sexta-feira, 31 de maio de 2013

Temporárias...

Bem-aventurado aquele que livre se sente para quando necessário, descartar rígidas e confortáveis certezas por certezas flexíveis e temporárias, aceitando suas inexatidões e respeitando a sabedoria dos amanhãs, conforme se revelam às conveniências do seu próprio amadurecimento. E do alheio.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Entre um e outro...

Às vezes é tanta dor e tanto intenso
que palavra nasce doendo,
que o verbo nasce gritando,
e o verso envasa o imenso
em que o Amor encontra-se lendo
entre um porém e um entretanto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Gratidão...

Agradeçamos à Vida que nos apresenta o outro
como instrumento para nos lembrarmos
de quem realmente somos, 
pela feliz possibilidade
de expressarmos a versão
mais nobre de nós mesmos 
nos determinarmos de acordo
com nossas escolhas.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aquele que também sou...

Visto meus nomes conforme a ocasião; versões que me completam e se despedem de mim; pois há egoísmos muitos que me visitam e lembranças tantas que me prendem. Há medos ainda que eu ensine sobre a coragem. Aprendi a fugir sem ter partido, amar sem ter amado e a ferir sem me doer. Confesso sempre meus primeiros degraus e deixo o mais profundo para depois. Se poucos são os corações que sabem pelos silêncios o que os colorem, eu nada mais escuto. Guardo promessas fora da validade numa Alma fora de moda. Sinto uma pretensa sorte por escolher aqueles finais felizes em que não estou. Por isso faço asas nas palavras enquanto eu de verdade me arrasto. Afinal, quantas são as formas de não se amar? Quantos não são os enganos de ser amor? Faço da vida inteira uma licença poética para ser livre, apesar das grades da prisão que enfeito e diariamente escolho. Sou prosador de incompletas verdades sobre mim, fazendo das mesas de bar meus mais bonitos palanques. Sou a flor que não se incomoda com seu espinho. Sou Igreja que permitiu morar o demônio. Se toda luz também sabe seu contrário; sou janela aberta ao reino do infinito, mas sem ninguém do outro lado. Vivo apenas no real dos teus olhos; sou aquele que desconhece a poesia. Sou uma distância entre o espírito e a verdade, e que pelos outros passa apressado e desapercebe o Amor que me cabe. Escrevo como alívio, pois eu sou a traição do real; faço juras em meu nome mas que nunca cumprirei. Sou um estrangeiro na própria casa; aceito elogios e olhares sem merecer. Gosto de ser aquilo que não sou o tempo inteiro. Sou a bipolaridade dos meus avessos. Sou a natural contradição de mim mesmo. Prazer, eu sou o Ego.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Platônica...

Sou meus cigarros à sua espera; sou meu café e mais dezenas de canais sem nada demais e que não me distraem. O que me resta hoje é uma madrugada infinita, insone e triste; em que vou preenchendo meus vazios e cultivando minha desmedida aflição, sem tuas palavras a me falar sobre a vida, sem tuas cores a brilhar os meus olhos, sem tua música para os meus ouvidos. Pois era você quem tanto se fazia presente aqui dentro a me distrair da vida lá fora. Tantos anos contigo e desde o começo você me encantou. Não te namorei porque isso era impossível, você bem sabe. O tempo passou e incontáveis foram os meus sorrisos, minha inteira entrega e fiel devoção. Os muitos problemas que tivemos nunca diminuíram minha admiração ou minha atração por você. És sedutora como jamais pensei que pudesses ser. E entre altos e baixos, agora era demais. O teu silêncio tornou minha casa insuportável. Tua ausência denunciou que eu não sei mais o que fazer longe de ti. Se você não retornar até amanhã, não saberei dizer o que será de mim, ou dos meus dias seguintes. Vou ligar para quem deva ouvir meu desespero. Gritar minhas ruínas. Exigir o tempo que não volta mais. A minha internet sem conexão. O atendimento ao cliente é péssimo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Livro: A Ilha de um homem só.


Manual de desmantelamento dos desamores;
Um receituário de singelezas;
Um guia prático de amanhecimentos;
Breve tratado sobre as entrelinhas dos porquês do coração;
Compilação de iluminâncias contra as tristezas;
Um convite ao outro lado dos olhos em que mora Alma;
Uma vaga lembrança de carinho de vó;
Um vade mecum do encantatório;
Silencioso aconchego de praça;
Uma gostosa preguiça de férias;
Uma teoria geral sobre os sonhos;
Coleção de atrevidas coloridices para os eventuais cinzas dos dias;

Possível aos teus olhos, tua estante e às tuas mãos.
A Ilha pode ser sua!
O preço: R$ 30,00 + 6,00 (frete fixo) ou, troca-se por feijões mágicos.
A quem interessar possa, mande-me um e-mail.
Contato: guglicardoso@gmail.com
facebook.com/guglicardoso

terça-feira, 7 de maio de 2013

O teu engano...

