quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Um amém de santo...

Que o palco nosso de cada dia nos dê hoje
alimento aos sonhos e fome aos medos, 
verdade aos pés e beijo à boca, 
maciez aos olhos e mágoa pouca, 
um Amor com histórias, 
um aroma às memórias,
doces vinhos e glórias,
e certeza aos amanhãs,
o saber do tempo,
o sabor do intenso,
o calar do vento,
o calor do outro,
celebrar o pranto
de um milagre pronto,
festejar o encontro
com qualquer imenso.
E um amém de santo.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Na alegria e na tristeza...

Se escrever é ato de rendição e entrega a desnudar-se no espelho das palavras, confessando correntes que sentimos no mar da vida; ou convocar as responsabilidades de se reconhecer, derramando à luz das linhas os reflexos que nos compõem, qual a diferença entre escrevermos na alegria e na tristeza? A tristeza nos dá profundidades e centramentos, pois nela permaneço em mim enclausurado, imerso no denso caminhar lento das horas. Ali, habitante desalojado das levezas, mergulhado nas intensas camadas do meu eu, encontro mundos, sobrevoo monstros e distâncias, reencontro saudades, sinto espinhos em viva carne e crua alma. A tristeza melhor se versa pela consistência que empresta à dor que excede, transborda e nasce palavra. A tristeza é uma das forças que concedem coesão à linguagem; força centrífuga que aproxima o mundo dos fatos das dimensões líricas que transita o poeta. Na solidão das nossas aflições, melhor nos ouvimos e mais honestamente confessamos. A tristeza como centramento, apura-nos a visão para descrevermos em detalhes o mundo imenso que através de nós, devagar gira e incomodamente nos acontece. Ganhamos habilidades para enxergarmos o inteiro quadro das nossas desrazões à beira dos precipícios que atravessamos. A poesia melhor se evidencia nos escuros pelo contraste de sua natureza iluminada. A poesia na tristeza sofre do coração, curando-se pela catarse e epifanias da própria escrita. Quanto a felicidade, esta não se confessa facilmente na claridade do papel. A felicidade nos dá velocidades entre os acontecimentos que percorremos e os verbos que conjugamos. A felicidade é o encanto do vento, o rápido movimento dos olhos deslumbrados, a fluidez dos rios, não carecendo de estruturas verbais para se notar e desaguar mar, pois que se contenta nos silêncios e fala apenas por caprichos e transbordamentos. Ela não se permite as cristalizações e devagarosas rotações que tendem as tristezas, pois é de natureza volátil. E pela sua sutileza, poucos são os que cumprem destreza de engarrafá-la nas palavras, visto que difícil é captar sua inteireza, e senti-la nem sempre é explicá-la. A poesia melhor se camufla entre a claridade, confundindo-se entre as leves paisagens que sentimos. A felicidade é o que nos acontece à beira da janela e passa como uma tarde de final de férias, sendo fácil despercebermos a contínua linha dos acontecimentos. Assim sendo, felicidade conhece o que pousa no vento, e tristeza é a demora da cinza nuvem que se arrasta no céu.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Correntinha...

[...] até então falava sobre meu cotidiano sem sal, meus hábitos sem graça e triviais detalhes da minha vida que para ela fazia toda a diferença. Queria saber de mim, ouvindo-me com toda a atenção de seus olhos. Olhava-me de perto, e eu sem saber ao certo como me portar sem confessar a falta de jeito. Ela era definitivamente atraente. Vestia-se de branco, numa impecável camisa de seda a contar-me pelos dois botões abertos, sua correntinha. Quiçá fosse um escapulário, um presente singelo de sua mãe católica, ou talvez lembrança de algum namorado ou paixonite passada, ou quem sabe uma correntinha vagabunda dessas compradas numa lojinha do litoral durante as férias. Quem sabe. Seja lá o que fosse, enquanto eu falava de mim, imaginava possíveis cenas e cenários da vida dela. Aos poucos comecei a me sentir mais confortável com a presença, com o meu quase monólogo e com a sua inteira atenção. Mas quando ela tocou com as suas mãos meu rosto, calei minhas palavras. Deixei-a se aproximar e saber melhor meu recém-nascido silêncio, meus contornos, a minha pele. Denunciei pela minha curta e ruidosa respiração, minha tensão e talvez todos os meus pensamentos. Ela sorriu, e na nossa primeira vez, disse já querer me ver novamente. Era a minha dermatologista. Sério problema de acne. Consulta cara.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Conveniências...

