domingo, 28 de dezembro de 2014

Às vésperas...

Às vésperas de um novo ano, escutamos com maior atenção as interiores vozes que nos permeiam, ao amansarmos acumulados cansaços de um ciclo que se encerra. As verdades que nos sempre falam mas que abafamos por inúmeras razões, contam-nos agora com estratégica intensidade, das esperanças que retornam com fôlego e força para cumprirmos os compromissos e promessas que nos justificam sobre este chão. Assim, cabe à poesia trazer à claridade, as marés que nos compõem. E diz ela, primeiramente, que nos tornemos mais nós mesmos, ainda que para isso precisemos despedir uma boa parte do que somos. Que o espelho não seja causa de grandes importâncias ou preocupações mas, seja nosso reflexo, o fiel confessionário dos nossos contornos. Agigantemos os sonhos, patrocinemos nossas coragens, não respeitando as demandas da tristeza, mas acolhendo toda e qualquer lágrima que justa resolver nos visitar. Recusemos ao máximo com ensaiada disciplina, os círculos viciosos das paixões que nos custam saúde e equilíbrio emocional. Desapeguemo-nos do que tem verniz de amor mas é carência, medo, controle ou egoísmo. Aprendamos que a inveja é sintoma de imaturidade, devendo ser tratado quem sente com doses de generosidade e paciência. Aceitemos sempre - e desarmados - os elogios que nos dedicam, separando com prudência as sementes do bem querer das más ervas da bajulação interesseira. Quando necessário falar, cuidemos para não declararmos uma verdade que não tenhamos certeza que será verdade amanhã também. Saibamos que sem quaisquer objetivos e pelo acaso poderemos ser carregados. Não atribuamos ao azar o que é de nossa responsabilidade. Curemo-nos nas despedidas, curemos o próximo pelas chegadas. Que possamos ser como a gota d´água que, mesmo diante do imenso mar, ainda tenha o que lhe acrescentar. Que daqui pra frente possamos juntar coragem suficiente para aquelas decisões e riscos que a vida nos pede para nos fazer mais felizes. E se inevitavelmente e por acaso a dor em nós tardar, que por ela amanheçamos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A crença...

A crença é uma casa do nosso próprio tamanho em que nela por certo tempo habitamos. Tão logo crescemos, e se faz necessário mudar para uma em que melhor possa nos acolher. Maturidade é essa caminhada, entre uma e outra casa, em que é possível se perder ou voltar para casas já conhecidas, muitas vezes por acomodada comodidade. Talvez sábio seja aquele que passou a saber que nenhuma casa realmente lhe pertence, e por isso anda fazendo morada nas verdades de si mesmo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Chaves...

Pudera existir uma categoria de homens que, segundo o meu egoísmo, pela contribuição feita à humanidade, deveria viver para os sempres.

Roberto Gomes Bolaños estaria aí, inequivocadamente.

Sua genialidade acompanhou-me por inúmeras tardes da infância e nas infinitas repetições ao longo dos anos. O que aprendi naquela vila, não aprendi mais em lugar nenhum.

Lá, contaram-me que a televisão não precisa ser apelativa. Que pancada nada que tem a ver com violência. Que não há trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar. Que a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.

Lá, descobri que o Guarujá pode se passar naturalmente por Acapulco.
E que ninguém tem paciência comigo.

Como personagens, são mestres.
Como homens, são ídolos.

Depois deles, o humor tornou-se exigente.
Depois deste ano, o humor tornou-se definitivamente órfão.

E embora sejam inevitáveis as despedidas, para quem a gente ama e gosta, jamais estaremos preparados.

Um homem.
Uma vila.
Um mito.

Encante em paz.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O ininterrupto não-saber...

(...) faz parte da gente sentir-se perdido dentro da gente mesmo. Sem nunca saber ao certo pra onde ir e, quando vai, não saber ao certo se está onde deve estar. E quando se está, não saber bem se fica ou se vai. Ou quando se vai, se deve mesmo ir ou voltar. Se o que nos falta está dentro ou fora ou se nos falta algo realmente. Se seremos para sempre esta incompletude, ou se a inteireza é um mero conceito para continuar caminhando. A vida é um constante não-saber. Que nos empurra e nos arrasta, que maltrata e abençoa. Que nos fere e que nos cura. Que acarinha e nos convida: para a próxima página; para o dobrar da esquina; para o sábado à noite; para o amanhã de manhã. A vida é ininterrupta descoberta, ainda que continuemos sem saber o que precisamos exatamente descobrir. Qual a chave correta que nos alivie, que nos declare se a ansiedade e as culpas que sentimos são de nascença ou fabricadas pelas coisas que nos repetiram ao longo da vida. Se a vida tem que ser isso mesmo. Pois é, a vida é um constante não-saber. Engrenagem sem prévio manual. Jogo de desconhecidas regras. Palco sem estabelecidas falas. Metades que buscamos preencher. O incômodo mais bonito que nossa alma poderia conceber. Que quando não nos leva e nos amansa, nos amorna, nos fazendo repetir os dias em 'stand-by', à espera de que o amanhã dê à nossa vida algum verdadeiro sentido. Ou nos arranhe e nos grite que não há nenhum sentido em esperar o amanhã para, então, sabermos...

domingo, 23 de novembro de 2014

Sagrado...

Quais são os sagrados? Equivoca-se o homem ao pensar que o sagrado habita apenas o altar de uma igreja, o terreiro de candomblé, o templo budista, o Corão, a Bíblia, os Vedas. Encontra-se o sagrado, preguiçoso, na rede que domingo balança à tarde na varanda. Encontra-se o sagrado, ansioso, no tempo de ver o amor atravessar a sala do desembarque no aeroporto. O intervalo entre os ruídos que o existir nos causa e cansa é um dos modos de sagrado. Encontra-se este sagrado, no chá de hortelã final da noite, no tempo macio vivido no edredom sábado de inverno. Sabe-se o sagrado no cheiro bom do almoço e da terra molhada de chuva, no orgasmo que silencia nossos pensamentos. É janela que sabe do pôr-do-sol degradê. O beijo, o olhar de cúmplices e a entrega dos amantes, o quartinho cheio de boas velharias que gostamos de guardar. O sagrado é o espaço que a gente gentilmente impõe contra o cotidiano do mundo. Pode-se nele viver tristeza, luto, dor, mas com a educação de um anfitrião que sabe que o convidado não se permanece. E para além das liturgias e religiosas solenidades, este viés de sagrado tem ritual? Tal qual o cigarro e o cafezinho após a refeição. Entrega e descanso? A poltrona velha e confortável do canto da sala que espera seu dono depois do trabalho. O livro que nos aguarda para ser lido. O abraço que deseja acontecer. O sagrado é o espaço de amizade - e postura de silenciosa veneração - para com a vida. E para consigo mesmo.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

As 3 Marias...

"As estrelas são os olhos de quem morreu de amor" (Mia Couto)

Era uma vez menino a habitar o chão do mundo num passado em que os horizontes ainda não haviam nascido, época onde nem as palavras nem os medos haviam também sido criados. Por lá, menino via-se refletido nas águas do rio do tempo como desambiciosa semente. Sabia a vida que menino-semente era preguiçoso demais para seus amanhãs, e receava ela ficar ele paralisado por entre velhos ontens e esquecer de florescer. 

Assim, convocou três anjinhos guardiões das noites e dos sonhos, que cintilavam em céus distantes a cruzar seu caminho e causar despertamentos. Vestindo-as de amor, deu cor e destino a cada uma delas. Dizem antigas vozes que os primeiros nomes nasceram naquela ocasião. 

