas virtudes. Na palavra me condeno ou me inocento, embora não me isente de ser e viver o que sou. Por isto, enganei-te para enganar-me, pois convencer é poder ser convencido. Mas já basta! Quero desconstruir miragens, desmentir crenças, abandonar gaiolas. Quero assumir minhas existências e ser honesto nos meus despropósitos. Quero sentir mais e pensar menos, descartando a ingênua ideia que cultivei de que tenho controle sobre alguma coisa. Escrevi por ter sido tanto tempo escravo. 

Voltarei a escrever somente quando me tornar devoto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Categorias...

Aquilo que já havia sofrido como a mais severa angústia também lhe era a mais cristalina benção, posto que ausente esta e quaisquer outras bençãos lhe seriam impossíveis.

Talvez entre verbetes e sinônimos, acordar, despertar, levantar e amanhecer devessem ser bebidos como inevitável paradoxo que nos revela alternadamente nosso estado de espírito e, aos bocadinhos, a generosidade da própria existência ao permitir atravessá-los, dia após dia.

Viver é estar disponível para os milagres e demais categorias de felicidade.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Da sabedoria dos rios...

O amor deveria assemelhar-se ao riacho que se desenha por entre as curvas isentando-se das culpas por não caminhar em linha reta, pois, no fundo sabe do seu inevitável destino em ser mar. O amor ganha forças com o que foi mas, tal qual a sabedoria das águas, nunca olha para trás.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Hoje não...

Amo-te pela poesia das coisas ditas como se não houvesse nunca dito antes palavra: uma importância, um significado, uma realeza, uma andorinha sequer a partir dos lábios contente e fazer-me céu. Vivi com silêncios como luto inconsciente por não saber de ti. O que viesse a dizer me era velha página de jornal, formalidade, preenchimento, um catálogo de conveniências necessário para sobreviver aos dias.

Uma espera, no melhor das hipóteses e esperanças.

Hoje não.
A minha palavra é celebração.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sinto muito...

Eu, protagonista dos meus erros, testemunhei os alheios como registro que guardei na memória e nunca soube aproveitar. Não houve quem me desse nitidez ou exatidão das coisas que sofremos nem a clareza da desordem de tais coisas. Anestesiei-me com ausências e distâncias. Consumi o corpo acumulando venenos. Consumi a alma reprimindo desastres. Gastei o tempo em bebidas, implicâncias, egoísmos, distrações, sexo, vaidades, cigarro e comprimidos. E embora ela não nos ignore, a verdade é aquilo que temos por costume ignorar. Isto foi o que aprendi justamente por jamais ter me dado antes a chance de aprender. E seja como ela venha, ninguém a anunciará senão os teus próprios sintomas. Ninguém lhe contará de um abrigo qualquer a evitar encarar tuas tristezas e tempestades. A verdade virá arrancar tua mentira. Ainda que para isso extraia tua miséria pela carne e precise você morrer para continuar. Ainda que a dor te deixe à beira da loucura e o cansaço te convoque às desistências. Somente assim, saberemos da força ao nos enxergarmos desesperadoramente frágeis. Somente assim, saberemos quão covardes fomos ao convocarmos à força nossas coragens. A sabedoria acontece-nos desta maneira: quando passamos a viver sem o medo que tanto custou-nos sentir. Pois quando faltou-me tudo, sobrou-me a fé. E por restar-me a fé, todo o mais me foi acrescentado. Por ela evitei prender-me para sempre nos meus próprios escuros.

Se nela não crês, amigo, sinto muito.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Excessos...

Usamos do corpo em demasia quando queremos demitir a mente, filho. Comer demais, beber, trabalhar, por-se a deitar com mulheres demais é uma aparente celebração. Viver em excesso faz-se o nosso esconderijo enquanto não nos encontramos. Os momentos servirão apenas para atravessarmos os momentos. 

Assim, fazer é um modo temporário de desistir.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Entenda...

entenda isto:

o amor está nos teus olhos.
preso, agarrado, fincado, 
instalado,

talvez o amor seja os teus olhos mesmo.

e é por isso,
é por isso,

definitivamente é por isso
que poderás voltar a amar,
recomeçar-se,
reinventar-se,

num novo par de olhos que desejes.
assim que os teus olhos
voltarem novamente 
a enxergar.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Esqueça-a...

