sexta-feira, 30 de maio de 2014

Duelos...

"Cada um descobre o seu anjo tendo um caso com o demônio". (Mia Couto)

Existem inevitáveis duelos dentro de nós. A disputa metafórica entre luzes e sombra se mostra para além dos nossos olhos e para dentro do nosso espírito, repetindo-se como um tema que ao longo do tempo versamos e sentimos, nas escolhas e estados interiores, em maior ou menor grau, que nos impulsionam ou paralisam. Na guerra travada entre anjos e demônios, habitamos seus personagens ao mesmo tempo que eles nos habitam, ditando-nos à ação ou omissão. Os duelos se evidenciam nas dúvidas que nos corroem, visto que as dimensões e tendências contrárias se tensionam silenciosamente. Por exemplo: dar moedas a um pedinte, emprestar ou não dinheiro a alguém que se conheça, procurar antiga e afastada paixão, poupar-se em casa ou gastar-se num evento, comer algo que não deveria, cumprimentar alguém que não se gosta, etc. são exemplos a definir aquilo que na vida nos define ininterruptamente. O homem não é absoluto, pois carrega tanto o bem quanto o mal. Suas ações e omissões demonstram e permitem tais alternâncias, conforme os escuros e claridades que atravessamos de acordo com as conveniências da virtude e os interesses do egoísmo. Não se despede do que não se escolhe, pois na próxima ocasião em que se peça um pouco de nós, daremos espaço para uma destas vozes e representações. Prudente o homem que olha o fruto e vê a semente, olha a semente e sabe do outono. Se sabedor o homem das suas inexatas forças e extensões, saberia também a medida da palavra quando veneno ou remédio, mas eis que somos forasteiros das nossas profundezas, negando o que nos incomoda e o que nos inteiro confessa. Vivemos num perpétuo duelo entre as nossas expressões, sofrendo por dedicarmos demasiada atenção ao que não queremos ser. A energia gasta na negação poderia ser usada na aceitação de si, para os remendos e consertos necessários a serem realizados em nossa personalidade, diminuindo ou aumentando a influência da luz ou das sombras, conforme as conveniências do que seja melhor para nós.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sobre o enraizamento...

O amor-próprio é um enraizamento, uma sutil segurança existencial dada a nós e por nós que melhor se evidencia quando nos falta o chão e sobram-nos as tempestades. Nas condições ideais de casa arejada e céu azul, ignoramos sua estadia em nosso interior. Mas vivemos por conta das facilidades na superfície, em que apenas outros olhos nos veem e nos definem, uma vez que somos quase todos nós cegos e desenraizados. Enraizar-se é (re)conhecer. Enraizar-se é saber-se onde. Assim, não há certezas para além das declarações críticas ou elogiosas que tecemos numa tresloucada repetição, para alcançarmos um frágil convencimento (e nenhum conhecimento) de que sabemos o que alguma coisa é ou deixa de ser dentro de cada um. Sofremos, pois nos condenamos ou nos festejamos em maior parte através da condenação ou do festejar alheio em relação a nós. O sabor do fruto deixa de ser a vitória da plenitude da árvore, tornando-se apenas um capricho do paladar de quem o reconhece, gostando-o ou não.

sábado, 17 de maio de 2014

Os teus olhos...

Foram os teus olhos. Apaixonei-me por ti através dos teus olhos. Não tuas pernas, não teus quadris, não o teu sexo. Foram os teus olhos a dissolver meus tempos tristes, vingar um passado inteiro em que não te amei. O teu olhar anunciou-me os dias bons, contou-me dos até então distantes milagres que nos permite o silêncio dos amantes. Por isso, calo-me para ver-te e amar-te. E pois quando me vês, chama-me a boca ao beijo e não mais aos verbos, chama-me o toque ao corpo e não mais aos gestos. O teu olhar me deu o amor, e existência. Cumprindo previstos encantos dos sonhos que guardei, devolvendo-me ao mundo e ao tempo para ser feliz. Não apenas tua boca, não apenas tuas mãos, não somente o teu ventre; teu olhar acendeu-me para incendiar-me nos desejos todos por saber-te minha. Foram os teus olhos a despir-me dos medos de mergulhar nas tuas profundidades que o amar nos concede. Foram os teus olhos.  Apaixonei-me por ti através dos teus olhos, porque são teus.

domingo, 11 de maio de 2014

Vocações para fantasma...

Sabe doutor, depois que o amor se vai, o que nos mata mesmo é não termos mais acertados destinos. Sou hoje angustiosa ausência de mim, um intervalo entre o amor e o nada a que me permiti. Sou mulher sem pressas nem vontades, não carrego mais pecados, não possuo mais virtudes. Para quê? O que quer que cultive não florescerá. Sou a agonia de um parto que se estende pelas madrugadas. A questão é que me tornei uma inexatidão pois, como caminhar com estes imprecisos passos para lugares de um futuro que meu coração dispensa?! Qual direção sabe minha própria alma? Sinto-me um incômodo para o porvir, uma pendência para os amanhãs. Se os homens são escravos de suas direções, disto doutor, eu estou livre. Tornei-me apenas uma aparência, presa a si mesma e que continua sendo. Um eco que frustrado não se realizou. Nada mais espero das esperanças doutor, e meus sintomas são as únicas coisas que sinto. Ausente isto e não sentiria mais nada. Talvez fosse melhor. O meu sorrir é a minha mais sincera farsa; padeço de mentirosas possibilidades. Sofrer é o único sincero oficio que aprendi quando amor se despediu. Vivo por uma ingerência do tempo, um descuido da vida que se esqueceu de me esquecer. Queria um vício qualquer para me ocupar sabe? A me dar preocupações que me prendessem em algo e evitar que eu me perca diluído em mim. Acontece doutor, que o cigarro nem pra ter a decência de acender. O álcool nem pra derrubar minha atarantada lucidez. Ando bebendo a vida a conta-gotas para ao final derramar o que restou. Nem vocações para fantasma ando tendo. Salve-me doutor, pois nem o espelho reflete mais o que me tornei...

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Inspiração...

Sem enxergar a próxima linha ou ponto final, vejo apenas uma ou duas palavras à minha frente, um ou dois passos depois de mim, somente dois ou três dias depois daqui. Como as linhas do papel e as linhas do meu destino, não sei nem prevejo o final das minhas letras, qual o outro lado das minhas vontades, o fim de noite ou o final de mim. Minhas escolhas e desamanhãs são histórias que ainda não sei, mas que haverei de contar. A inspiração é o improviso e o inesperado que me desarma, a lógica que me desama, num intenso que me imensa no inteiro de que versa alma. Sou o pretexto do imaginário para se fazer verdade. Quando escrevo, pelas palavras sou descrito. Quando discreto, pelos verbos sou confesso. Quando imerso, é a poesia quem me escreve. Eu não ensaio minhas letras, tampouco os meus caminhos.