A primeira, tornou-se vermelha menina de negros cabelos a acender insuspeitas paixões dentro do seu corpo. Fez menino transbordar-se a descaber no próprio peito. Todo fruto tornou-se abundante; todo desejo era uma ordem; todo o céu lhe pertenceu. Descobriu ser raiz o anúncio das asas, todo espinho trazer consigo uma flor. Namorou bençãos e infernos, descobrindo adormecidas e contrastantes forças que dentro de si habitavam. Aprendeu os primeiros contornos e ardências do amor. Deixou de ser menino-semente para ganhar a dimensão dos homens. Tornou-se demasiado humano. 

A segunda, negra mulher de distantes reinos, aproximou-se de menino-homem a mostrar-lhe o árduo ofício de navegar o próprio caminho. Ensinou-o a levantar velas, assumir compromissos e direções, despedir-se para além das dores para aportar em outros amanhãs, remando sempre contra as contrárias marés a caminho da sorte. Aprendendo a velejar nas próprias sombras, despertou-se para ser farol de si e dos outros por entre as tempestades. Amadureceu seu espírito e ganhou humanidades. Tornou-se responsável homem. 

A terceira, tornou-se mulher da pele clara a pisar-lhe o pé e arranhar seu rosto. Roubou tesouros, dissolveu sentidos. Menino aprendeu os amargos ofícios da raiva, a lhe trabalhar verdades e atribuir-lhe ilusões, costurar cicatrizes e amansar demônios. E na travessia dos espinhosos invernos, ao seu lado aprendeu o mais importante: a esquecida prática da alma, predicado reservado até então aos deuses: o perdoar. Quando se ergueu, percebeu do alto que mulher quando feria, feria-se a si mesma sem saber, e deixando escorrer a seiva da sua serenidade sufocava-se na própria sombra. Acolheu-a e cuidou. Aprendeu a dedicar-se e por amor fez-se luz a derramar nas tristezas do seu não-florescer. Devolveu-lhe a beleza, os sonhos e promessas de jardim que sabem os ventos que arrastam para longe as mágoas. Tornou-se homem de alma límpida a despedir as mentiras próprias e alheias. Tornou-se homem a curar e permitir ser curado. 

Aprendeu assim também e para sempre a gratidão que ensinam as dores.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Não mais...

os da esquerda falam dos da direita
os da direita falam dos da esquerda
os do centro falam de ambos os lados
os da frente criticam os de trás
os de trás reclamam dos da frente
os inteiros falam das metades
as metades reclamam seus inteiros
os do começo anseiam o final
os do final anseiam os recomeços
os de longe falam dos de perto
os de perto falam dos vizinhos
os desta terra falam dos do céu
e os do céu
estes, não falam mais.

Encante em paz, poeta.

Palavrório tropeçoso metido (a besta) a dedicatória e homenagem ao menino Manoel de Barros:

Um dia eu brinquei de ser Manoelito,
e do barro se fez o homem
e do homem a poesia.
Aprendi a ver no azul o canto dos pássaros
e na quina das mesas o encanto das coisas
Destreinei meu verbo letrado
que se encantou e amanheceu semente
passei namorar palavras
dormi de olhos atentos para nos sonhos
não me distrair das cores
Aprendi que infância não entende ponto final.
e desaprendi a amar, só para aprender a amar de novo
descobri que verso, valsa e vento são filhos dos olhos e da lua
Meu lápis é vocabulário de livro da própria vida.
Se o poeta tira da palavra o seu sustento,
faço hora-extra para a poesia.
Um dia pretendo me casar com ela.


"A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”. (Manoel de Barros)

domingo, 9 de novembro de 2014

Passagem...

Uma vez mais chegava ao guichê. Do outro lado do vidro Marcela, e Bete e Jonas. Colegas de André, Flávia e Kamila. Estes, do guichê da companhia no destino impresso na passagem. Conheceu todos, um por um, pela manhã cedo. Ainda era hora do almoço e provavelmente era a oitava viagem do protagonista. Para o mesmo lugar. O trecho da estrada curta permitia o alto número: quatro idas e quatro voltas. Viajava para chegar, e depois retornar. Os funcionários notaram sua reincidência no balcão. Já haviam presenciado situação semelhante com um louco. A família precisou buscá-lo, aliviada pelo reencontro. Era um homem desorientado. Ele não, estava lúcido e decidido a fazer isso, mais uma vez. A viver isso, uma vez mais. Assim queria, assim desejava. Assim precisava. Semanas atrás a rota significava uma espera: alcançar os braços da sua amada. Hoje, era uma espera para ninguém. Viajava para tentar despedir-se das dores assim que embarcasse. Era um pouco de si que desejava deixar pra trás, fugindo de si para encontrar-se do outro lado, quem sabe. Repetia o trajeto numa tentativa de deslembrar, de apagar os anos com quilômetros, sendo ali apenas um intervalo entre o tudo e o nada. Uma dor em intervalo. Uma viagem para desconectar-se do mundo, dos compromissos. O que poderia lhe acontecer no trajeto? Qual notícia poderia alcançá-lo ali? Talvez e somente a morte, num acidente, numa fatalidade. Mas com ela não se importava, ele já havia morrido. Viajava para tentar mesmo era viver novamente. Qualquer outra indelicadeza da vida haveria de esperar sua chegada. Repetia placas e cenários para nunca mais ser o mesmo. Abandonava no acostamento suas mágoas. A cada curva livrava-se das duras verdades que disse quando pela última vez partiu. Por isso refazia-se no caminho, como que para tirar aquela mancha difícil que escurece a alma depois do adeus.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Escuta-me...

Ela nunca me escutara. Ela nunca realmente me escutara. Quantas não foram as vezes a dizer-lhe para que não fosse intensa demais, doída demais, derramando-se demais por cada copo cheio, cisco no olho, topada, espinho no pé? Que não fizesse de riacho inundações, pois inundava a ela e a mim. Eu então me afogava e morria. Pedia-lhe que da interminável guerra contra o mundo a lhe oprimir o peito, escolhesse melhor suas batalhas. Ela nunca me escutara. Lutava todas, sofria todas, doía todas. Eu me cortava todo, e inteiro morria. Ignorava-me solenemente como se só falasse coisas erradas, enquanto ela calada vivia cruzada interminável contra a tristeza e as misérias. Não percebia ela que a tristeza nela morava, mas que na mesma morada eu também residia. Dizia-lhe que não se deixasse levar, pois era eu que cada vez mais partia. Dizia-lhe que atravessasse esperançosa os capítulos densos, mas era eu quem me arrastava e nas páginas todas me perdia. Dizia-lhe que só a morte não passa, apenas a morte. Pedia a ela que me ouvisse. Deu 'não' aos meus avisos de não pisar no jardim do amor que cultivávamos, estragando todo o amor que ali crescia. Ela nunca realmente me escutara. Dizia-lhe que se se alegrasse, seriam os dias mais longos e as dores mais curtas, e o amor alcançaria-a descansado, fazendo-me descansar também sem medos ou melindres. Ela nunca me escutara. O excesso de vida doeu-lhe a vida mesma, faltando-me a mim nela continuar vivendo também. Hoje, peço a ela que me escute. Apenas para que o tempo nela pouse. Apenas para que o atravesse. Apenas para que sobreviva. E quem sabe ame, ainda que mais uma vez.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Prontidão...

Cumpre ao amante depositar seus inteiros nos braços da amada, confiando possibilidades aos hábeis tecelões em que nomeamos destino. Cabem aos que amam despedir medos de semente em não se saber um dia raiz. Solicita o amor as interiores habilidades de despertencimento e desapegos. Pede o bem-querer a prontidão de luz que em nós se distraiu; porque somos os inevitáveis servos dos encantamentos que traz a vida, quando nos atravessa com nomes e os cheiros do outro. Curvando espírito em gratidão, bebemos todos das bençãos no rio do tempo. Devedores dos frutos que colhemos, o amor é o real credor dos nossos perfumes.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Teatros...