Se buscar pela felicidade não a alcançará, meu filho. Esqueça-a - eis meu conselho para ser feliz. Permita-se esquecer e lembrará adiante o que nos é óbvio mas óbvio não nos parece: quando não nos preocuparmos em encontrá-la poderá ela então ser encontrada. A felicidade acontece-nos como algo indireto, como efeito de uma causa que não a causará se esta for nossa intenção. Ao avivarmos a própria luz descobriremos a sombra para os descansos. Por isso, ocupe-se, existencialmente. Celebre, reclame, aprenda, maldiga, ensine, sangre, perdoe, partilhe, ame. Quando você menos perceber, mais será percebido. 

A felicidade é a resposta que nos concedemos quando nos dispensamos das perguntas.

domingo, 8 de novembro de 2015

Sem futuro...

[...] perguntei àquele homem sem futuro como podia ele então continuar a existir?

Disse-me que o futuro é promessa que poderá ou não vir a ser, mas não a esperança, que já se encontra ao alcance como fruto a ser provado. Por isso enquanto os outros sempre esperam por se realizarem no amanhã e apenas por ele vivem, seja ele próximo ou distante - isto não importa -, atravessa este homem todos os seus agoras com a esperança de que se alimenta.

(Ensinou-me assim na entrelinha que gratidão não é tema do que viremos a ter, mas daquilo com que já nos encontramos e que pela soma, somos)

Pudéssemos...

Afortunados seríamos se viéssemos a morrer lúcidos, de olhos abertos, esperando a morte a recebê-la, para que venha a nós atravessá-la e por nós nos atravesse; tal qual barqueiro cruzando rio à outra margem, ao tempo igual das águas a cruzarem barco e cumprirem seus destinos. Pudéssemos nós aguardar a morte cheios de vida, para não nos desperdiçarmos na passagem. Quem sabe descobriríamos que somente à beira saberíamos quem somos, ainda que no instante último e anterior a não sermos nada mais. Talvez se a encontrássemos, distraída, antes dela nos encontrar, poderíamos sem turbulências abdicarmos do nosso existir e sem urgências, sabermos o que fazer com nossas sensações. A morte me desenraizará, cancelando as autoridades de ser eu, imporá silêncios como véu a separar-me dos vivos, porque viver é fazer barulhos. Serei um ausente apenas por não me escutarem mais. A morte nos apontará verdades: ela fará com que passemos a nos dar conta da vida e os outros a se darem conta de nós. A morte igualmente permitirá mentiras: enfeitando-nos com dignidades na boca dos viventes a dar-nos qualidades que pouco usamos ou nunca tivemos. Poremos em xeque nossas crenças, atualizaremos nossos medos, recobraremos os graus de parentesco com os eternos, descobriremos onde desaguam os mistérios. Aquele que diante da morte se encontra tem direitos de suceder-lhe tudo, inclusive continuar vivendo. Suspeito que a dita cuja tenha afinidades com os milagres, embora o que saiba da morte é aquilo que sei da vida: atravesso-a sem saber ao certo o que nela sou e o que ela é. O que desejo não é saber, e sim que a felicidade seja sempre uma das últimas palavras a escrever e comunicar, de qual lado for.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Que não te vês...

vilão e vítima
são os outros nomes teus
em razão da luz que lhe falta ou lhe pousa
no espelho em que não te vês.

e seja qual o crime
que te furtes ou cometas,
ambos estão a lhe confessar:

a vida é devoração.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Virou a página...

cortava-lhe sempre a carne
com o travessão do que não disse.

afastava seu sujeito do verbo amar
e por tanto tempo impróprio a viver no imperfeito

calou boca e sonhos
num ponto final.

cansado,
virou a página.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

(Des)esperar...

Não, tu não sabes a real dimensão do desespero. O que é precipício, escuridão, aniquilamento. Talvez outros tantos desconheçam a vertigem contida na palavra: o desesperar no desespero; a inteira nudez em que não há nuances, e sim impotência revelada e dita no espelho turvo dos significados a sequestrar-nos de nós mesmos. Usamos diariamente o que não é trivial como se trivial fosse, palavras cotidianas que não correspondem às experiências últimas, viscerais, nossas existenciais verdades, misérias e virtudes. Aquele que atravessa o sentido de uma palavra desta aprende a usá-la na dose certa de sua pertinência. Assim é com a dor, que nos dá o silêncio como seu melhor porta voz, e que por conseguinte virá a refinar e embelezar a gratidão.

E assim também é com o amor.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Desmorrer...

