domingo, 9 de novembro de 2014

Passagem...

Uma vez mais chegava ao guichê. Do outro lado do vidro Marcela, e Bete e Jonas. Colegas de André, Flávia e Kamila. Estes, do guichê da companhia no destino impresso na passagem. Conheceu todos, um por um, pela manhã cedo. Ainda era hora do almoço e provavelmente era a oitava viagem do protagonista. Para o mesmo lugar. O trecho da estrada curta permitia o alto número: quatro idas e quatro voltas. Viajava para chegar, e depois retornar. Os funcionários notaram sua reincidência no balcão. Já haviam presenciado situação semelhante com um louco. A família precisou buscá-lo, aliviada pelo reencontro. Era um homem desorientado. Ele não, estava lúcido e decidido a fazer isso, mais uma vez. A viver isso, uma vez mais. Assim queria, assim desejava. Assim precisava. Semanas atrás a rota significava uma espera: alcançar os braços da sua amada. Hoje, era uma espera para ninguém. Viajava para tentar despedir-se das dores assim que embarcasse. Era um pouco de si que desejava deixar pra trás, fugindo de si para encontrar-se do outro lado, quem sabe. Repetia o trajeto numa tentativa de deslembrar, de apagar os anos com quilômetros, sendo ali apenas um intervalo entre o tudo e o nada. Uma dor em intervalo. Uma viagem para desconectar-se do mundo, dos compromissos. O que poderia lhe acontecer no trajeto? Qual notícia poderia alcançá-lo ali? Talvez e somente a morte, num acidente, numa fatalidade. Mas com ela não se importava, ele já havia morrido. Viajava para tentar mesmo era viver novamente. Qualquer outra indelicadeza da vida haveria de esperar sua chegada. Repetia placas e cenários para nunca mais ser o mesmo. Abandonava no acostamento suas mágoas. A cada curva livrava-se das duras verdades que disse quando pela última vez partiu. Por isso refazia-se no caminho, como que para tirar aquela mancha difícil que escurece a alma depois do adeus.

2 comentários:

disse...

Que imagens bonitas e tristes... Gostei muito do texto. Volto em outra oportunidade para ler os mais antigos.

Poeta da Colina disse...

Cada um conhece seu caminho para travessar sua dor.