Sem saber qual o caminho, como acertar os passos? Sem saber qual o enredo, como ensaiar as alegrias? Depois de você, vivo cansado e de improviso, num lugar onde qualquer cômodo é porão, no tempo em que qualquer noite é inverno. Lembrança é tortura, perfume é espinho e sorriso é pecado. O vento tudo leva mas nada traz, e basta pensar-te e vem-me as tempestades todas, o desespero, o afogamento a me consumir nas marés que arrastam-me para longe da terra firme, dos nossos planos, de algum descanso, de mim mesmo. Não trabalho mais com as esperanças. Abundam mais desilusões em minha vida do que nos teatros. Há mais tristeza no peito do que nos cemitérios. O mundo agora anda sereno, pois resulta que todas as coisas em mim estão mortas. Se ao menos eu pudesse dormir sem sonhar, viver sem sonhar, respirar sem medo. Atravesso minha existência sem sua comoção, despedindo-me do sentido que dei aos meus passados e inícios. Queria era apenas buscar um final feliz, ainda que eu tente acreditar que não possa haver nenhum final. Exatamente para que não seja tarde demais.

domingo, 14 de setembro de 2014

À mulher que ainda não amei...

Hoje decidi escrever à mulher que amo, mas ainda não a conheço. À mulher que ainda não sei que amo, mas que hoje virei a amar. Escrevo-lhe a confessar antes de que eu a encontre, antes que nos encontremos, que eu nunca te aguardei. Isto porque nunca acreditei no teu existir. Fui feito e moldado a partir das tuas ausências, atravessei o tempo e me virei na vida desacreditado do teu nome. A única procura permanente de ti era achar-te em qualquer coisa que fui, pois para mim era lógico: como encontrar-te se não sei quem tu és? Como reconhecer quem nunca me foi apresentado? Por isso, sobrou-me todo o tempo para perder-me. Às vésperas das juras vazias de amor que espalhei, senti paixões e estas com o amor confundi. Quando não os expedientes do desejo, eram os requintes da carência. O tempo envenenou-me apenas de descrédito e lascívia. Enganado, muito enganei; vazio, muito roubei. Falava de liberdade para capturar corações. Fingia incentivar primaveras quando queria provar dos frutos. Colecionei troféus, mágoas e desfechos truncados. Assim, como poderia acreditar em ti pois, não serias tu a acreditar em mim e nas minhas ladainhas. Não se profana o sagrado e, por sentir-me amante dos pecados, jamais poderia eu te aguardar. De toda aridez a desdizer qualquer sentido, sobrou-me o oásis da poesia, lugar em que descanso velhas e ranzinzas certezas, entre elas de que nunca saberia do amor. E num desaviso da razão aprendi a ver o óbvio: tanto disse que nunca te saberia, descobri que nunca não é hoje. Nunca é mesmo nunca e, por isso, na brecha do contrato firmado entre a coerência e o tempo, sinto hoje que virás. Deito palavra no papel a pedir ao céu para regar teus pés a te confundir com as flores. Quero vir colher-te no poente deste dia enquanto atravesso o caminho torto dos agoras para o teu amor amanhã me endireitar. Despertarei mais cedo apenas para o meu amor beijar-te antes do vento. Dormirei mais tarde para namorar teus sonhos. Venha, venha logo. E quando chegares, entra, para que tua alma se ponha no meu corpo e possa eu realmente viver. Quando chegares, entra. Sinta-se em casa dentro de mim.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Cama...

descansa teu mundo entre os lençóis.
minha mão nos teus cabelos dão-te início ao sono que te vigio 
e aos sonhos em que te aguardo.
nos teus silêncios de alma desnuda costuro intenções.
conto os desejos de atravessar calendários contigo,
sendo teu nome a prece a me guardar nas noites 
e dar-me sempre os dias.
para o lado de cá das cortinas, 
a vida me acontece no teu poema de olhos fechados, 
no intervalo deste nosso descanso, 
antes de recomeçarmos...

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Carta...

[...] Sim, é um outro momento, uma descontinuidade de mim, um premeditado mas gentil abandono de mim, que faço por não me servir mais aos propósitos e sonhos que guardo. Descobri que é urgente praticar verdades que sabemos bem decoradas; explicamo-las, ensinamo-las, mas não sabemos a textura, o cheiro, o gosto de cada uma delas. Somos versados nas teorias, jamais no viver.

Praticar verdades descartando verdades - as provisórias - que levaram-me à lugar nenhum. Colecionei-as até a asfixia. É tempo de nascer de novo e respirar macio.

Por isso venho comunicar das minhas ambições de meus inteiros. Serão ousados invisíveis que busco conquistar. Declarando-os e ganham o peso da realidade registrada no ar, passando a viver entre nós como coisas ditas. E no momento declarado, passamos a ser responsáveis por eles, como um novo filho que nos pede atenção e destino.

Parto de dentro de mim para alcançar-me. Do outro lado da margem neste rio do tempo há minhas riquezas, e para tê-las é preciso abrir mão de certos cenários que não cabem mais nos meus passos.

Ando a namorar comigo, ando a namorar aquilo que havia esquecido e por sorte e descuido do azar, lembrei. Não tenho mais tempo de relacionar-me com as tristezas que por tantas noites convidei a dormirem comigo entre os lençóis.

Ao deixar o passado, eu mesmo me dei o presente.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Suculento...

É num caminho torto e desconhecido que por vezes nos deparamos com árvores intrigantes de frutos novos e cores outras, que se curvam a oferecer-nos o gosto do saber e do sentir. É o mistério e o vir-a-ser que se enraízam em terra onde os pés ainda duvidam e resistem em prosseguir, forçando-nos a florescer. O caminho certo nem sempre é suculento.

domingo, 24 de agosto de 2014

Luto...

Morrem apenas aqueles que matamos dentro. Nem a morte com sua imponência pode matar aquele que vive em nós. Ela, na pior e única das hipóteses, leva-nos para longe de quem amamos, mas não mata nenhum dos envolvidos. Dói-nos exatamente por isso, porque não há realmente morte na morte, há apenas uma separação, uma permanente ausência. Não morremos, nenhum morre, apenas o luto em nós define a morte. Só podemos matar e morrer em caso de amor, isso quando o amor já moribundo, pede-nos clemência para o matarmos e a decência para morrer, para morrermos em paz, caso contrário igualmente em paz não viveremos, com aquilo que não respeita a hora de sua morte e mantém-se vivo com ajuda - artificialmente - de atalhos e remendos e mentiras e metades nossas. Por isso quem morre, continua a viver. Só quem matamos, morre. E quem amamos, vive também. O amor sempre trará a vida. Ainda que ela não nos sirva mais.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sabermos nós...

O poeta rouba dores do mundo a confessar as suas próprias; empresta-se de veladas tristezas para devolvê-las nítidas e intensas às palavras. Vende socorro sem salvação; mas se dói e se doa para levar aos olhos outros, desmedido alívio. Antevê amores e suspiros que precedem encontros; descreve tragédias e dúvidas que antecedem o existir. O poeta adoça o real ainda que testemunhe amargos. Coleciona horizontes a enfeitar rua-sem-saída onde mora. Veste-se com seu tamanho a dimensão das grandezas. Sincero às mentiras que conta e encanta, versa sobre os sonhos da semente, pecados angelicais, flores, naufrágios e céu azul. Ainda, porta-voz das sublimes verdades que nunca alcançou, faz dos seus silêncios a autêntica afirmação da vida. Escreve no concreto, o abstrato. Gradua-se no coração alheio e no seu próprio peito. Assim, usa-se o poeta das letras como desculpa para saber de si. Sabermos nós.

domingo, 3 de agosto de 2014

Desamar-me...

silencioso e frágil, ando
a perder-me por entre as folhas do outono
a sentir-me nas gotas inteiras de chuva
a cortar-me engasgado com as palavras
a cegar-me os olhos nas janelas
que me cansam o mundo,
desarmar-me pelos teus sorrisos
desamar-me por envergonhados erros
a sangrar-me nos poentes e despedidas
a sair de casa
e esquecer da primavera;
por morrer de amor.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ariano Suassuna...

