quinta-feira, 24 de abril de 2014

Clichê...

Era uma vez menino nascido em berço de ouro e bunda virada pra lua que dispensa apresentações. Na escola (des)agradava a gregos e troianos, dando sempre o que falar pois vivia a conquistar o coração das menininhas que morriam de amores, ganhando telefones de mão beijada. Ao longo dos anos, fez carreira meteórica nas conquistas. Cantava vitória dia sim e outro também, sentindo-se a última bolacha do pacote. Mas um belo dia, viu-se homem feito a entrar na faculdade. Caiu de quatro por guria de parar o trânsito e deixar todo mundo de queixo caído com seu corpo escultural. Dizia o amigo que não era pro seu bico. Não acreditava. Pensou mesmo ter começado com o pé direito. Ledo engano. Tentou se aproximar a duras penas, puxando conversa sempre fiada e ela por incrível que pareça, não deu bola. A história se repetiu, passando a graduação inteira dando murro em ponta de faca. Baixou guarda e fez das tripas coração para que menina prestasse atenção e o correspondesse. Serenata, coraçõezinhos, flores e chocolate. Sendo seu encaixe perfeito, sofria em vão pelo amor não correspondido. Perto da noite de formatura, foi convidado para uma festa de arromba. Era a hora da verdade, mas ao chegar se acovardou. Ao vê-la, tremeu mais que vara de bambu. Encheu a cara até se sentir corajoso para desabafar, respirou fundo e a abordou; jogou xaveco furado em alto e bom som, mas foi de mal a pior. Pôs todas as cartas na mesa e insistiu batendo na mesma tecla que eram feitos um para o outro. Queria casar e ter dois filhos, preenchendo a lacuna do seu coração. Nada mais clichê! Dando com os burros n´água, na melhor das hipóteses pensou ganhar sorriso amarelo, mas ganhou ordem de tirar cavalinho da chuva e por as barbas de molho. Amargou num silêncio sepulcral. Guria bateu em retirada dando-lhe às costas, sobrando ao pobre guri afogar suas mágoas num copo de cerveja. Resumo da ópera: todos os seus sonhos foram por água abaixo, pois era público e notório que nada mais fazia sentido. Com o passar do tempo, não conseguiu dar a volta por cima e fazer da desilusão, página virada. Desinteressou-se pelos amanhãs e, sem fazer por merecer, ficou em petição de miséria. Achando não haver mais luz no fim do túnel nessa vida de cão, e a essa altura do campeonato, foi às vias de fato. Com um tiro de misericórdia, bateu as botas. Por culpa do seu coração partido, partiu dessa para melhor, mas sem qualquer final feliz.

4 comentários:

Milene Cristina disse...

Muito divertido, no momento da leitura me reconheci em várias expressões, pude ver momentos em família cada um com sua fala. E o menino? Conheci um bem parecido em meu tempo de escola. Adorei.

Alexandre Lucio Fernandes disse...

O título já nos remete o que vamos encontrar. Momentos clichês, expressões gastas e comumente utilizadas nas mais variadas situações em que vivemos. Um amor não correspondido. Um fim esperado - e clichê.

Uma leitura divertida.

Muito bom Gui!=D

Poeta da Colina disse...

Mais um motivo para ser fresta e não multidão.

Lê Fernand's disse...

a vida cobra um preço muito alto às vezes...