segunda-feira, 30 de junho de 2014

Nada...

Em mim jaz um nada, impertinente, instalado abaixo da minha cotidiana superfície de pormenores. Um vazio imponente a oprimir o peito, que se amontoa e me sufoca de ausências. Um nada resultado da série de desesperos e desencontros comigo mesmo. Um nada que presente me apaga, me atenua, me digere. O caos, o precipício a me encarnar e assombrar de angustiosa amplidão, escancarando minha frágil e única condição de existente, deixando-me miserável neste império das coisas postas. Um nada que não repouso nem silêncio; a constante tensão entre o sentir e minhas dúvidas; um ruído e o rondar da loucura à espreita; uma inquietude a me devorar regurgitando impaciências e fraquezas. O medo como único habitante em mim. O erro como um dos meus modos de ser. A verdade que sempre vive exatamente naquilo que não alcanço. O nada como minha única certeza e fardo. A sombra como meu mais seguro reflexo, pois nada tenho que não seja emprestado, nada sou que não seja breve, nada faço que não seja engano, nada peço a não ser socorro. O mundo é estranhamente recíproco ao meu nada, ecoando minhas impurezas, que apenas nele me preservo, pois não há lugar que eu permaneça e não destrua, nem há amor que eu não despeça. Aqui, protejo-me do meu desrespeito, do meu descompromisso com a vida. Este nada que me desorienta, também me equilibra.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Pressa...

Queria dedicar-me mais às minhas tristezas, saboreá-las com calma e cuidado os seus amargos; dar sentido e peso - exato ou maior - a cada uma das minhas lágrimas. Queria remoer-me muito mais pelos cantos de casa, não somente pelo que não fui, mas por quem não serei, permitindo-me ser menos do que sou. Desejaria deixar-me sucumbir e estilhaçar diante da rotina dos dias que opressora e urgente cobra-me prontidão, ignorando minhas necessidades de ausência, distância e recuperação. Queria consumar-me no insuportável silêncio que denso preenche o quarto, a prender-me inerte e sem vida entre os lençóis, restando-me energia apenas para dissolver-me ao longo das madrugadas em minuciosas análises de perdas e perturbações, sem mais fazer as pazes com o sono leve. Queria atravessar as tardes alimentando-me com repetidos pensamentos de derrota e auto-boicote. Sentindo anestesiado o espírito, gostaria apenas de dores pontiagudas no peito. Queria ver-me de vítima frente ao espelho, abandonar em algum lugar a ser esquecido, a paixão e a fé. Gostaria de poder envenenar a inocência que carrego, lentamente. Desejaria todos os céus nublados, para que acompanhassem os meus humores, que os invernos soubessem de mim e durassem anos, que as janelas não anunciassem nunca mais o amanhecer. Gostaria de passar feriados inteiros com minhas frustrações, cultivar remorsos e sentir doenças. Queria sentir-me íntimo das angústias e lembrar-me com riqueza das ansiedades todas com quem convivi. Queria curtir um sossego com as minhas desesperanças. Mas não posso. O amor me convidou para sair. Não tenho tempo para nada disso.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O amor é uma linguagem de sinais...

O teu pouso em mim fez alongar os dias e alegrar os passeios. Contento-me hoje com qualquer cor, escuto preces nas vozes do vento. Amar-te faz que tu sejas inventada para a beleza, pois apenas através da tua boca posso saber das primaveras. Ponho coração em romaria para encontrar teu nome e não mais regressar, visto que o amor é um gesto sem retornos. E os olhos que trago são para ver-te nascer entre as folhas do tempo, a pele para no teu corpo sentir o fim dos meus invernos. Na sorte de silêncio que não comparece tristeza, festejo poesia das coisas inteiras que tu me dás e nunca possuí. Calo-me por isso; para que cantes. O amor é uma linguagem de sinais.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Das esperanças...

Abusamos da esperança como se o agora nunca fosse suficiente. Esperanças que poderiam ser usadas para frustrações que nos acontecem, convocando-nos a permanecermos e detalhadamente nos reinventarmos, em excesso nos anestesiam para as imediatas iniciativas, enganando-nos com algum amanhã que nos caia muito bem. Pois o que somos e o que temos não basta, não está bom - nunca está - e não nos serve deste jeito. Jamais nos contentamos com os limites do presente. A esperança falsifica nossa realidade e nos dá créditos para o futuro. Em demasia, deixamos de ser para nos aguardarmos melhores. Em demasia, alimenta nosso egoísmo, para que o porvir se encaixe em todos os nossos exigidos confortos. A esperança pode ser traidora quando nos despeja do aqui - esta única propriedade que temos por existir - seduzindo nossos ouvidos e decorando nossos sonhos para, sem resistências, abandonarmos o único digno espaço que ocupamos, deixando lugar vazio para nos preenchermos lá na frente. Um vazio a cobrir com seu véu as sutis riquezas dos instantes, distraindo-nos da salvação por algum detalhe constante do nosso cotidiano. Tornamo-nos uma torcida, uma espera, para que tudo se encaixe e dê certo com as particulares iniciativas do destino. Destino: palavra esta que se ausente do vocabulário, impediria-nos de ser tão metade para abraçarmos por inteiro nossas responsabilidades. A esperança é uma deliciosa promessa, não uma garantia, sendo um adiamento do que muitas vezes já nos é permitido. O tempo presente é o mais sincero dos tempos, visto que não se cumpre a nos fazer promessas. A esperança serve para a abandonarmos depois de realizada sua função aniquiladora de desânimos, e jamais como muleta, amuleto, horizonte a ser carregado. A esperança serve quando pudermos com ela residir no presente de forma irrevogável. Vivemos mais comprometidos com a esperança do que com a prática das nossas atuais verdades. Espero sinceramente que isso, um dia, mude.