quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Carta...

[...] Sim, é um outro momento, uma descontinuidade de mim, um premeditado mas gentil abandono de mim, que faço por não me servir mais aos propósitos e sonhos que guardo. Descobri que é urgente praticar verdades que sabemos bem decoradas; explicamo-las, ensinamo-las, mas não sabemos a textura, o cheiro, o gosto de cada uma delas. Somos versados nas teorias, jamais no viver.

Praticar verdades descartando verdades - as provisórias - que levaram-me à lugar nenhum. Colecionei-as até a asfixia. É tempo de nascer de novo e respirar macio.

Por isso venho comunicar das minhas ambições de meus inteiros. Serão ousados invisíveis que busco conquistar. Declarando-os e ganham o peso da realidade registrada no ar, passando a viver entre nós como coisas ditas. E no momento declarado, passamos a ser responsáveis por eles, como um novo filho que nos pede atenção e destino.

Parto de dentro de mim para alcançar-me. Do outro lado da margem neste rio do tempo há minhas riquezas, e para tê-las é preciso abrir mão de certos cenários que não cabem mais nos meus passos.

Ando a namorar comigo, ando a namorar aquilo que havia esquecido e por sorte e descuido do azar, lembrei. Não tenho mais tempo de relacionar-me com as tristezas que por tantas noites convidei a dormirem comigo entre os lençóis.

Ao deixar o passado, eu mesmo me dei o presente.

2 comentários:

Anônimo disse...

Guilherme,

Obrigada por desvendar-me em tuas doces e líricas palavras. A ti saúdo a excelência de reconhecer um poeta e mais uma vez obrigada!

Ana Cristina

B. disse...

O passado sempre querendo nos condenar, mas inertes é que não podemos ficar. Profundo e verídico.