Dois imortais - vejam só - morrem em menos de uma semana. Dizia Ariano que todo escritor é um mentiroso. Concordo e creio, pois não é a literatura muitas vezes mais generosa que a própria vida? Na vida, morre-se. Nas palavras, eterniza-se. Assim fez Ariano.

Da pedra do reino ao Circo da Onça Malhada, de sua voz rouca e engraçada para os seus silêncios. Na poesia, põe-se sempre a morte de luto.

Talvez peçam os céus a presença de três grandes homens a renovar as escrituras. Talvez sentissem os céus órfãos de histórias. Talvez. Como saber? Não sabemos.

Como diria Chicó: Não sei, só sei que foi assim.

Morrem-se mais uma vez, os viventes.

Descanse em paz, mestre.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Depois do fim...

Esta é a história da mulher que restou depois do fim. Uma mulher que morreu sem morrer depois que o amor se foi e junto levou a vida, deixando-a na miséria do existir. Quando ninguém mais permaneceu, sobrou sua convivência entre os abandonos. Depois do amor, deixou-se de pertencer a lado nenhum, não houve terra nem mar, servindo-lhe céu apenas para doer as noites, quando melhor se escuta tristeza. Depois do fim, calam-se os ventos. Depois do fim, não há caminhos de volta, apenas um único momento sem princípio nem final; não havendo alívio nem para os horizontes. Depois do amor, nada mais nasce ou cresce. Depois do fim, tudo é e continua sendo, ainda que nada mais seja. Depois do amor, qualquer coisa lhe era equívoco ou cansaço, numa vertiginosa queda em si mesma. Depois do fim, o tempo desapareceu, e sua tristeza tornou-se um para sempre; a sua saudade, imensidão. O tempo poderia engolir a luz e fé, pois cedo ou tarde regurgitaria uma e outra ainda vivas, mas não. A dor era tanta que o tempo se dissolveu e a partir do que se acabou, nada mais aconteceu, nem a lucidez, nem o sonhar. O que se movia, girava lento e atordoado, como o mundo e seus pés. Sobraram-lhe apenas tortos e secretos caminhos levando a qualquer desilusão. Depois do fim, engasgou-se facilmente com qualquer recente esperança, como densa fumaça irritante. Depois do amor, aprendeu a solidão apenas a medir distâncias e desistências, enquanto aprendemos nós a reunir ásperos silêncios a acompanhar nossas palavras. Depois de tudo, restou-lhe um nada a ecoar dentro do peito, se é que havia peito depois de tanto. Tornou-se enamorada dos olhares distantes e perdidos e inclinações para o pessimismo. Depois do fim, do tempo e do amor, só lhe restou a poesia.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Sobretudo...

Aproveita-se da tristeza a poesia, mas não eu. Peço a Deus que delas me dispense. Se puder, não sinto. Se precisar, não escrevo. Se necessário for, calo-me para que a palavra dita não me arranque a dignidade que me permitem os silêncios. Calo-me para que nenhum sentimento corte por tornar-se pontiagudo verbo. Calo-me para que nenhum olhar de compaixão me atravesse ou em mim ecoe. Calo-me como devem calar-se os que morrem. Sobretudo de amor.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Nada...

Em mim jaz um nada, impertinente, instalado abaixo da minha cotidiana superfície de pormenores. Um vazio imponente a oprimir o peito, que se amontoa e me sufoca de ausências. Um nada resultado da série de desesperos e desencontros comigo mesmo. Um nada que presente me apaga, me atenua, me digere. O caos, o precipício a me encarnar e assombrar de angustiosa amplidão, escancarando minha frágil e única condição de existente, deixando-me miserável neste império das coisas postas. Um nada que não repouso nem silêncio; a constante tensão entre o sentir e minhas dúvidas; um ruído e o rondar da loucura à espreita; uma inquietude a me devorar regurgitando impaciências e fraquezas. O medo como único habitante em mim. O erro como um dos meus modos de ser. A verdade que sempre vive exatamente naquilo que não alcanço. O nada como minha única certeza e fardo. A sombra como meu mais seguro reflexo, pois nada tenho que não seja emprestado, nada sou que não seja breve, nada faço que não seja engano, nada peço a não ser socorro. O mundo é estranhamente recíproco ao meu nada, ecoando minhas impurezas, que apenas nele me preservo, pois não há lugar que eu permaneça e não destrua, nem há amor que eu não despeça. Aqui, protejo-me do meu desrespeito, do meu descompromisso com a vida. Este nada que me desorienta, também me equilibra.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Pressa...

Queria dedicar-me mais às minhas tristezas, saboreá-las com calma e cuidado os seus amargos; dar sentido e peso - exato ou maior - a cada uma das minhas lágrimas. Queria remoer-me muito mais pelos cantos de casa, não somente pelo que não fui, mas por quem não serei, permitindo-me ser menos do que sou. Desejaria deixar-me sucumbir e estilhaçar diante da rotina dos dias que opressora e urgente cobra-me prontidão, ignorando minhas necessidades de ausência, distância e recuperação. Queria consumar-me no insuportável silêncio que denso preenche o quarto, a prender-me inerte e sem vida entre os lençóis, restando-me energia apenas para dissolver-me ao longo das madrugadas em minuciosas análises de perdas e perturbações, sem mais fazer as pazes com o sono leve. Queria atravessar as tardes alimentando-me com repetidos pensamentos de derrota e auto-boicote. Sentindo anestesiado o espírito, gostaria apenas de dores pontiagudas no peito. Queria ver-me de vítima frente ao espelho, abandonar em algum lugar a ser esquecido, a paixão e a fé. Gostaria de poder envenenar a inocência que carrego, lentamente. Desejaria todos os céus nublados, para que acompanhassem os meus humores, que os invernos soubessem de mim e durassem anos, que as janelas não anunciassem nunca mais o amanhecer. Gostaria de passar feriados inteiros com minhas frustrações, cultivar remorsos e sentir doenças. Queria sentir-me íntimo das angústias e lembrar-me com riqueza das ansiedades todas com quem convivi. Queria curtir um sossego com as minhas desesperanças. Mas não posso. O amor me convidou para sair. Não tenho tempo para nada disso.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O amor é uma linguagem de sinais...

O teu pouso em mim fez alongar os dias e alegrar os passeios. Contento-me hoje com qualquer cor, escuto preces nas vozes do vento. Amar-te faz que tu sejas inventada para a beleza, pois apenas através da tua boca posso saber das primaveras. Ponho coração em romaria para encontrar teu nome e não mais regressar, visto que o amor é um gesto sem retornos. E os olhos que trago são para ver-te nascer entre as folhas do tempo, a pele para no teu corpo sentir o fim dos meus invernos. Na sorte de silêncio que não comparece tristeza, festejo poesia das coisas inteiras que tu me dás e nunca possuí. Calo-me por isso; para que cantes. O amor é uma linguagem de sinais.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Das esperanças...

