segunda-feira, 24 de março de 2014

Revisitada...

Um dia desses, vou-me embora pra Pasárgada. Lá penso em renovar o homem usando borboletas. Durante as manhãs, carregarei água na peneira e desinventarei objetos, às tardes fotografarei o silêncio desenhando o cheiro das árvores. Voarei fora da asa apenas para me encontrar com mulher vestida de sol, e na cama que escolherei nos amaremos por todos os nossos despropósitos. Lá terei os meus problemas resolvidos por decreto, acalmarei reis em conflito, farei as horas afastarem-se estrangeiras, como se o tempo fosse feito de demoras. E te amarei com a memória, imperecível. Lá sentirei a dor do vento por não ser colorido, e mesmo movendo céus e terras, saberei que a maior dor do mundo é aquela que eu mesmo sinto. Lá poderei viver recluso numa casca de noz e considerar-me rei do espaço infinito, servindo-me da solidão e da coragem como companhias para me enfrentar, pois terei chegado no tempo de fazer a travessia, e caso não ouse fazê-la - tenho certeza - terei ficado para sempre à margem de mim mesmo. Lá escreverei o que sinto para diminuir a febre de sentir, mas não inventarei nada, serei simplesmente o mensageiro das minhas sensações. Lá andarei com flores sobre o teu silêncio, pois coisa rara e bonita é a gente poder se comunicar por meio da alma, sem que palavra alguma necessariamente aconteça. Lá serei o único homem a bordo do meu próprio barco, farei do céu o meu telhado e meu desejo será o rastro que ficou das aves. Em cada esquina encontrarei altar para um deus diferente, porque lá nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho. Mas não se preocupe em entender porque tudo que não invento é falso. E quando eu estiver mais triste, mais triste de não ter jeito, tiver morrido dentro do peito e dispensado a própria sorte, quem sabe de Pasárgada eu volte e aqui possa a vida mesma imitar a própria arte.


(Referências diretas a Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Ariano Suassuna, Paulo Leminski, William Shakespeare, Sophia de Mello Breyner Andresen, Adélia Prado, Mário Quintana, Victor Hugo, Fernando Pessoa, Emil Cioran, Ana Jácomo e Hilda Hilst)

3 comentários:

Poeta da Colina disse...

Todo poeta pensa em partir.

Martim Ermelinda disse...

Partir é a sina de todos, partimos até mesmo quando não saímos do lugar.

Abç

Wendel Valadares disse...

Genial, Guilherme!!!!