terça-feira, 26 de novembro de 2013

Enquanto me aguardo...

Enquanto me aguardo, visitam-me as palavras. Busco entre os meus versos e frutos, alguma desavisada certeza de mim, distraída verdade oculta nas entrelinhas; e entre elas, o tom acertado de minhas escolhas, uma exata explicação dos meus medos; a aguardada revelação dos meus porquês. Sofro de inspirações para que numa próxima eu saiba a chave correta, a porta, o outro, o Amor, as marés, minha Alma. Escrevo para me dar a chance de me encontrar na confissão de um conto que me descreva, que me conte os capítulos meus que não vivi, para que eu não perca de vez a estação que eu deveria descer.

domingo, 17 de novembro de 2013

Repousos...

Amor, tenho urgências para dormir contigo. Sim, dormir para ganhar verdadeiras intimidades com teu corpo, com tua alma e com a tua despretensiosa e entregue horizontalidade. Preciso dormir contigo para despertar outras dimensões e vontades de ser teu. Quero dormir contigo para daqui em diante não mais te procurar no meu sonhar; desejo o descanso daquele que encontrou. Suplico para que durmamos juntos para ser contigo versão de mim que desconheces, a de que sou Amor mesmo em repouso; que embora inconsciente, sou resoluto e lúcido Amor. Logo eu, versado na arte dos descansos, contigo ainda não fiz dueto. Preciso dormir contigo para que esta seja minha incondicional rendição, quando desnudo dos medos e de mim próprio, permanecer tão-somente Amor para tuas presenças. Se fazer amor contigo é declaração de intensas sonoridades, quero agora me declarar para ti deitada sobre os silêncios. Preciso dormir contigo para, na verdade, adormecer as despedidas e, do outro lado da noite, saber você comigo nos dois lados de mim.


“Fazer amor, sim e sempre. Dormir com mulher, isso é que nunca. Dormir com alguém é a intimidade maior. Não é fazer amor. Dormir, isso que é íntimo. Um homem dorme nos braços de mulher e sua alma se transfere de vez. Nunca mais ele encontra suas interioridades”. (Mia Couto)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Generosos...

"Eis a nossa sina: esquecer para ter passado, mentir para ter destino". (Mia Couto)

Quais seriam as exatas razões-de-ser das lembranças em nós? São pedaços de sonhos que um dia nos aconteceram? São as vozes de páginas passadas que nos ditam os próprios caminhos? Justificativa da memória que nos permitimos esquecer: sobrevivemos por contar histórias que preferimos acreditar; para que as nossas certezas vivam em paz na segurança de um tempo em que não se é mais. Acentuamos detalhes que nos importam por conveniências de existir. Preenchemos lacunas e inevitáveis vazios com explicações à nossa Alma e ao nosso peito que desconvençam medos, olhos e aflições. Remodelamos sensações conforme o encaixe de nossa desmedida lucidez. Pois seriam os amargos menos intensos ou o Amor mais sublime quando vistos com a distância das folhas do calendário? Seriam os momentos realmente tão coloridos no instante em que os resgatamos do passado e dizemos ao outro que assim nos aconteceram? A quase-perfeição em nós se declara inteira nas distâncias que dela mantemos. Costumamos ser mais felizes nos anos que não voltam mais, talvez porque nos seja mais fácil assim. Contamos detalhes de inexatos cenários que criamos por premeditados enganos de nossas fraquezas. E pela necessidade de coerência dos nossos caminhos, de ontem e de amanhã, filtramos como podemos as dores nos véus do esquecimento. Somos sempre mais generosos quando nos recriamos, eis a nossa natureza; que não nos impeça de novos voos e outros sonhos, que não nos prenda no mesmo e no morno, nem proíba sorrisos e ares mais frescos. Que as perdas e ganhos sejam sementes e jamais prisões; registros a nos dar identidade e pertencimento; ponte entre o hoje e o que de bom permanece em nós. Guardemos o bem nos silêncios ou entreguemos o mal às palavras, somos tudo aquilo e aqueles que nos permitimos continuar amando...

(Guilherme Antunes & Loridane Melchior)

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sutil diferença...

Às vezes confundimos maus pressentimentos com nossos medos e consequentes pessimismos. No primeiro caso, sentimos por antecipação os resultados de um plano já traçado por nós e pela própria Vida, mas que não buscamos. O tema aqui é sobre os destinos. No segundo caso, o que sentimos determinará as escolhas e antecipará os resultados de um plano que estamos traçando ou que ainda iremos traçar, mas que não precisaríamos se não quiséssemos. O tema aqui é sobre os inevitáveis caminhos que o medo nos apresenta. Sutil é a diferença com que nos tocam, nítidas são as diferenças dos seus frutos...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Estrada...

Já havíamos nos feito frutos antes de nascermos para os dias. Você é o Amor que já sabia antes de me haver no mundo. Vesti-me de semente para florescer teus olhos; tornei-me riacho para ao mar saber amanhecer. O tempo veio, de longe, e ainda canta para nós. Canção feita para celebrar sentidos. Cuido do Amor para ser teu nome e tema que versam o canto dos pássaros. Depois de ti, o mundo nasceu sentido, e o peito cambaleia, aumenta e dança sobre os presságios. O coração, tonto e arrítmico, desliza. Sem onde, abri estações nas funduras dessa noite. Sem quando, abrigo um futuro decorado na boca, entre as distâncias em que apenas os sonhos estão permitidos atravessar. E é aqui, na fusão de todas as cores, que os dias aprendem a beleza do teu nome. Aqui, na desnecessidade de todas as vozes, que o Amor aprende a ser, em silêncio, um sonho lhe derramando em pensamento. Aqui, onde a poesia nos tingiu de céu e de sol, e onde bebo e como da tua presença. Aqui, sou, porque tu és. Estrada a caminho de mim.

(Guilherme Antunes & Priscila Rôde)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Aqui nos sabemos...

[...] eu desconfio que os olhos quando se permitem janelas, aprendem a convidar as exatas paisagens que as enfeitam. A Alma busca por palavras que no rio da poesia matem a sua sede. A literatura se faz ponte para os encontros, sejam nas linhas do papel ou dos destinos.

Por isso, aqui nos sabemos.