segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O homem que sabia milagres...

Era uma vez homem que sempre existiu, tendo entrado pela tangente na própria vida sem precisar nunca ter nascido. Dizia ele ter a mesma idade do mundo, sobrando para especulatórias teorias que precisassem o inexato e distante momento que em ele se aconteceu. "Somente o tempo me deu autoridades de existir" ria-se, "graduei-me gente desavisado das idades. As memórias dos outros foram os lençóis que me deitei, os sonhos alheios foram os frutos que comi. De mim não sei, o que sei é apenas o que os outros me contaram". E dessabido do seu próprio nascimento, não lhe sobrava espaço para carregar a própria morte. "Só morre quem nasce e quem não nasce não pode morrer." Mas não se sentia afortunado por isso, era antes um condenado aos estáticos eternos. Ainda que sua presença atiçasse adormecidas sementes e iluminasse os escuros, nada servia por quase nada sentir. "Planejamos demais a vida e a perdemos entre nossos ensaios. Eu não previ nem planejei e por isso ainda a tenho inteira. E de improviso entre as dores sem saber morrer, mais as perdi do que as ganhei, sobrando-me menos do que o contrário. Pelos vazios que colecionei, descompareci para as tristezas, desapareci para os tormentos do viver. Sou ausente nos compromissos que nos pedem os sofrimentos, mas também as alegrias. Tudo isto porque sempre vivo e nunca morro!" Sofria o pobre homem por nada sofrer. Um dia, apareceu-lhe num copo de cachaça a voz da sua consciência: "o que sabes da felicidade?" Não sabia o que responder. Desatinou em infinitas constatações. Talvez sabendo o que fosse sofrimento, saberia o que é ser feliz, porque sem também saber da felicidade, sabia, de nada saberia da vida. O que adiantava se manter mergulhado mas não poder respirar, falar de boca cheia sem saber gosto? A tristeza é condição para a felicidade, e vice-versa. Uma não caminha sem a outra; são irmãs que nos visitam com regularidade, em que a primeira entra quando a segunda se retira. E não lhe sobrando outras certezas, implorou por um milagre. Seu milagre era sua morte. E a vida assim lhe concedeu. Meses depois morreu de amor, para renascer num amanhã qualquer mais homem e mais vivo por aí. Descobriu que por ser mortal cabem-nos infinitas vidas, com seus doces e seus amargos. Melhor do que uma inteira sem sal.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Prisão...

Eu vivi por tanto tempo atrás das palavras e de mim mesmo. Amei letras e promessas ao invés das pessoas. Inverti a ordem das coisas e da felicidade em minha vida. Prisioneiro de mim e dos meus papéis, vivi enclausurado nos meus dias iguais, nas minhas velhas mágoas e canções. Encarcerei-me junto ao outro quando o arrastei para dentro da minha cela quotidiana. Além dos sonhos, permiti-me algumas fugas e banhos de sol, para me lembrar como era estar livre para os milagres. Eu mesmo havia escolhido minha pena e meu pesar sem o meu perdão. Contei-me histórias para me conformar de que estava bom ali, de que eu merecia e de que era suficiente. Eu sinceramente fingi acreditar; abandonei a vastidão do céu que um dia me pertenceu. Acreditei que, se todo mundo a minha volta cumpria suas penas e cinzas arrastando suas misérias, por que comigo deveria ser diferente? Por que não deveria seguir os mesmos passos, habitando os mesmos tamanhos? Por que somente eu deveria continuar com essa leveza e o brilho nos olhos? Pois eram eles que falavam de Amor, e não eu. Aí então me juntei ao coro dos contentes e descobri: A pena que por liberalidade buscamos é um amor nosso que não real, e que projetado nos engana. A ele nos agarramos e cegos entramos na trama, até que exaustos tentamos escapar mas, sem sucesso. Enraizados no ontem das nossas escolhas, custa-nos mover o mundo para habitarmos outro mais feliz, abandonando o que não nos serve mais. Enquanto a vida nos aponta repetidas razões para escolhermos o novo e com ele o risco de sermos felizes, preferimos nos apegar às justificativas e pretextos que criamos para nos mantermos no mais do mesmo e não sairmos do lugar. Vivemos presos à mesma ideia de que ainda poderemos ser felizes com o que não dá mais certo. Custa-nos tempo, energia e até equilíbrio para perceber que certas relações são hábitos e costumes, e o "amor", palavra oca na boca dos que repetem para anestesiar infelicidades e acreditar que mantém suas escolhas porque deliberadamente querem, não pelo medo dos vazios, carências e milhares de boas desculpas com que nos convencemos a ficar onde estamos, não arriscando nossos empoeirados confortos, nossa felicidade bem arrumada, nosso planejado fim de semana. Queremos a felicidade tendo medo de ser feliz. Um dia, medi os pesos e pesei as vantagens de ser feliz. Hoje sinto o gosto da liberdade.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Entre...

O poeta entretanto, 
entre tantos, entretinha-se:
com a palavra a seduzir os homens
com a poesia a degustar do mundo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Quentinho...

Eu não vejo palavra que não seja colo, e poesia que não seja abrigo. Seja uma frase que nos abrace, ou um verso que nos namore e nos leve pra passear. Eu não vejo palavra que não seja perfume, sabor, caminho, cor, leveza e carinho em que até nos dias cinzas e frios de nós, usamos da poesia como aconchego quentinho pra longe de descoloridas tristezas...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Polemizar...

Eu, nomeado escritor sem devido alvará nem aclamação;
Eu, consagrado poeta sem rigorosa sacralidade ou adoração;
Declaro para todos os fins 
os meus meios:

De natureza inapta, inepta, indócil, 
Tornei-me impróprio ao unânime
e péssima influência às doçuras.

Discordante, 
disparate, 
dissidente,
dormirei à noite
de dever cumprido:

Fazer poesia de quinta,
Dividir impérios às segundas,
Encarar o medíocre nas terças,
Sair para beber às quartas,
Reincidir no crime aos Domingos.
Pedir perdão todo dia.

Polemizo; 
Polenizo;
por um triz, o riso
Para três, a raiva.

Por que carregar gente brava
Se eu mesmo já esqueci tudo isso?