Afoguei-me vezes sem conta nas lágrimas, senhor. Tanto remei contra e a favor que não mais soube quando contra ou a favor remava. A âncora lancei quando hora de partir; parti quando hora de aportar. Sofri de fomes e excessos, senhor. Sofri de miragens e silêncios. Naveguei em direção às tempestades, sempre às conveniências das minhas marés. Inventei piratas a saquearem os meus tesouros. Tornei-me filho distante das constelações. Graduei-me no tempo um marinheiro sem aprender a nadar.

Somente assim pude na própria vida, desmorrer.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Inteiros...

Seu toque criou mundos e amores inteiros dentro de mim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Travessias...

Podia ser que o amor germinasse e estivesse árvore a deter-se nas alturas. O medo seria zangada andorinha com desejos vazios de castigar nuvens. A beleza do amor atrairia a sorte: é somente disso que precisamos para as travessias, não? O destino tratar-se-ia de um abismo feio sem esta ventura. Até a morte cá chegar seria um longe. Até a esperança cá chegar seria um longe. A sorte no amor é precisar urgentemente do futuro. E tê-lo desde já.

O azar seria uma pressa de fugir.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Inspiração...

Já faz um tempo que não tenho mais o que dizer, mas ainda escrevo. Tornei-me represada possibilidade de novas páginas de mim. Tornei-me palavra ressecada que nenhum fruto entrega, distante lembrança dos meus florescimentos, um completo esquecimento das minhas venturas. Sou palavra polida pelo ego a dar lume ao que nada mais brilha. Sou uma falta, um bloqueio, uma negação das minhas inspirações; alma turva que não mais enxerga as transparentes traduções das minhas marés. Eu sou a poesia de uma flor que já morreu. O lado de dentro tornou-se prisão dos meus vocabulários. As repetidas tristezas que vivo azedaram a poesia e o amor a quem ninguém dediquei, nem mesmo a mim. Vivo anestesiado em meus escuros enquanto as repetições me assombram. Desaprendi liberdade e verso sobre aflições nas quais me graduei. Ensinava sobre asas, hoje falo sobre avessos. Antes apontava caminhos, hoje ando em círculos no meu íntimo labirinto de temas e pregações. Eu sou a aridez das minhas próprias histórias que não mais testemunham as levezas no papel. Como o semeador que nada fez, adormeci nas letras e ganhei alergia aos encantamentos que não pratiquei. Gastei meu repertório de virtudes ensaiadas. Escrevi sob encomenda das sabedorias que não ouvi e hoje nada mais escuto. Versei sobre invisíveis que nunca vi e agora nada mais enxergo. Eu que não falei sobre as minhas verdades não sei mais o que dizer. Resumo a escrever para vomitar engasgadas tristezas com a facilidade de quem atravessa nuvens mas não toca o céu. Sou a mais real das ilusões que encontrei. Assumi papéis, todos em branco. Desfiz romances e assumi dramas. Peço diariamente que a literatura me salve a ser outro em outro capítulo que agora não sou, visto que sou obra de ficção, e quem sabe, uma obra do acaso: inacabado e inacabável. Já faz um tempo que não tenho mais o que dizer, mas ainda escrevo exatamente por não saber mais o que escrever. Nem como parar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Destinos...

Amor, vim socorrer tuas sementes que temem os invernos. O medo dos amanhãs nascem aos olhos não pelos caminhos imprevistos que podem conduzir-te ao erro, mas pelo fracasso passado dos erros que não soubemos nos despedir. Quando percebemos que as chaves da prisão encontram-se desde sempre no bolso, a essa descoberta podemos chamar verdadeiramente de ano novo. Descultive o temor da repetição destes teus atos empoeirados. Aprende que é possível recomeçar ou renascer sem sair do lugar. A verdade é terra sem caminhos dentro de cada um, onde liberdade é o espaço para nos movermos dentro de nós lançando as sementes para as possibilidades que virão a ser. Apropria-te de ti, pois não há nada nesta vida que não seja responsabilidade. Não devas nada ao azar, tampouco à sorte. Cresça mesmo por entre as estiagens; é para isso que nos servem os ciclos e as dores. Saiba que não há sentido imposto em nossos passos, porque não é o destino quem de fato nos guia, mas nós quem o guiamos; ele é a possibilidade que temos em olhar para um só caminho e escolher segui-lo. És o resultado das escolhas que ainda irás fazer. O futuro pouco sabe de nós. Assim, cumpre teu dia hoje como se fosse teu inteiro destino, porque o é. 

