terça-feira, 18 de novembro de 2014

As 3 Marias...

"As estrelas são os olhos de quem morreu de amor" (Mia Couto)

Era uma vez menino a habitar o chão do mundo num passado em que os horizontes ainda não haviam nascido, época onde nem as palavras nem os medos haviam também sido criados. Por lá, menino via-se refletido nas águas do rio do tempo como desambiciosa semente. Sabia a vida que menino-semente era preguiçoso demais para seus amanhãs, e receava ela ficar ele paralisado por entre velhos ontens e esquecer de florescer. 

Assim, convocou três anjinhos guardiões das noites e dos sonhos, que cintilavam em céus distantes a cruzar seu caminho e causar despertamentos. Vestindo-as de amor, deu cor e destino a cada uma delas. Dizem antigas vozes que os primeiros nomes nasceram naquela ocasião. 

A primeira, tornou-se vermelha menina de negros cabelos a acender insuspeitas paixões dentro do seu corpo. Fez menino transbordar-se a descaber no próprio peito. Todo fruto tornou-se abundante; todo desejo era uma ordem; todo o céu lhe pertenceu. Descobriu ser raiz o anúncio das asas, todo espinho trazer consigo uma flor. Namorou bençãos e infernos, descobrindo adormecidas e contrastantes forças que dentro de si habitavam. Aprendeu os primeiros contornos e ardências do amor. Deixou de ser menino-semente para ganhar a dimensão dos homens. Tornou-se demasiado humano. 

A segunda, negra mulher de distantes reinos, aproximou-se de menino-homem a mostrar-lhe o árduo ofício de navegar o próprio caminho. Ensinou-o a levantar velas, assumir compromissos e direções, despedir-se para além das dores para aportar em outros amanhãs, remando sempre contra as contrárias marés a caminho da sorte. Aprendendo a velejar nas próprias sombras, despertou-se para ser farol de si e dos outros por entre as tempestades. Amadureceu seu espírito e ganhou humanidades. Tornou-se responsável homem. 

A terceira, tornou-se mulher da pele clara a pisar-lhe o pé e arranhar seu rosto. Roubou tesouros, dissolveu sentidos. Menino aprendeu os amargos ofícios da raiva, a lhe trabalhar verdades e atribuir-lhe ilusões, costurar cicatrizes e amansar demônios. E na travessia dos espinhosos invernos, ao seu lado aprendeu o mais importante: a esquecida prática da alma, predicado reservado até então aos deuses: o perdoar. Quando se ergueu, percebeu do alto que mulher quando feria, feria-se a si mesma sem saber, e deixando escorrer a seiva da sua serenidade sufocava-se na própria sombra. Acolheu-a e cuidou. Aprendeu a dedicar-se e por amor fez-se luz a derramar nas tristezas do seu não-florescer. Devolveu-lhe a beleza, os sonhos e promessas de jardim que sabem os ventos que arrastam para longe as mágoas. Tornou-se homem de alma límpida a despedir as mentiras próprias e alheias. Tornou-se homem a curar e permitir ser curado. 

Aprendeu assim também e para sempre a gratidão que ensinam as dores.

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