Eu leio você. Talvez eu não saiba os detalhes do teu quarto ou o nome da tua irmã mais velha ou qual o teu livro favorito, mas eu sei de você. Você se desnuda no preciso instante em que me visto com as palavras. Você se entrega toda e inteira quando sou eu próprio a confessar. Eu leio você no momento exato em que você me lê. E trago uma trégua ao caos na ordem das linhas; dos sentimentos que te espremem e imprimem na Alma tua, marés em que sou versado leitor. Eu leio você como testemunha ocular dos teus próprios sonhos. Sou narrador dos capítulos que guardas na lembranças, sejam daqueles que carregas leve dentro do peito ou daqueles que gostarias mesmo de esquecer. Eu vejo aquilo que você mesma enxerga, mas não te julgo nem te condeno; no coletivo das palavras com que te identificas, você em verdade se liberta. Você gosta quando explico tuas dúvidas e vontades pelas exatidões confessas da poesia; quando declamo tuas duras certezas nas mansas linhas do papel; e lhe devolvo assim as levezas esquecidas no interior de ti; ou quando despeço tuas desesperanças como se soubesse cada uma pela cor e relembro você de amanhecer. Você busca nova página depois do Amor que não te visitou ou da felicidade que não vingou. Você busca alento e alívio no aconchego do poeta. Mas entenda meu amor, eu te verso e te encanto, mas não te canto, com as doçuras que te cercam acerca das palavras que careces, mas que me sobram. A questão aqui é que você se engana e se confunde ao pensar que sou destino, e não a ponte. Ao sentir que sou o príncipe, e não a trama. Por ler você, eu corro o risco. Por você me ler, te enganas. Porque são minhas palavras quem se dedicam ao público no palco das letras, e então você vê em mim o que nas palavras desejas, mas não sou eu minhas palavras. Eu me despeço delas em cada ponto final, mas você me leva junto pra dentro de ti pela porta que tua carência deixou aberta quando entrou. Você se apaixona pela imagem mas desconhece o espelho. Você se distrai e se enamora pelo personagem projetado na tela da sua vida. E eu sei das aflições que te consomem ou qual a nota do perfume do Amor que te alimenta, mas não te conheço. Tudo porque nossas ilusões e milagres apenas mudam de endereço, mas são feitos da mesma matéria de onde nasce a nossa Alma. Por isso, quando eu falo a mim, é você quem ouve. Quando digo nomes, você escuta o teu. Mas eu não sei quem você é e talvez eu nunca venha a saber. Eu te decifro, mas é bom que saibas: não tenho a mínima pretensão em te devorar. Ou ser devorado.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pecados e parabéns...


"Quem gosta de abismos, tem que ter asas". 
(Friedrich Nietzsche)


"O que eu fiz com a minha vida?", foi pergunta que hoje calou meu sono. E eis a conclusão de inevitável e doída resposta: eu não sei! Até então fui uma coleção infinda de atalhos e planos "B", em que os meus sucessos até aqui foram quase todos de improviso. Aliás, eu sou por inteiro um improviso! Quantas mentiras não criei e não mantive vivas com a ajuda de outras tantas, a preservar precárias e moribundas felicidades? Sou uma deliciosa ilusão mas que não convence, uma promessa mal cumprida, rascunho genial que nunca saiu de um papel. Só eu sei o que reservei em mim para prosperar jardins e nobrezas, quando pouco me dediquei às sementes. Hoje, sou um descontente inverno que já soube ser primavera. Além das teorias de liberdade e práticos pecados, a mim me bastam as angústias todas por não-ser, pois tudo me pesa e me condena sem precisar sair do lugar. E não ter saído do lugar talvez seja mesmo a questão. Dispensei milagres para me satisfazer com cotidianos prazeres. Preguiças, cigarros, amores sem altitude, repetições de um mais do mesmo e zonas de conforto. Os excessos do corpo, vaidades e fugas da Alma. Eu sou a afirmação do que não acredito, um displicente estado de espera, visto que moro no intervalo entre o que fui e o que busco ser. E até agora, o que eu fiz? Apenas me enfeitei de inconclusões. Meus sonhos se resumem a uma colcha de retalhos do que me sobrou das vontades e ideias de menino. Sou um casulo de esperanças, mas sem data para estrear. Eu sou um péssimo ator de minhas verdades. Cara e coroa sem decisão, uma sorte em queda livre. Aguardo inerte e quieto que a Vida me arranque deste eterno sono em que caí, e me enfie goela abaixo alguma rua-sem-saída, uma profunda decepção que me destrua e me arrebate desta espera angustiada que não põe fim a si mesma e então, envergonhado, não consiga manter-me igual, correndo o risco de renascer. Enquanto isso, sou uma adiada vitória das minhas alturas, navegante orgulhoso de acasos, anestesiada Alma por qualquer distração. Hoje, peço à Vida ser abençoado e necessário abandono, para que o que restar de mim daqui pra frente seja a minha redenção, para que os amanhãs me acolham e me recebam outro, inteiro. Para que a próxima página esteja em branco e o coração, preenchido. Para que entre os meus erros, esteja também o meu próprio perdão. Entre os meus apertos, um horizonte em que lá eu honre os meus possíveis. Por isso escrevo, como prece, para acender luz, como pedido de absolvição da minha própria consciência; como pedido de renúncia dos medos que não me traduzem. Agora é o momento de reaver as asas. Por isso escrevo, como se aqui eu pudesse me confessar e me lembrar do que posso ser quando me sinto livre e amo; e do que posso ser ao me libertar naquilo que escrevo.