E cuida o melhor que podes do teu agora, todos os teus amanhãs passarão por ele...

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Casal...

Eles não bebem do mesmo café, nem brindam do mesmo vinho e tampouco dividem do mesmo trabalho. Eles não moram no mesmo bairro e não leem as mesmas notícias. Eles não se sabem como aqueles que vivem a disciplina do já conhecido relógio dos relacionamentos. Desconhecem o tempo das esperas e a espera por respostas. O que sabem é ser descanso e segredo um do outro exatamente porque não se precisam, tão-somente se gostam. Colecionam nas prosas, levezas que se conversam, esquinas que se namoram, muitos sonhos, absurdos e confissões que só as almas afins e os espelhos do quarto podem saber do que a gente é feito. E não há ninguém que desconfie de suas verdadeiras identidades, não há quem descubra qual vento os carrega, que medo os aprisiona, nem quem saiba de suas vontades sinceras declaradas apenas na língua que criaram e que diz mais ou menos assim: Que a gente é feito pra caber onde não cabe. Que a gente é feito pra ter o que não possui. Que a gente é feito pra viver como não vive. Que a gente é feito para crer no que é incrível. Que a gente é feito pra amar como não ama. Que merecimento é uma escolha. E que pertencer vai mais além do que suspeitamos. Não, não há ninguém que possa imaginar que eles no dia-a-dia sejam um casal, apaixonados por ausências. Ausências de cobranças e sentenças, julgamentos e pedidos de alforria. Ausência de regras, de moralismo barato, pesos do mundo, críticas alheias, rotinas, boicotes tantos e dias pela metade. Não esperam do outro aquilo que o outro já não seja. Não carregam pretensões bobas de acordar juntos no dia seguinte, por já serem colo e carinho em qualquer lugar. Apaixonados pela falta de incertezas, enamorados pelas levezas em comum. Recusam ao suspeitarem de laços que possam vir a pesar e impedir braços abertos e que impeçam os voos constantes do pensar e do desejo. Ela dá nome aos seus imensos. Ele se aconchega no cheirinho de descompromisso dela. E por morarem um no outro, não carecem de explicações. O mundo inteiro lhes pertence e isso é o suficiente. Não há falta que incomode nem distância que emudeça. O mundo inteiro lhes cativa e isso é o importante. Assim, não se trancam, não se impedem nem se cobram - mas se encantam. São cúmplices de suspiros e co-autores das vergonhas que repartem, dos prazeres que se permitem. Seus únicos compromissos na agenda são com o acaso e com as singelezas. Só eles sabem de seus pecados, além e aquém das formas, nomes, papéis, pautas e cenários que inevitavelmente vivem. São insuspeitos, ousados e discretos. São inteiros em seus pedaços, mas são pequenos em seus inteiros. São também alérgicos ao morno, ao medo, ao mesmo e ao cinza que descolore a intensidade dos encontros e que só eles sabem o remédio. O que querem é essa leveza poisada no ar. O que buscam é a garantia de que nada os prenda ou os garanta. O que esperam é não ser motivo de qualquer espera. Chamam isso de poesia. Por isso, são tão livres quanto condenados, por celebrarem pecados e portas abertas sem ninguém saber. 

Dividem a única culpa que carregam e que reconhecem: a de não sentir culpa nenhuma.

(Guilherme Antunes & Camila Heloíse)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Queimar os olhos...

O amor, meu filho, talvez seja aquilo que no outro faz-nos frequentemente visitarmos os sorrisos. O amor há de nos causar incômodo, não ao certo pela ausência de quem ama, mas pelo muito do que nos deixa do amado. Veja, do amor posso falar somente pelos seus efeitos, visíveis em nós. Assim, não é possível haver rigor para diretas definições. Vestir-se de amor é despir-se de certezas, devendo ajustarmo-nos a ele e não seu contrário. Digo-lhe isso pelo que com convicção desaprendi, filho. Culpa das imprecisões do verbo amar. E tudo porque posso dizer-lhe que amei, embora não saiba dizer o que é o amor. Posso dizer-lhe que sei amar e que fui amado, mas não sei dizer o que o amor é. Pois nos braços do amor morri e das suas mãos à vida tornei, mas não sei o contorno daquilo que pôs-me a morrer ou renascer. Creio que tenha sido por isso que o vivi, por não defini-lo na busca de um extático conceito. O amor talvez só tenha sua desenvoltura se não o encaixarmos no exato sentido dos vocábulos. Sabemos de sua sombra pelo descanso que nos permite. Mas insatisfeitos, insistimos em encontrar aquilo que a cria, perdendo nisto o exato lugar dos repousos, vindo a queimarmos nós os próprios olhos.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O nosso silêncio...