Abusamos da esperança como se o agora nunca fosse suficiente. Esperanças que poderiam ser usadas para frustrações que nos acontecem, convocando-nos a permanecermos e detalhadamente nos reinventarmos, em excesso nos anestesiam para as imediatas iniciativas, enganando-nos com algum amanhã que nos caia muito bem. Pois o que somos e o que temos não basta, não está bom - nunca está - e não nos serve deste jeito. Jamais nos contentamos com os limites do presente. A esperança falsifica nossa realidade e nos dá créditos para o futuro. Em demasia, deixamos de ser para nos aguardarmos melhores. Em demasia, alimenta nosso egoísmo, para que o porvir se encaixe em todos os nossos exigidos confortos. A esperança pode ser traidora quando nos despeja do aqui - esta única propriedade que temos por existir - seduzindo nossos ouvidos e decorando nossos sonhos para, sem resistências, abandonarmos o único digno espaço que ocupamos, deixando lugar vazio para nos preenchermos lá na frente. Um vazio a cobrir com seu véu as sutis riquezas dos instantes, distraindo-nos da salvação por algum detalhe constante do nosso cotidiano. Tornamo-nos uma torcida, uma espera, para que tudo se encaixe e dê certo com as particulares iniciativas do destino. Destino: palavra esta que se ausente do vocabulário, impediria-nos de ser tão metade para abraçarmos por inteiro nossas responsabilidades. A esperança é uma deliciosa promessa, não uma garantia, sendo um adiamento do que muitas vezes já nos é permitido. O tempo presente é o mais sincero dos tempos, visto que não se cumpre a nos fazer promessas. A esperança serve para a abandonarmos depois de realizada sua função aniquiladora de desânimos, e jamais como muleta, amuleto, horizonte a ser carregado. A esperança serve quando pudermos com ela residir no presente de forma irrevogável. Vivemos mais comprometidos com a esperança do que com a prática das nossas atuais verdades. Espero sinceramente que isso, um dia, mude.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Duelos...

"Cada um descobre o seu anjo tendo um caso com o demônio". (Mia Couto)

Existem inevitáveis duelos dentro de nós. A disputa metafórica entre luzes e sombra se mostra para além dos nossos olhos e para dentro do nosso espírito, repetindo-se como um tema que ao longo do tempo versamos e sentimos, nas escolhas e estados interiores, em maior ou menor grau, que nos impulsionam ou paralisam. Na guerra travada entre anjos e demônios, habitamos seus personagens ao mesmo tempo que eles nos habitam, ditando-nos à ação ou omissão. Os duelos se evidenciam nas dúvidas que nos corroem, visto que as dimensões e tendências contrárias se tensionam silenciosamente. Por exemplo: dar moedas a um pedinte, emprestar ou não dinheiro a alguém que se conheça, procurar antiga e afastada paixão, poupar-se em casa ou gastar-se num evento, comer algo que não deveria, cumprimentar alguém que não se gosta, etc. são exemplos a definir aquilo que na vida nos define ininterruptamente. O homem não é absoluto, pois carrega tanto o bem quanto o mal. Suas ações e omissões demonstram e permitem tais alternâncias, conforme os escuros e claridades que atravessamos de acordo com as conveniências da virtude e os interesses do egoísmo. Não se despede do que não se escolhe, pois na próxima ocasião em que se peça um pouco de nós, daremos espaço para uma destas vozes e representações. Prudente o homem que olha o fruto e vê a semente, olha a semente e sabe do outono. Se sabedor o homem das suas inexatas forças e extensões, saberia também a medida da palavra quando veneno ou remédio, mas eis que somos forasteiros das nossas profundezas, negando o que nos incomoda e o que nos inteiro confessa. Vivemos num perpétuo duelo entre as nossas expressões, sofrendo por dedicarmos demasiada atenção ao que não queremos ser. A energia gasta na negação poderia ser usada na aceitação de si, para os remendos e consertos necessários a serem realizados em nossa personalidade, diminuindo ou aumentando a influência da luz ou das sombras, conforme as conveniências do que seja melhor para nós.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sobre o enraizamento...

O amor-próprio é um enraizamento, uma sutil segurança existencial dada a nós e por nós que melhor se evidencia quando nos falta o chão e sobram-nos as tempestades. Nas condições ideais de casa arejada e céu azul, ignoramos sua estadia em nosso interior. Mas vivemos por conta das facilidades na superfície, em que apenas outros olhos nos veem e nos definem, uma vez que somos quase todos nós cegos e desenraizados. Enraizar-se é (re)conhecer. Enraizar-se é saber-se onde. Assim, não há certezas para além das declarações críticas ou elogiosas que tecemos numa tresloucada repetição, para alcançarmos um frágil convencimento (e nenhum conhecimento) de que sabemos o que alguma coisa é ou deixa de ser dentro de cada um. Sofremos, pois nos condenamos ou nos festejamos em maior parte através da condenação ou do festejar alheio em relação a nós. O sabor do fruto deixa de ser a vitória da plenitude da árvore, tornando-se apenas um capricho do paladar de quem o reconhece, gostando-o ou não.

sábado, 17 de maio de 2014

Os teus olhos...

Foram os teus olhos. Apaixonei-me por ti através dos teus olhos. Não tuas pernas, não teus quadris, não o teu sexo. Foram os teus olhos a dissolver meus tempos tristes, vingar um passado inteiro em que não te amei. O teu olhar anunciou-me os dias bons, contou-me dos até então distantes milagres que nos permite o silêncio dos amantes. Por isso, calo-me para ver-te e amar-te. E pois quando me vês, chama-me a boca ao beijo e não mais aos verbos, chama-me o toque ao corpo e não mais aos gestos. O teu olhar me deu o amor, e existência. Cumprindo previstos encantos dos sonhos que guardei, devolvendo-me ao mundo e ao tempo para ser feliz. Não apenas tua boca, não apenas tuas mãos, não somente o teu ventre; teu olhar acendeu-me para incendiar-me nos desejos todos por saber-te minha. Foram os teus olhos a despir-me dos medos de mergulhar nas tuas profundidades que o amar nos concede. Foram os teus olhos.  Apaixonei-me por ti através dos teus olhos, porque são teus.

domingo, 11 de maio de 2014

Vocações para fantasma...

Sabe doutor, depois que o amor se vai, o que nos mata mesmo é não termos mais acertados destinos. Sou hoje angustiosa ausência de mim, um intervalo entre o amor e o nada a que me permiti. Sou mulher sem pressas nem vontades, não carrego mais pecados, não possuo mais virtudes. Para quê? O que quer que cultive não florescerá. Sou a agonia de um parto que se estende pelas madrugadas. A questão é que me tornei uma inexatidão pois, como caminhar com estes imprecisos passos para lugares de um futuro que meu coração dispensa?! Qual direção sabe minha própria alma? Sinto-me um incômodo para o porvir, uma pendência para os amanhãs. Se os homens são escravos de suas direções, disto doutor, eu estou livre. Tornei-me apenas uma aparência, presa a si mesma e que continua sendo. Um eco que frustrado não se realizou. Nada mais espero das esperanças doutor, e meus sintomas são as únicas coisas que sinto. Ausente isto e não sentiria mais nada. Talvez fosse melhor. O meu sorrir é a minha mais sincera farsa; padeço de mentirosas possibilidades. Sofrer é o único sincero oficio que aprendi quando amor se despediu. Vivo por uma ingerência do tempo, um descuido da vida que se esqueceu de me esquecer. Queria um vício qualquer para me ocupar sabe? A me dar preocupações que me prendessem em algo e evitar que eu me perca diluído em mim. Acontece doutor, que o cigarro nem pra ter a decência de acender. O álcool nem pra derrubar minha atarantada lucidez. Ando bebendo a vida a conta-gotas para ao final derramar o que restou. Nem vocações para fantasma ando tendo. Salve-me doutor, pois nem o espelho reflete mais o que me tornei...

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Inspiração...

Sem enxergar a próxima linha ou ponto final, vejo apenas uma ou duas palavras à minha frente, um ou dois passos depois de mim, somente dois ou três dias depois daqui. Como as linhas do papel e as linhas do meu destino, não sei nem prevejo o final das minhas letras, qual o outro lado das minhas vontades, o fim de noite ou o final de mim. Minhas escolhas e desamanhãs são histórias que ainda não sei, mas que haverei de contar. A inspiração é o improviso e o inesperado que me desarma, a lógica que me desama, num intenso que me imensa no inteiro de que versa alma. Sou o pretexto do imaginário para se fazer verdade. Quando escrevo, pelas palavras sou descrito. Quando discreto, pelos verbos sou confesso. Quando imerso, é a poesia quem me escreve. Eu não ensaio minhas letras, tampouco os meus caminhos.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Mais bonito...

Gentileza do artista Alexandre Camaleão, autor do Filosofão.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Clichê...

