domingo, 14 de setembro de 2014

À mulher que ainda não amei...

Hoje decidi escrever à mulher que amo, mas ainda não a conheço. À mulher que ainda não sei que amo, mas que hoje virei a amar. Escrevo-lhe a confessar antes de que eu a encontre, antes que nos encontremos, que eu nunca te aguardei. Isto porque nunca acreditei no teu existir. Fui feito e moldado a partir das tuas ausências, atravessei o tempo e me virei na vida desacreditado do teu nome. A única procura permanente de ti era achar-te em qualquer coisa que fui, pois para mim era lógico: como encontrar-te se não sei quem tu és? Como reconhecer quem nunca me foi apresentado? Por isso, sobrou-me todo o tempo para perder-me. Às vésperas das juras vazias de amor que espalhei, senti paixões e estas com o amor confundi. Quando não os expedientes do desejo, eram os requintes da carência. O tempo envenenou-me apenas de descrédito e lascívia. Enganado, muito enganei; vazio, muito roubei. Falava de liberdade para capturar corações. Fingia incentivar primaveras quando queria provar dos frutos. Colecionei troféus, mágoas e desfechos truncados. Assim, como poderia acreditar em ti pois, não serias tu a acreditar em mim e nas minhas ladainhas. Não se profana o sagrado e, por sentir-me amante dos pecados, jamais poderia eu te aguardar. De toda aridez a desdizer qualquer sentido, sobrou-me o oásis da poesia, lugar em que descanso velhas e ranzinzas certezas, entre elas de que nunca saberia do amor. E num desaviso da razão aprendi a ver o óbvio: tanto disse que nunca te saberia, descobri que nunca não é hoje. Nunca é mesmo nunca e, por isso, na brecha do contrato firmado entre a coerência e o tempo, sinto hoje que virás. Deito palavra no papel a pedir ao céu para regar teus pés a te confundir com as flores. Quero vir colher-te no poente deste dia enquanto atravesso o caminho torto dos agoras para o teu amor amanhã me endireitar. Despertarei mais cedo apenas para o meu amor beijar-te antes do vento. Dormirei mais tarde para namorar teus sonhos. Venha, venha logo. E quando chegares, entra, para que tua alma se ponha no meu corpo e possa eu realmente viver. Quando chegares, entra. Sinta-se em casa dentro de mim.

3 comentários:

Poeta da Colina disse...

Quando encontrei o meu amor descobri que sempre foi assim, como se o agora anulasse o antes.

B. disse...

Belo!
Ando me perguntando sobre quando chegará a mulher ideal pra mim também, enquanto ela não chega, sigo a imaginá-la.

Priscilla Calaça disse...

Queria ser esperada dessa maneira... É um sonho! Lindo, Guilherme! Sempre parabéns a você. Abraços!