Há momentos na vida em que não adianta dizermos a quem dói "calma, vai passar, não se preocupe". Muitas vezes as aflições não se aliviam com palavras, com incentivos, com certezas nossas que emprestamos na melhor das intenções. A alma pede afago, o cansaço pede colo e a desperança que nos enfraquece pede a distração que nem sempre trazemos como receita no nosso repertório. Há momentos em que não adiantará dizermos nada - ou tudo - a quem dói. Há momentos em que apenas o improviso do carinho saberá como cuidar, e que, sem imaginarmos como, diluiremos a tristeza do outro por ouvir o outro sem lhe dar respostas, por estendermos a mão mesmo sem sabermos o que fazer depois, permitindo que ao partilhar seus cacos e metades alivie-se do excesso de mundo que o atormenta.

Às vezes a vida que nos grita pede o nosso silêncio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Paredes...

Prisioneira de si, vivia sua vida como se cumprisse pena, atravessando os dias como a resignada desistente da luta contra uma doença incurável que fingia ignorar ter ela própria escolhido: a infelicidade. 

De alguma maneira, sofria mais para proteger-se de sofrer, fazendo do cansaço razão para erguer suas paredes.

sábado, 12 de setembro de 2015

A canção...

amo quando colocas tua alma na boca e sopra:

este teu canto de pássara
convoca-me 
dos meus próprios outonos.

deverias saber de antes mas
se não sabes, digo

és tu mesma a canção.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Consulta...

Consultei os búzios, as runas, ruínas, o boletim das estradas, o calendário da oficina.
Consultei o vinho, o vizinho, a cerveja, a própria certeza e a conta do bar.
Consultei o garçom, o maçom, bula de remédio, o síndico do prédio e as conchas do mar.
Consultei órbitas celestes, a figurinha do chiclete, minha tia ex-chacrete e os óbitos do jornal.
Consultei o mendigo indigente e o homem influente que ria da gente com seu traje formal.
Consultei a previsão do tempo, o extrato do banco, a velha no banco e do padre o sermão.
Consultei livro dos sonhos, anotação e dicionário, os cabides do armário, inclusive o coração.
Consultei o medo, a moda, a prosa, a chuva e o amigo antigo de Ipanema.
Consultei pajé, mané, a borra do café, o censo do IBGE e o resultado da telesena.

não importa:
no amor,
qualquer previsão
nos é sempre
favorável.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Zodíaco...

Contrariando habituais expectativas do zodíaco nos exatos dias do meu calendário, encaixo amanhã imprevisto: saber esquina ou mesa de bar em que a linha - aparentemente distante e independente - da sua vida, cruzará com a minha. No inimaginado encontro de retas e caminhos tão paralelos, sobrepostas faltas de ar; inesperados suspiros; insuspeitos e largos sorrisos; uma não planejada falta de jeito. Diante do acaso, um caso, um encontro, um romance. 

O amor tem dessas desnecessidades...

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Uma vez mais...

uma vez mais tratarei de lhe falar sobre a elegância das nuvens
explicando-lhe a importância da primavera 
a necessidade dos invernos;

uma vez mais faremos amor pela primeira vez;
falarei poemas. não importa se meus ou de outros, 
visto que são poemas;

uma vez mais dançaremos no quarto qualquer canção que escolheremos nossa;

uma vez mais descobriremos o lirismo dos silêncios;
uma vez mais lhe darei broncas por seres tão injusta consigo;
uma vez mais desconheceremos quando voltaremos a doer;
e da inocência faremos a cura da inocência que perdemos;

nossos dias são lugares felizes, amor
nossos corpos tem ângulos exatos
coragens e covardias nos serão exatamente suficientes.

amo-te para acalmar as horas todas
beijo-te com a urgência de um para sempre
deixa-me tão aberto ao mundo para que não precise dele;

uma vez mais, amor,
era este desassossego
de que precisava.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Cuidado...