Era uma vez menino nascido em berço de ouro e bunda virada pra lua que dispensa apresentações. Na escola (des)agradava a gregos e troianos, dando sempre o que falar pois vivia a conquistar o coração das menininhas que morriam de amores, ganhando telefones de mão beijada. Ao longo dos anos, fez carreira meteórica nas conquistas. Cantava vitória dia sim e outro também, sentindo-se a última bolacha do pacote. Mas um belo dia, viu-se homem feito a entrar na faculdade. Caiu de quatro por guria de parar o trânsito e deixar todo mundo de queixo caído com seu corpo escultural. Dizia o amigo que não era pro seu bico. Não acreditava. Pensou mesmo ter começado com o pé direito. Ledo engano. Tentou se aproximar a duras penas, puxando conversa sempre fiada e ela por incrível que pareça, não deu bola. A história se repetiu, passando a graduação inteira dando murro em ponta de faca. Baixou guarda e fez das tripas coração para que menina prestasse atenção e o correspondesse. Serenata, coraçõezinhos, flores e chocolate. Sendo seu encaixe perfeito, sofria em vão pelo amor não correspondido. Perto da noite de formatura, foi convidado para uma festa de arromba. Era a hora da verdade, mas ao chegar se acovardou. Ao vê-la, tremeu mais que vara de bambu. Encheu a cara até se sentir corajoso para desabafar, respirou fundo e a abordou; jogou xaveco furado em alto e bom som, mas foi de mal a pior. Pôs todas as cartas na mesa e insistiu batendo na mesma tecla que eram feitos um para o outro. Queria casar e ter dois filhos, preenchendo a lacuna do seu coração. Nada mais clichê! Dando com os burros n´água, na melhor das hipóteses pensou ganhar sorriso amarelo, mas ganhou ordem de tirar cavalinho da chuva e por as barbas de molho. Amargou num silêncio sepulcral. Guria bateu em retirada dando-lhe às costas, sobrando ao pobre guri afogar suas mágoas num copo de cerveja. Resumo da ópera: todos os seus sonhos foram por água abaixo, pois era público e notório que nada mais fazia sentido. Com o passar do tempo, não conseguiu dar a volta por cima e fazer da desilusão, página virada. Desinteressou-se pelos amanhãs e, sem fazer por merecer, ficou em petição de miséria. Achando não haver mais luz no fim do túnel nessa vida de cão, e a essa altura do campeonato, foi às vias de fato. Com um tiro de misericórdia, bateu as botas. Por culpa do seu coração partido, partiu dessa para melhor, mas sem qualquer final feliz.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

In memorian...

Quando morre um poeta, magoam-se as palavras.
Quando morre um poeta, apagam-se os poentes.
Quando morre um poeta, fecha-se sempre uma janela.
Quando morre um poeta, calam-se as tristezas.
Quando morre um poeta, põe-se a morte em luto a lhe esperar.
Quando morre um poeta, adormecem-se os encantos.
Quando morre um poeta, órfãos todos os mortais.

Quando morre o poeta, o silêncio se faz seu último verso. E um dos mais bonitos.


::: em memória de Gabriel García Márquez :::

terça-feira, 8 de abril de 2014

Encontros...

Celebre todos os encontros da sua vida, pois inevitavelmente levaremos alguma coisa deles, ainda que seja o que não ser e o que não repetir.

sábado, 5 de abril de 2014

Maturidades...

As palavras me dão maturidades que não possuo. Quando escrevo, sou outro que não eu. A poesia me concede por generosidade, as temporárias sabedorias que somente encontro refletidas no papel e que de outro jeito jamais saberia. Amanheço minhas verdades nas palavras quando ainda sou acomodada escuridão.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Revisitada...

Um dia desses, vou-me embora pra Pasárgada. Lá penso em renovar o homem usando borboletas. Durante as manhãs, carregarei água na peneira e desinventarei objetos, às tardes fotografarei o silêncio desenhando o cheiro das árvores. Voarei fora da asa apenas para me encontrar com mulher vestida de sol, e na cama que escolherei nos amaremos por todos os nossos despropósitos. Lá terei os meus problemas resolvidos por decreto, acalmarei reis em conflito, farei as horas afastarem-se estrangeiras, como se o tempo fosse feito de demoras. E te amarei com a memória, imperecível. Lá sentirei a dor do vento por não ser colorido, e mesmo movendo céus e terras, saberei que a maior dor do mundo é aquela que eu mesmo sinto. Lá poderei viver recluso numa casca de noz e considerar-me rei do espaço infinito, servindo-me da solidão e da coragem como companhias para me enfrentar, pois terei chegado no tempo de fazer a travessia, e caso não ouse fazê-la - tenho certeza - terei ficado para sempre à margem de mim mesmo. Lá escreverei o que sinto para diminuir a febre de sentir, mas não inventarei nada, serei simplesmente o mensageiro das minhas sensações. Lá andarei com flores sobre o teu silêncio, pois coisa rara e bonita é a gente poder se comunicar por meio da alma, sem que palavra alguma necessariamente aconteça. Lá serei o único homem a bordo do meu próprio barco, farei do céu o meu telhado e meu desejo será o rastro que ficou das aves. Em cada esquina encontrarei altar para um deus diferente, porque lá nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho. Mas não se preocupe em entender porque tudo que não invento é falso. E quando eu estiver mais triste, mais triste de não ter jeito, tiver morrido dentro do peito e dispensado a própria sorte, quem sabe de Pasárgada eu volte e aqui possa a vida mesma imitar a própria arte.


(Referências diretas a Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Ariano Suassuna, Paulo Leminski, William Shakespeare, Sophia de Mello Breyner Andresen, Adélia Prado, Mário Quintana, Victor Hugo, Fernando Pessoa, Emil Cioran, Ana Jácomo e Hilda Hilst)

quinta-feira, 20 de março de 2014

Pedra & Flor...

Gentileza do artista Alexandre Camaleão, autor do Filosofão.

sábado, 8 de março de 2014

Mulher...

Creio existir neste mundo entre os comuns, singulares seres destinados a carregar os frutos maduros da beleza. Seres de delicados detalhes como acesso direto aos reinos do sublime e das estéticas paixões que dão nome às artes. Talvez sejam as mulheres, remissão de Deus por não nos conceder asas. Ou então especial cortesia da criação ao atestar sua perfeita existência na obra realizada. Em cada uma se evidencia a existência dos anjos sobre os chãos pois, são elas quem nos miram a dar-nos os olhos de ressaca. São elas quem nos atestam os milagres, e também os infernos, onde das mais altas dimensões despertam-nos para o amor pela obediência dos olhos aos desejos, arrancando-nos como numa hipnose, o equilíbrio e a lucidez, se expostos a elas por demasiado tempo. Da pele cor do branco mármore - a conceder a forma aos templos sagrados - à negra cor onde habitam as estrelas, trazem consigo a luz, convocando-nos os sonhos, acendendo-nos brandas doçuras e intensos pecados. Aura luz de sol entre as manhãs e dona de todos os abismos, a mais bela entre os jardins. És tu mulher. Dedico a vocês a devoção das minhas palavras...

segunda-feira, 3 de março de 2014

Livro: A Ilha de um homem só.

A Ilha de um homem só.

Este livro contém:
 - Cinquenta e oito histórias e contos em prosa poética;
 - Cinquenta e oito verdades (e mentiras) que não saem de moda;
 - Cinquenta e oito carapuças e provocações;
 - Cinquenta e oito reflexos e reflexões;

Indicado para: torções dos afetos; vista cansada de coração entristecido; fobia de alguns medos; desprendimento dos desamores; desgaste de antigas esperanças, constipação do sorrir; preguiças de semear; vocabulário enriquecedor de encantamentos; fortificante para as coragens e os possíveis; aconchego existencial; despertador; flexões do verbo amar; apoio às serenidades de se viver e morrer de Amor.


