domingo, 26 de janeiro de 2014

Na alegria e na tristeza...

Se escrever é ato de rendição e entrega a desnudar-se no espelho das palavras, confessando correntes que sentimos no mar da vida; ou convocar as responsabilidades de se reconhecer, derramando à luz das linhas os reflexos que nos compõem, qual a diferença entre escrevermos na alegria e na tristeza? A tristeza nos dá profundidades e centramentos, pois nela permaneço em mim enclausurado, imerso no denso caminhar lento das horas. Ali, habitante desalojado das levezas, mergulhado nas intensas camadas do meu eu, encontro mundos, sobrevoo monstros e distâncias, reencontro saudades, sinto espinhos em viva carne e crua alma. A tristeza melhor se versa pela consistência que empresta à dor que excede, transborda e nasce palavra. A tristeza é uma das forças que concedem coesão à linguagem; força centrífuga que aproxima o mundo dos fatos das dimensões líricas que transita o poeta. Na solidão das nossas aflições, melhor nos ouvimos e mais honestamente confessamos. A tristeza como centramento, apura-nos a visão para descrevermos em detalhes o mundo imenso que através de nós, devagar gira e incomodamente nos acontece. Ganhamos habilidades para enxergarmos o inteiro quadro das nossas desrazões à beira dos precipícios que atravessamos. A poesia melhor se evidencia nos escuros pelo contraste de sua natureza iluminada. A poesia na tristeza sofre do coração, curando-se pela catarse e epifanias da própria escrita. Quanto a felicidade, esta não se confessa facilmente na claridade do papel. A felicidade nos dá velocidades entre os acontecimentos que percorremos e os verbos que conjugamos. A felicidade é o encanto do vento, o rápido movimento dos olhos deslumbrados, a fluidez dos rios, não carecendo de estruturas verbais para se notar e desaguar mar, pois que se contenta nos silêncios e fala apenas por caprichos e transbordamentos. Ela não se permite as cristalizações e devagarosas rotações que tendem as tristezas, pois é de natureza volátil. E pela sua sutileza, poucos são os que cumprem destreza de engarrafá-la nas palavras, visto que difícil é captar sua inteireza, e senti-la nem sempre é explicá-la. A poesia melhor se camufla entre a claridade, confundindo-se entre as leves paisagens que sentimos. A felicidade é o que nos acontece à beira da janela e passa como uma tarde de final de férias, sendo fácil despercebermos a contínua linha dos acontecimentos. Assim sendo, felicidade conhece o que pousa no vento, e tristeza é a demora da cinza nuvem que se arrasta no céu.

Um comentário:

B. disse...

O ser humano consegue perceber e expressar a sua dor e os seus momentos de tristeza muito melhor do que os instantes de felicidade. Querendo ou não, o sofrimento é capaz de nos mobilizar, enquanto a felicidade/alegria segue a passar invisível perante os nossos olhos.
Lindo texto, intenso, emotivo.