Cuidado: a infelicidade quando muita na vida, afoga-nos para dentro de nós, criando risco de se desesperados, agarrarmos qualquer coisa ou pessoa que para nada nos serve ou ajuda. Passamos a viver o velho ditado: para quem está afundando, jacaré é tronco. Um tronco existencial e afetivo, no caso.

A carência deve ser compreendida como um pedido de socorro de nós para nós mesmos - e não um estado de mendicância - para não nos deixarmos à deriva, e recuperarmos o amor próprio que em algum momento da jornada se perdeu ou foi atirado ao mar por alguém que permitimos após convidarmos a embarcar conosco.

Há marés interiores que se tratam de avisos de retorno à terra firme. A alma sempre pressente as tempestades.

Sem amor próprio, entulhamos lixos e desencontros, nomes e desesperanças que aumentam enquanto nós diminuímos, conforme o tempo passa e nada muda.

Sem amor próprio, não adianta. Não haverá porto que nos deixe aportar em paz.

É apenas com o amor próprio recomposto que retomamos a dignidade. Dignos e sentimo-nos suficientes para então abandonar misérias que atraímos sem nunca nos pertencer, despedindo personagens que não cabem mais em nossos cenários, descartando cenários que não cabem mais em nossos amanhãs.

De posse do amor próprio, contamos nossas próprias histórias.
Sem ele, somos apenas rascunho.

domingo, 30 de agosto de 2015

Destino...

'Desde quando felicidade é destino?' - pensava. As pessoas faziam coisas com ideias exatas de cumprir roteiros como se ao final felicidade as aguardasse. Como se fosse conquista, como se devêssemos exaurir tristezas para o devido merecimento, como resultado direto de acertadas escolhas. Não conhecia quem houvesse aportado na felicidade. Não conhecia quem a houvesse buscado e pela busca encontrado. Assim, tinha direitos em desviar-se das tristezas. O desvio mesmo lhe era uma pequena felicidade. Como todas as outras felicidades. Pequenas. Como todas as grandes felicidades.

Não importava.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Tola...

Parecia ela precisar repensar sempre seus sentimentos para que se mantivessem afinados com a dor. Eram as releituras de sua miséria a esmiuçar os próprios erros e os alheios que lhe afetavam, ensaiando e repassando diálogos e outros pretéritos incômodos, prendendo-se a cada um deles, fosse pela culpa ou pelo ressentimento. Bebia ela o veneno da frustração, da raiva e da tristeza. Era assim como cultivava sua tolice. Sentia-se tola, definitivamente, não conseguindo deixar de ser apenas por se saber que é.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Para calar-me...

Não me atreveria ensaiar palavras de impacto - como vejo tantas por aí - a declarar amor aos teus olhos, justamente por seres tu a leitora. Liberto-te dos clichês amorosos açucarados meu amor, embora paradoxalmente vivamos todos e cada um deles no dia-a-dia.

Quão descabido são os expedientes do mais do mesmo que usam os amantes para afirmar união e jurar fidelidades? Pergunto em nosso caso: afirmar o quê? Não venho cá afirmar aquilo que o nosso amor sabe o que é. E se se encantam os outros com o que escrevo, é por mera casualidade, pois, pensam que vivem o mesmo que nós e se encontram aqui refletidos. A única semelhança entre eles e nós é que também somos um casal.

As palavras vendem coisas - e por sinal prometem mais do que entregam - tais como suspiros e certezas. Mas as entrelinhas confessam verdades, e outras coisas pela razão exata de serem entrelinhas. Costuro palavras que apenas em ti caem bem, embora as tentem vestir os outros. Apenas tu podes decifrá-las. Decifrar-me. Beber de mim e matar a sede. E peço que tu leias no silêncio do nosso quarto depois do orgasmo. Encontrarás no meu corpo e no abraço aquilo que sempre declaro sem nunca dizer.

As palavras são os pretextos do amor para calar-me.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Os erros nossos...

Sofremos pela ausência das raízes que a nós nos inventaram;
quão reais são os desesperos e artificiais as alegrias?

Ressentimo-nos do vento que continua a bater 
sem respeito a qualquer tragédia,
pois para longe do que é certo ou parece-nos acertado
continuamos a fazer coisas sem saber ou por uma lúcida estupidez.

Ignorantes, perdemos ainda mais por cultivarmos a dor das perdas.
Ignorantes, atrasaremos ainda mais por descontarmos esta dor nas primaveras.

Rezamos antes de dormir para que os outros 
venham a perdoar os erros nossos.

