quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Correntinha...

[...] até então falava sobre meu cotidiano sem sal, meus hábitos sem graça e triviais detalhes da minha vida que para ela fazia toda a diferença. Queria saber de mim, ouvindo-me com toda a atenção de seus olhos. Olhava-me de perto, e eu sem saber ao certo como me portar sem confessar a falta de jeito. Ela era definitivamente atraente. Vestia-se de branco, numa impecável camisa de seda a contar-me pelos dois botões abertos, sua correntinha. Quiçá fosse um escapulário, um presente singelo de sua mãe católica, ou talvez lembrança de algum namorado ou paixonite passada, ou quem sabe uma correntinha vagabunda dessas compradas numa lojinha do litoral durante as férias. Quem sabe. Seja lá o que fosse, enquanto eu falava de mim, imaginava possíveis cenas e cenários da vida dela. Aos poucos comecei a me sentir mais confortável com a presença, com o meu quase monólogo e com a sua inteira atenção. Mas quando ela tocou com as suas mãos meu rosto, calei minhas palavras. Deixei-a se aproximar e saber melhor meu recém-nascido silêncio, meus contornos, a minha pele. Denunciei pela minha curta e ruidosa respiração, minha tensão e talvez todos os meus pensamentos. Ela sorriu, e na nossa primeira vez, disse já querer me ver novamente. Era a minha dermatologista. Sério problema de acne. Consulta cara.

2 comentários:

B. disse...

Hahahahaha muito bom, me enganou bonito viu ;D E eu aqui pensando em um contexto super apaixonado e romântico. Gostei do desfecho inesperado.

Aluisio Martins Rodrigues disse...

Gosto desse tipo de construção... Leitura lírica e bem humorada do tédio nosso de cada dia...