segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sua busca...

Você vem até aqui buscar por palavras que te aliviem das inevitáveis e acumuladas tristezas da vida. Você quer palavras que interpretem teus sonhos e revelem os propósitos da tua existência. Você procura por palavras que definam os indefinidos e indefiníveis dentro de ti. Você quer palavras em que identifiques o mapa dos teus interiores labirintos. Você anseia por palavras e previsões do teu próximo Amor ou o segredo e chave das tuas prisões. Palavras que serenem marés, tenham tons de milagre ou inovadoras percepções sobre os teus amanhãs. Você precisa de palavras como distração das ansiedades. Palavras que te salvem e que te curem. Que te confessem sem você precisar dizer nada. Você quer a sabedoria que em si mesma nunca encontrou. Por isso escrevo, para tentar salvarmos a todos nós, dissolvidos nos romances e nas entrelinhas. Você quer uma poesia além das páginas, no contorno dos teus caminhos. Eu também; eu busco o mesmo que você. Quem sabe um dia eu encontre entre tantas linhas, aquelas que saibam o nosso nome.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Convenientes...

Se não reconhecermos as sombras que nos acompanham, por elas poderemos ser carregados. Nos dizemos reféns das explicações que habitualmente contamos, mas que de nada nos libertam, vestindo-as como justificativas dos erros futuros nos quais reincidiremos, tranquilizando-nos dos incômodos acumulados nos cantos da nossa zona de conforto que justificam, isto sim, de forma legítima, nossos comodismos. Costumamos fazer dos amanhãs o bode expiatório da nossa falta de coragem. Adiamos nossa responsabilidade, não nos assumimos no tempo certo e nos atrasamos sempre para ser o que gostaríamos. É muito mais fácil sermos felizes sempre no passado, aquele que não volta mais, consultando tão-somente as interessantes e convenientes lembranças que pretensamente nos melhoram e nos aliviam, e por isso nos convencem. Somos as convenientes vítimas de nós mesmos.

domingo, 8 de setembro de 2013

Férias...

A partir de agora, decreto férias de mim. Talvez estas sejam na verdade as minhas primeiras férias, ou melhor, uma carta de demissão: dos meus medos e cansaços, dos meus labirintos. Decidi ir pra longe dos meus habituais enganos, das minhas falas decoradas, das minhas previsíveis ruas-sem-saída. Vou deixar em minha mesa todos os apegos e irei para o lado contrário das mágoas; ainda que na contramão. Vou para bem distante das minhas já manjadas muletas e reações alérgicas emocionais; da minha (própria) cara de reprovação. Viajarei mesmo pra longe; para o lado de mim que pouco lembrava e que senti por tanto tempo saudades. Vou levar o coração pra tomar sol, abrir janela para arejar certezas, vou arranjar um romance ardente comigo mesmo. Sairei para saber o que deixei pra lá, aceitarei convites e atenderei a convocação dos meus amanhãs. E chegando lá, vou fazer minha programação: acordar bem cedinho para as verdades, alimentando-me de levezas e boa companhia, seja a dos passarinhos ou de mim mesmo. Vou fazer passeios por lugares esquecidos de dentro; só pretendo não passear pelos museus. Vou visitar sonhos novos em folha que esqueci amarrotados entre os dias por me ocupar demais. E dessa vez não vou economizar. Vou me gastar e me desgastar até me ganhar mais uma vez. Não posso mais me poupar de tanto que me poupei, nem represar futuros que me pertencem. Daqui em diante, só vou assumir aquilo que fizer parte do meu show. O que não fizer, deixarei para sempre dentro do almoxarifado. Não posso ficar sentado fazendo hora-extra para as tristezas, aceitando o peso da rotina, engolindo sapos, deixando a preguiça e o desencanto cuidarem do meu expediente. Não vou mais me permitir clausuras que um dia voluntariamente me permiti entrar. Vou reaprender novos e velhos oficios da Alma, redescobrir levezas, gostar de mim, ser sereno num despretensioso hoje. E o que não puder reciclar, reinvento. Porque não mais aceitarei o assédio moral das minhas sombras, das minhas covardias e inseguranças. Vou tomar café quentinho com o meu lado criativo e esperançoso. Vou promover o meu amor-próprio. Vou admitir o meu perdão. E qualquer coisa, podem me ligar, convocar-me de volta por fax, e-mail, cartinha. Somente irei responder às minhas verdades. Só vou atender aos compromissos que me interessam. Fui ser feliz, e quem sabe, não volte mais...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Não mais se feriu...

Às vezes passamos muito tempo olhando para uma só direção, para o lado de nós que menos pesa e mais nos agrada. Olhamos muitas vezes para um só lado de nós, apenas por não querermos ver aqueles que de alguma maneira nos incomodam. Há certos convites, como dores, profundas tristezas e agudas felicidades que nos convocam às necessárias coragens de nos sabermos por inteiro. Alguns deles e conseguimos fingir que não são com a gente; outros, realmente irrecusáveis, são visitas aos esconderijos interiores onde moram feiuras e amargos que depositamos ao longo do tempo e que por isso fermentaram, azedando esperanças e singelezas do coração. Pede-nos a Vida, decidida disposição para a tarefa de transformarmos sombras em luz, alumiando os próprios caminhos e laços, e os alheios. Quando rosa soube além da sua cor o seu espinho, soube ser também flor e jardim. Não mais se feriu.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Invernam...

Um dia
eu farei questão de nascer pedra 
enquanto você flor, 
pra te namorar sem doer 
entre os silêncios do jardim e da primavera, 
dessabido da língua das saudades 
que invernam os homens.