       UM FANTABULÁSTICO (OU NEM TANTO) PRESENTE, MIMO, RECUERDO, LEMBRANÇA, SOUVENIR, ETC.

Possível aos teus olhos, tua estante e às tuas mãos.
A Ilha pode ser sua!
O preço: R$ 30,00 + 6,00 (frete fixo) ou, troca-se por feijões mágicos.
A quem interessar possa, mande-me um e-mail.
Contato: guglicardoso@gmail.com
facebook.com/guglicardoso

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O homem que sabia milagres...

Era uma vez homem que sempre existiu, tendo entrado pela tangente na própria vida sem precisar nunca ter nascido. Dizia ele ter a mesma idade do mundo, sobrando para especulatórias teorias que precisassem o inexato e distante momento que em ele se aconteceu. "Somente o tempo me deu autoridades de existir" ria-se, "graduei-me gente desavisado das idades. As memórias dos outros foram os lençóis que me deitei, os sonhos alheios foram os frutos que comi. De mim não sei, o que sei é apenas o que os outros me contaram". E dessabido do seu próprio nascimento, não lhe sobrava espaço para carregar a própria morte. "Só morre quem nasce e quem não nasce não pode morrer." Mas não se sentia afortunado por isso, era antes um condenado aos estáticos eternos. Ainda que sua presença atiçasse adormecidas sementes e iluminasse os escuros, nada servia por quase nada sentir. "Planejamos demais a vida e a perdemos entre nossos ensaios. Eu não previ nem planejei e por isso ainda a tenho inteira. E de improviso entre as dores sem saber morrer, mais as perdi do que as ganhei, sobrando-me menos do que o contrário. Pelos vazios que colecionei, descompareci para as tristezas, desapareci para os tormentos do viver. Sou ausente nos compromissos que nos pedem os sofrimentos, mas também as alegrias. Tudo isto porque sempre vivo e nunca morro!" Sofria o pobre homem por nada sofrer. Um dia, apareceu-lhe num copo de cachaça a voz da sua consciência: "o que sabes da felicidade?" Não sabia o que responder. Desatinou em infinitas constatações. Talvez sabendo o que fosse sofrimento, saberia o que é ser feliz, porque sem também saber da felicidade, sabia, de nada saberia da vida. O que adiantava se manter mergulhado mas não poder respirar, falar de boca cheia sem saber gosto? A tristeza é condição para a felicidade, e vice-versa. Uma não caminha sem a outra; são irmãs que nos visitam com regularidade, em que a primeira entra quando a segunda se retira. E não lhe sobrando outras certezas, implorou por um milagre. Seu milagre era sua morte. E a vida assim lhe concedeu. Meses depois morreu de amor, para renascer num amanhã qualquer mais homem e mais vivo por aí. Descobriu que por ser mortal cabem-nos infinitas vidas, com seus doces e seus amargos. Melhor do que uma inteira sem sal.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Prisão...

Eu vivi por tanto tempo atrás das palavras e de mim mesmo. Amei letras e promessas ao invés das pessoas. Inverti a ordem das coisas e da felicidade em minha vida. Prisioneiro de mim e dos meus papéis, vivi enclausurado nos meus dias iguais, nas minhas velhas mágoas e canções. Encarcerei-me junto ao outro quando o arrastei para dentro da minha cela quotidiana. Além dos sonhos, permiti-me algumas fugas e banhos de sol, para me lembrar como era estar livre para os milagres. Eu mesmo havia escolhido minha pena e meu pesar sem o meu perdão. Contei-me histórias para me conformar de que estava bom ali, de que eu merecia e de que era suficiente. Eu sinceramente fingi acreditar; abandonei a vastidão do céu que um dia me pertenceu. Acreditei que, se todo mundo a minha volta cumpria suas penas e cinzas arrastando suas misérias, por que comigo deveria ser diferente? Por que não deveria seguir os mesmos passos, habitando os mesmos tamanhos? Por que somente eu deveria continuar com essa leveza e o brilho nos olhos? Pois eram eles que falavam de Amor, e não eu. Aí então me juntei ao coro dos contentes e descobri: A pena que por liberalidade buscamos é um amor nosso que não real, e que projetado nos engana. A ele nos agarramos e cegos entramos na trama, até que exaustos tentamos escapar mas, sem sucesso. Enraizados no ontem das nossas escolhas, custa-nos mover o mundo para habitarmos outro mais feliz, abandonando o que não nos serve mais. Enquanto a vida nos aponta repetidas razões para escolhermos o novo e com ele o risco de sermos felizes, preferimos nos apegar às justificativas e pretextos que criamos para nos mantermos no mais do mesmo e não sairmos do lugar. Vivemos presos à mesma ideia de que ainda poderemos ser felizes com o que não dá mais certo. Custa-nos tempo, energia e até equilíbrio para perceber que certas relações são hábitos e costumes, e o "amor", palavra oca na boca dos que repetem para anestesiar infelicidades e acreditar que mantém suas escolhas porque deliberadamente querem, não pelo medo dos vazios, carências e milhares de boas desculpas com que nos convencemos a ficar onde estamos, não arriscando nossos empoeirados confortos, nossa felicidade bem arrumada, nosso planejado fim de semana. Queremos a felicidade tendo medo de ser feliz. Um dia, medi os pesos e pesei as vantagens de ser feliz. Hoje sinto o gosto da liberdade.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Entre...

O poeta entretanto, 
entre tantos, entretinha-se:
com a palavra a seduzir os homens
com a poesia a degustar do mundo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Quentinho...

Eu não vejo palavra que não seja colo, e poesia que não seja abrigo. Seja uma frase que nos abrace, ou um verso que nos namore e nos leve pra passear. Eu não vejo palavra que não seja perfume, sabor, caminho, cor, leveza e carinho em que até nos dias cinzas e frios de nós, usamos da poesia como aconchego quentinho pra longe de descoloridas tristezas...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Polemizar...

Eu, nomeado escritor sem devido alvará nem aclamação;
Eu, consagrado poeta sem rigorosa sacralidade ou adoração;
Declaro para todos os fins 
os meus meios:

De natureza inapta, inepta, indócil, 
Tornei-me impróprio ao unânime
e péssima influência às doçuras.

Discordante, 
disparate, 
dissidente,
dormirei à noite
de dever cumprido:

Fazer poesia de quinta,
Dividir impérios às segundas,
Encarar o medíocre nas terças,
Sair para beber às quartas,
Reincidir no crime aos Domingos.
Pedir perdão todo dia.

Polemizo; 
Polenizo;
por um triz, o riso
Para três, a raiva.

Por que carregar gente brava
Se eu mesmo já esqueci tudo isso?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Um amém de santo...

Que o palco nosso de cada dia nos dê hoje
alimento aos sonhos e fome aos medos, 
verdade aos pés e beijo à boca, 
maciez aos olhos e mágoa pouca, 
um Amor com histórias, 
um aroma às memórias,
doces vinhos e glórias,
e certeza aos amanhãs,
o saber do tempo,
o sabor do intenso,
o calar do vento,
o calor do outro,
celebrar o pranto
de um milagre pronto,
festejar o encontro
com qualquer imenso.
E um amém de santo.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Na alegria e na tristeza...

