segunda-feira, 30 de junho de 2014

Nada...

Em mim jaz um nada, impertinente, instalado abaixo da minha cotidiana superfície de pormenores. Um vazio imponente a oprimir o peito, que se amontoa e me sufoca de ausências. Um nada resultado da série de desesperos e desencontros comigo mesmo. Um nada que presente me apaga, me atenua, me digere. O caos, o precipício a me encarnar e assombrar de angustiosa amplidão, escancarando minha frágil e única condição de existente, deixando-me miserável neste império das coisas postas. Um nada que não repouso nem silêncio; a constante tensão entre o sentir e minhas dúvidas; um ruído e o rondar da loucura à espreita; uma inquietude a me devorar regurgitando impaciências e fraquezas. O medo como único habitante em mim. O erro como um dos meus modos de ser. A verdade que sempre vive exatamente naquilo que não alcanço. O nada como minha única certeza e fardo. A sombra como meu mais seguro reflexo, pois nada tenho que não seja emprestado, nada sou que não seja breve, nada faço que não seja engano, nada peço a não ser socorro. O mundo é estranhamente recíproco ao meu nada, ecoando minhas impurezas, que apenas nele me preservo, pois não há lugar que eu permaneça e não destrua, nem há amor que eu não despeça. Aqui, protejo-me do meu desrespeito, do meu descompromisso com a vida. Este nada que me desorienta, também me equilibra.

4 comentários:

Poeta da Colina disse...

J[a diria a música, o nada é uma palavra esperando tradução.

B. disse...

Fantástico! Identifiquei com cada parte da sua angústia. Parece que seu texto decifrou-me.
És um dos meus blogs favoritos. Parabéns!

Déborah Arruda. disse...

Ainda não encontrei a palavra correta pra expressar a avassaladora forma com que esse texto me bateu. Já te agradeci, e por hora, fico com o obrigada, que fez com que eu me encontrasse nele.

Alexandre Lucio Fernandes disse...

É um nada que se enaltece mais que tudo... Só quem se aprofunda no vazio interno sabe, com eloquência, o limite de seus sentimentos, esses tão espanados por ventos subalternos e banais.

É um nada onde nadamos. E o mundo afunda, dando relevo às ausências. Como bem disso, um nada que desorienta, mas nos equilibra.

Abraço Gui!