sexta-feira, 30 de maio de 2014

Duelos...

"Cada um descobre o seu anjo tendo um caso com o demônio". (Mia Couto)

Existem inevitáveis duelos dentro de nós. A disputa metafórica entre luzes e sombra se mostra para além dos nossos olhos e para dentro do nosso espírito, repetindo-se como um tema que ao longo do tempo versamos e sentimos, nas escolhas e estados interiores, em maior ou menor grau, que nos impulsionam ou paralisam. Na guerra travada entre anjos e demônios, habitamos seus personagens ao mesmo tempo que eles nos habitam, ditando-nos à ação ou omissão. Os duelos se evidenciam nas dúvidas que nos corroem, visto que as dimensões e tendências contrárias se tensionam silenciosamente. Por exemplo: dar moedas a um pedinte, emprestar ou não dinheiro a alguém que se conheça, procurar antiga e afastada paixão, poupar-se em casa ou gastar-se num evento, comer algo que não deveria, cumprimentar alguém que não se gosta, etc. são exemplos a definir aquilo que na vida nos define ininterruptamente. O homem não é absoluto, pois carrega tanto o bem quanto o mal. Suas ações e omissões demonstram e permitem tais alternâncias, conforme os escuros e claridades que atravessamos de acordo com as conveniências da virtude e os interesses do egoísmo. Não se despede do que não se escolhe, pois na próxima ocasião em que se peça um pouco de nós, daremos espaço para uma destas vozes e representações. Prudente o homem que olha o fruto e vê a semente, olha a semente e sabe do outono. Se sabedor o homem das suas inexatas forças e extensões, saberia também a medida da palavra quando veneno ou remédio, mas eis que somos forasteiros das nossas profundezas, negando o que nos incomoda e o que nos inteiro confessa. Vivemos num perpétuo duelo entre as nossas expressões, sofrendo por dedicarmos demasiada atenção ao que não queremos ser. A energia gasta na negação poderia ser usada na aceitação de si, para os remendos e consertos necessários a serem realizados em nossa personalidade, diminuindo ou aumentando a influência da luz ou das sombras, conforme as conveniências do que seja melhor para nós.

2 comentários:

Alexandre Lucio Fernandes disse...

O crucial é dar cada passo ciente dos efeitos em que ele nos ancora, sem que tenhamos ilusão de um falso limite dentro de nós. Não é uma luta apenas moral, mas pessoal, por nos lançar a duelos que nos questionam e lapidam nossos sentimentos e escolhas. É bom sermos sabedores do alcance de cada emoção e ação, de tudo que ela atinge [no mundo e nas pessoas] e nos afeta.

Aceitarmos a complexidade dos nossos delitos, nossas doçuras e caminhos são as opções saudáveis para, em reflexão com as alternâncias, frisarmos nossa exatidão e a engenharia do que nos inteira lá dentro.

É bem como você disse, aumentando ou diminuindo a influência da luz e das sombras, conforme nossas humanas capacidades. Para efeito de trazer mais equilíbrio, dentro e fora. Viver é um aprendizado solitário. Mas nem sempre.


Texto que me identificou muito Guilherme. Diria até que poderia eu a tê-la escrita. Não de forma tão bonita, mas sim. Porque é uma reflexão que já me recorreu muitas vezes.

Abração!

Poeta da Colina disse...

Não há nada que não podemos ser. Talvez nos diferenciamos nas medidas.