quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ariano Suassuna...

Dois imortais - vejam só - morrem em menos de uma semana. Dizia Ariano que todo escritor é um mentiroso. Concordo e creio, pois não é a literatura muitas vezes mais generosa que a própria vida? Na vida, morre-se. Nas palavras, eterniza-se. Assim fez Ariano.

Da pedra do reino ao Circo da Onça Malhada, de sua voz rouca e engraçada para os seus silêncios. Na poesia, põe-se sempre a morte de luto.

Talvez peçam os céus a presença de três grandes homens a renovar as escrituras. Talvez sentissem os céus órfãos de histórias. Talvez. Como saber? Não sabemos.

Como diria Chicó: Não sei, só sei que foi assim.

Morrem-se mais uma vez, os viventes.

Descanse em paz, mestre.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Depois do fim...

Esta é a história da mulher que restou depois do fim. Uma mulher que morreu sem morrer depois que o amor se foi e junto levou a vida, deixando-a na miséria do existir. Quando ninguém mais permaneceu, sobrou sua convivência entre os abandonos. Depois do amor, deixou-se de pertencer a lado nenhum, não houve terra nem mar, servindo-lhe céu apenas para doer as noites, quando melhor se escuta tristeza. Depois do fim, calam-se os ventos. Depois do fim, não há caminhos de volta, apenas um único momento sem princípio nem final; não havendo alívio nem para os horizontes. Depois do amor, nada mais nasce ou cresce. Depois do fim, tudo é e continua sendo, ainda que nada mais seja. Depois do amor, qualquer coisa lhe era equívoco ou cansaço, numa vertiginosa queda em si mesma. Depois do fim, o tempo desapareceu, e sua tristeza tornou-se um para sempre; a sua saudade, imensidão. O tempo poderia engolir a luz e fé, pois cedo ou tarde regurgitaria uma e outra ainda vivas, mas não. A dor era tanta que o tempo se dissolveu e a partir do que se acabou, nada mais aconteceu, nem a lucidez, nem o sonhar. O que se movia, girava lento e atordoado, como o mundo e seus pés. Sobraram-lhe apenas tortos e secretos caminhos levando a qualquer desilusão. Depois do fim, engasgou-se facilmente com qualquer recente esperança, como densa fumaça irritante. Depois do amor, aprendeu a solidão apenas a medir distâncias e desistências, enquanto aprendemos nós a reunir ásperos silêncios a acompanhar nossas palavras. Depois de tudo, restou-lhe um nada a ecoar dentro do peito, se é que havia peito depois de tanto. Tornou-se enamorada dos olhares distantes e perdidos e inclinações para o pessimismo. Depois do fim, do tempo e do amor, só lhe restou a poesia.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Sobretudo...

Aproveita-se da tristeza a poesia, mas não eu. Peço a Deus que delas me dispense. Se puder, não sinto. Se precisar, não escrevo. Se necessário for, calo-me para que a palavra dita não me arranque a dignidade que me permitem os silêncios. Calo-me para que nenhum sentimento corte por tornar-se pontiagudo verbo. Calo-me para que nenhum olhar de compaixão me atravesse ou em mim ecoe. Calo-me como devem calar-se os que morrem. Sobretudo de amor.