A esperança é que amanhã estejamos mais despertos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Maturidade...

As idades vão além das velas assopradas, meu filho. Despindo-se a ideia de tempo em que atravessamos as coisas postas, elas pouco tem que ver com os calendários. A idade mostra-se no que costuramos e como costuramos com aquilo que vivemos. A idade mostra-se na resposta que damos às perguntas que fazemos e na pergunta que fazemos às respostas que nos dão, conforme trocamos de cenário ao longo dos passos. A idade mostra-se na palavra a concedermos gentileza e a gentileza que concedemos por calar. O que se verifica nos documentos faz-se apenas referência à história dos lugares nossos e da geografia do próprio corpo.

A expressão de uma idade bem vivida, filho, chama-se maturidade.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Qual amanhã?

Ver-te os teus detalhes todos; teus traços, tuas expressões; como mexe a boca, como puxa o "r", as entonações, as pausas, o teu perfume; o laço que tens no cabelo; como apoia os braços na mesa, para onde vão teus olhos quando sem jeito, quando se lembram, quando prestam atenção nas minhas mãos enquanto distraído falo. 

Vital será respirar através dos teus olhos e dos teus sorrisos.
Vital será ficar para o por do sol contigo porque és tu a beleza do por do sol.

Ah, mulher! 
De qual sonho vieste? 
Com qual sonho te vestes? 
Com qual palavra te despes? 
Com qual silêncio me teces?

E em qual amanhã tu me amas?

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Expectativas...

Expectativa é teimosia antiga nossa, filho, em que exigimos aos agoras aquilo que não lhes cabe. É noite mal dormida para adiantar manhãs. A semente que no descaso à sua primavera quer no inverno vender seus próprios frutos. Um presente vivendo de futuro e o futuro vivendo já de romances. O cigarro que se apaga sem direito tragarmos. Devorar o relógio, o estômago, a paciência. Irmã rebelde das esperanças, expectativa é dispensa dos caminhos e apego às chegadas. Filha mais nova da ansiedade, é o disfarçado avesso das entregas.

Ali, meu filho, amor não resiste muito não.


"Só se está intraquilo enquanto se tem esperanças". (Hermann Hesse)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Definitivamente...

O peito enchemos de orgulho como se tudo sozinhos conquistássemos.
Como se não fôssemos obrigados a pagar, nem a sorrir.
Empatamos a vida - e os outros - com retóricas, como se estivéssemos cheios de razão.
E magoados, aguardamos satisfações que não nos dão.
Apanhados diminuídos, incertos, assustadoramente lúcidos, perdemos o tempo ganhando as idades.
Cuidam-me como planta, como coisa, como qualquer coisa.
Escolhem por mim o que me apetecer. E apeteço-me, como se tivesse alguma liberdade.
Fingimos dizer que a solidão interessa-nos de algum modo. 
Assunto que usamos pela companhia de não ficarmos sós.

O amor, definitivamente, é para heróis.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Da vida e dos destinos...

Quis moça desavisada deixar seus encontros e querências todas nas mãos do destino. Acreditava que se assim se cumprisse estaria ela abençoada com cenários e personagens quaisquer que lhe cruzassem, legitimada a esperar desde agora as oportunas resoluções de suas questões e intrincados labirintos, facilitada a aceitar amargos que não previra e agradecer pelas alegrias que não planejara. Mas, o que é o destino senão uma ideia, um conceito? O que é o destino senão um nome? Onde estaria senão nas páginas da literatura e dos dicionários? Não sabia moça que dava vida à vida, tirando vida de si para isso. Não percebia que à abstrata ideia dos destinos dava-lhe substância, forma ao conjunto impreciso dos seus amanhãs, consistência às possibilidades e personalidade a um ente criado pela linguagem do homem a quem passamos a confiar a revelação das escolhas do que (acreditamos que) não escolhemos. Diminuímos nosso alcance por conta própria ao transferirmos a quase inteira responsabilidade das nossas ações à esta ideia sem braços, dando-lhe o poder de ditar-nos muitas das vitórias, fracassos, perdas e coincidências, frutos talvez de um mero capricho ou da experiência que pensa este tal destino ser necessária a dar sentido ao nosso caminho. Não percebia moça a ilusão de que todos sofriam, e que as mãos do destino eram as suas próprias mãos, não podendo colher no amanhã se não fosse ela a jogar desde já suas sementes.