[...] Se abrirmos mão das máscaras, a verdade poderá ser revelada. E ninguém faz questão de trazer à tona o inevitável lado sombrio que calamos. Afinal, temos uma reputação a zelar. Queremos acreditar que somos dignos de sermos aceitos e respeitados, de sermos amados. Seja pela conveniência prazerosa do sucesso, pelo temor de sermos rejeitados, para satisfazermos desejos ou porque silenciosamente sabemos que não sabemos nos relacionar com o próximo, não assumimos o inteiro risco da sinceridade. Por isso criamos ao longo do tempo e com muita dedicação, as mais enfeitadas mentiras que nos representam diante da vida. Mantemos uma falsa ideia sobre nós, vendendo aos outros versão com qualidades exageradas ou com atributos que gostaríamos de ter. Damos ao público a mais bela maçã do amor, ainda que seja de plástico. De real posse das nossas fragilidades, projetamos uma personalidade equilibrada, segura, mais solidária, mais inteligente, sem tempo para preocupações, tristezas ou nossos próprios defeitos. Talvez possa parecer mais fácil, embora não seja, mantermos essa diplomática e agradável superfície que deixamos livre para visitações e elogios, enquanto reprimimos e calamos nossas verdades à força. É necessário muita energia emocional e mental para consolidarmos uma repetição dos nossos cenários e personagens sem quaisquer deslizes. Por isso falamos da coragem para nos distrairmos de qualquer maneira dos medos, e fazemos da felicidade uma fachada para encobrir nossa comprimida e empoeirada tristeza, nossas misérias. Numa hora dessas, nas nossas intimidades com o outro, relaxados e desatentos, sem sufocarmos a honestidade das nossas marés, tudo aquilo empurrado para as sombras da nossa consciência, virá nos cobrar o direito de nos pertencer e nos revelar.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Doses homeopáticas...

Deveria ser proibido versarmos sobre liberdades e levezas enquanto não praticássemos os nossos perfumados e arrumadinhos verbos e quase sinceras frases de efeito. Deveríamos viver presos às nossas verdades sem chance nenhuma de qualquer fuga parcial, adiamento ou distração. Quem sabe, imersos e sufocados por inteiro e de uma só vez, sairíamos correndo das nossas prisões como quem desesperado busca o ar pra respirar. Quem sabe doer inteiro e não em doses homeopáticas seja a lembrança de que a felicidade não pode ser um placebo, tampouco parcelada. Por ora e enquanto não encaramos o espelho, o medo e o outro, pagamos os nossos pecados por sermos menos, ao mesmo tempo em que criamos outros pecados mais para pagar.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Mais e menos...

Que possamos ser mais, sendo menos; pois são os detalhes que compõem as grandezas de nós. Que tenhamos muito, mesmo com pouco; pois será para alma sempre o suficiente. Que as boas lembranças sejam referências de quem realmente somos, neste espaço entre o agora e os amanhãs, e que estejamos sempre atentos ao fato de que a felicidade mora aqui ao lado, e que desocupada nos espera visita, ainda que não batamos na sua porta, pelas distrações da nossa casa.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Que assim seja...

Que entre as folhas do teu calendário habitem os teus novos sonhos. Que a partir de hoje os dias sejam mais teus. Que você se lembre que há sempre mais coisas a se pensar e a se fazer do que coisas já pensadas ou decididas. E que por isto, você abençoe seus amanhãs. Abençoe também a tua rotina, mas a evite o quanto puder. Que você possa respirar macio como não respirou no ano que passou. Que você não se afogue no mar da vida e que guarde espaço e tempo para os suspiros e estratégicas faltas de ar. Que os passos sejam mais leves. Que tenhas boa saúde para ser quem se é por inteiro e ir atrás do que se busca. Que a Vida lhe dê bonitezas e caminhos muitos em que as certezas caibam melhor. Que o Amor possa preencher tua agenda de compromissos, taças de vinho e perdão. Para os próximos capítulos, mais intensos e transbordamentos; menos excessos. Mais frutos, sementes, planos e 'de repentes'. Mais poesia, Alma e corpo também. Mais entregas e menos metades. Mais abraços e menos saudades. Mais voos e pés-no-chão. Sorrisos e cheirinhos de terra molhada, bebês, incensos e de quem se gosta. Mais livros, destinos, menos despedidas. Que sejas dono dos teus melhores pensamentos sobre ti mesmo. E que a gratidão atraia sempre mais coisas pelas quais seremos gratos. Que assim seja...

(Guilherme Cardoso Antunes, vulgo "eu", em 04.01.2013)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo...
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta. 
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou. 
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar. 
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.
Tenho equilíbrio. Procuro por mais. 
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2014. (Guilherme Antunes)


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente".  (Carlos Drummond de Andrade)