Se escrever é ato de rendição e entrega a desnudar-se no espelho das palavras, confessando correntes que sentimos no mar da vida; ou convocar as responsabilidades de se reconhecer, derramando à luz das linhas os reflexos que nos compõem, qual a diferença entre escrevermos na alegria e na tristeza? A tristeza nos dá profundidades e centramentos, pois nela permaneço em mim enclausurado, imerso no denso caminhar lento das horas. Ali, habitante desalojado das levezas, mergulhado nas intensas camadas do meu eu, encontro mundos, sobrevoo monstros e distâncias, reencontro saudades, sinto espinhos em viva carne e crua alma. A tristeza melhor se versa pela consistência que empresta à dor que excede, transborda e nasce palavra. A tristeza é uma das forças que concedem coesão à linguagem; força centrífuga que aproxima o mundo dos fatos das dimensões líricas que transita o poeta. Na solidão das nossas aflições, melhor nos ouvimos e mais honestamente confessamos. A tristeza como centramento, apura-nos a visão para descrevermos em detalhes o mundo imenso que através de nós, devagar gira e incomodamente nos acontece. Ganhamos habilidades para enxergarmos o inteiro quadro das nossas desrazões à beira dos precipícios que atravessamos. A poesia melhor se evidencia nos escuros pelo contraste de sua natureza iluminada. A poesia na tristeza sofre do coração, curando-se pela catarse e epifanias da própria escrita. Quanto a felicidade, esta não se confessa facilmente na claridade do papel. A felicidade nos dá velocidades entre os acontecimentos que percorremos e os verbos que conjugamos. A felicidade é o encanto do vento, o rápido movimento dos olhos deslumbrados, a fluidez dos rios, não carecendo de estruturas verbais para se notar e desaguar mar, pois que se contenta nos silêncios e fala apenas por caprichos e transbordamentos. Ela não se permite as cristalizações e devagarosas rotações que tendem as tristezas, pois é de natureza volátil. E pela sua sutileza, poucos são os que cumprem destreza de engarrafá-la nas palavras, visto que difícil é captar sua inteireza, e senti-la nem sempre é explicá-la. A poesia melhor se camufla entre a claridade, confundindo-se entre as leves paisagens que sentimos. A felicidade é o que nos acontece à beira da janela e passa como uma tarde de final de férias, sendo fácil despercebermos a contínua linha dos acontecimentos. Assim sendo, felicidade conhece o que pousa no vento, e tristeza é a demora da cinza nuvem que se arrasta no céu.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Correntinha...

[...] até então falava sobre meu cotidiano sem sal, meus hábitos sem graça e triviais detalhes da minha vida que para ela fazia toda a diferença. Queria saber de mim, ouvindo-me com toda a atenção de seus olhos. Olhava-me de perto, e eu sem saber ao certo como me portar sem confessar a falta de jeito. Ela era definitivamente atraente. Vestia-se de branco, numa impecável camisa de seda a contar-me pelos dois botões abertos, sua correntinha. Quiçá fosse um escapulário, um presente singelo de sua mãe católica, ou talvez lembrança de algum namorado ou paixonite passada, ou quem sabe uma correntinha vagabunda dessas compradas numa lojinha do litoral durante as férias. Quem sabe. Seja lá o que fosse, enquanto eu falava de mim, imaginava possíveis cenas e cenários da vida dela. Aos poucos comecei a me sentir mais confortável com a presença, com o meu quase monólogo e com a sua inteira atenção. Mas quando ela tocou com as suas mãos meu rosto, calei minhas palavras. Deixei-a se aproximar e saber melhor meu recém-nascido silêncio, meus contornos, a minha pele. Denunciei pela minha curta e ruidosa respiração, minha tensão e talvez todos os meus pensamentos. Ela sorriu, e na nossa primeira vez, disse já querer me ver novamente. Era a minha dermatologista. Sério problema de acne. Consulta cara.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Conveniências...

[...] Se abrirmos mão das máscaras, a verdade poderá ser revelada. E ninguém faz questão de trazer à tona o inevitável lado sombrio que calamos. Afinal, temos uma reputação a zelar. Queremos acreditar que somos dignos de sermos aceitos e respeitados, de sermos amados. Seja pela conveniência prazerosa do sucesso, pelo temor de sermos rejeitados, para satisfazermos desejos ou porque silenciosamente sabemos que não sabemos nos relacionar com o próximo, não assumimos o inteiro risco da sinceridade. Por isso criamos ao longo do tempo e com muita dedicação, as mais enfeitadas mentiras que nos representam diante da vida. Mantemos uma falsa ideia sobre nós, vendendo aos outros versão com qualidades exageradas ou com atributos que gostaríamos de ter. Damos ao público a mais bela maçã do amor, ainda que seja de plástico. De real posse das nossas fragilidades, projetamos uma personalidade equilibrada, segura, mais solidária, mais inteligente, sem tempo para preocupações, tristezas ou nossos próprios defeitos. Talvez possa parecer mais fácil, embora não seja, mantermos essa diplomática e agradável superfície que deixamos livre para visitações e elogios, enquanto reprimimos e calamos nossas verdades à força. É necessário muita energia emocional e mental para consolidarmos uma repetição dos nossos cenários e personagens sem quaisquer deslizes. Por isso falamos da coragem para nos distrairmos de qualquer maneira dos medos, e fazemos da felicidade uma fachada para encobrir nossa comprimida e empoeirada tristeza, nossas misérias. Numa hora dessas, nas nossas intimidades com o outro, relaxados e desatentos, sem sufocarmos a honestidade das nossas marés, tudo aquilo empurrado para as sombras da nossa consciência, virá nos cobrar o direito de nos pertencer e nos revelar.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Doses homeopáticas...

Deveria ser proibido versarmos sobre liberdades e levezas enquanto não praticássemos os nossos perfumados e arrumadinhos verbos e quase sinceras frases de efeito. Deveríamos viver presos às nossas verdades sem chance nenhuma de qualquer fuga parcial, adiamento ou distração. Quem sabe, imersos e sufocados por inteiro e de uma só vez, sairíamos correndo das nossas prisões como quem desesperado busca o ar pra respirar. Quem sabe doer inteiro e não em doses homeopáticas seja a lembrança de que a felicidade não pode ser um placebo, tampouco parcelada. Por ora e enquanto não encaramos o espelho, o medo e o outro, pagamos os nossos pecados por sermos menos, ao mesmo tempo em que criamos outros pecados mais para pagar.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Mais e menos...

Que possamos ser mais, sendo menos; pois são os detalhes que compõem as grandezas de nós. Que tenhamos muito, mesmo com pouco; pois será para alma sempre o suficiente. Que as boas lembranças sejam referências de quem realmente somos, neste espaço entre o agora e os amanhãs, e que estejamos sempre atentos ao fato de que a felicidade mora aqui ao lado, e que desocupada nos espera visita, ainda que não batamos na sua porta, pelas distrações da nossa casa.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Que assim seja...

Que entre as folhas do teu calendário habitem os teus novos sonhos. Que a partir de hoje os dias sejam mais teus. Que você se lembre que há sempre mais coisas a se pensar e a se fazer do que coisas já pensadas ou decididas. E que por isto, você abençoe seus amanhãs. Abençoe também a tua rotina, mas a evite o quanto puder. Que você possa respirar macio como não respirou no ano que passou. Que você não se afogue no mar da vida e que guarde espaço e tempo para os suspiros e estratégicas faltas de ar. Que os passos sejam mais leves. Que tenhas boa saúde para ser quem se é por inteiro e ir atrás do que se busca. Que a Vida lhe dê bonitezas e caminhos muitos em que as certezas caibam melhor. Que o Amor possa preencher tua agenda de compromissos, taças de vinho e perdão. Para os próximos capítulos, mais intensos e transbordamentos; menos excessos. Mais frutos, sementes, planos e 'de repentes'. Mais poesia, Alma e corpo também. Mais entregas e menos metades. Mais abraços e menos saudades. Mais voos e pés-no-chão. Sorrisos e cheirinhos de terra molhada, bebês, incensos e de quem se gosta. Mais livros, destinos, menos despedidas. Que sejas dono dos teus melhores pensamentos sobre ti mesmo. E que a gratidão atraia sempre mais coisas pelas quais seremos gratos. Que assim seja...

(Guilherme Cardoso Antunes, vulgo "eu", em 04.01.2013)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo...
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta. 
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou. 
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar. 
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.
Tenho equilíbrio. Procuro por mais. 
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2014. (Guilherme Antunes)


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente".  (Carlos Drummond de Andrade)