quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Santa Maria...

Diante da fragilidade da própria Vida, somos nós quem nos dissolvemos. Apesar das ignorâncias e dos medos que nos desviamos ou além das tristezas e das mesquinharias de que nos protegemos, o homem coleciona suas inevitáveis tragédias. Há em nós misérias ilusoriamente particulares que cedo ou tarde tomam forma, peso, densidade, ganham eco, força, intensidade e contaminam o ar, envenenam o tempo, arruínam os outros. Na soma dos nossos dias, inevitavelmente perdemos. Afinal, qual é o alcance das nossas ganâncias? Qual a culpa dos nossos descasos e a extensão dos nossos erros? Jardim crescido que abandona semente também não floresce. Fruto maduro que não se dedica à boca alheia inteiro apodrece. E não há nesta terra poesia que nos salve dos nossos silêncios - filhos da omissão - nem das profundas dores, irmãs da perda, do desespero e do desamparo. Assim, hoje me cabe pedir licença aos meus habituais egoísmos para condoer e exercitar adormecida compaixão. Se não há dor maior do que aquela que a gente sente, despertenço-me para doer no outro a Alma que se apagou com forte vento. 

Que Deus tenha piedade de nós.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O final do círculo...

Cada um de nós é instrumento da própria Vida para fazê-la alcançar sua plenitude. Por "coincidência", ela alcançará seu objetivo quando todos nós, por sermos partes suas, alcançarmos os nossos. Quando você chora, a Vida chora com você. Quando você se ama, a Vida nos ama também. Você está feliz e a Vida toda celebra. Você dá um passo em direção à Vida e ela dá dez passos na sua direção. Você ganha e a existência inteira conquista. Você perde e ela lhe ajeita o próximo passo. Não há diferença entre ela e nós. Não há diferenças entre você e eu. Apenas dimensões, pontos de vista e vistas de pontos que se entrelaçam, que nos cercam, que nos acolhem e que damos os nomes de destino, acaso, providência, sorte, milagres e benção, conforme nosso tamanho. As ondas são irmãs do mesmo mar. As estrelas filhas do mesmo céu. Somos apenas o outro lado da moeda, os dois começos da ponte, o final do círculo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sobre a Verdade...

Verdade pode ser velha feia de coração bondoso; prato rachado com comida apetitosa; gosto amargo mas que sirva de remédio. A verdade pode ser a sombra que nos dê alento ou que nos assuste no quarto de dormir. A verdade é porta imensa que não porta fechadura. Rosa de espinhos afiados; pode ser tostão que nem sempre cabe no bolso. A verdade é a irmã mais velha da mentira, que dela se serve para mostrar-se a mais sensata. A verdade é rainha, mesmo que sem reino. É reino, mesmo que sem súdito. A verdade é súdito, mas inteiro senhor de si. Verdade é aquela cuja sua contradição também é verdadeira. São os olhos dos que muitas vezes não (se) veem. Mãe de todas as crenças que por vezes não reconhece seus filhos. Um espelho que não confessa os seus reflexos. Um silêncio que carrega a poesia. A noite que anuncia o despertar. Verdade pode ser feita de cores, mas sempre nos faz enxergar o preto-no-branco. Abaixo de todas as realidades da Vida e entre todas as costuras do tempo, a existência e a Alma a nos revelar. Embaixo do véu, a Verdade das coisas que nela vivem e a verdade em nós que nela vivemos. 

A verdade nunca é injusta; pode magoar, mas não deixa ferida." (Eduardo Girão)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Em poesia...

A tua presença floresce os meus silêncios em poesia.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Aviso aos navegantes...

A Ilha onde moram e namoram as palavras nascerá livro! 
A Ilha de um homem só. será lançamento nos dias de abril de 2013, pela Editora Penalux.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Dissolver...

Não há noite que não se diminua num nascer do sol.
Não há escuro que não se dissolva no alumiar da Alma.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Cabem sempre dois...

Gosto dos que não medem e daqueles que transbordam. Gosto dos que não buscam e daqueles que encontram. Gosto dos que conjugam verbos em que cabem sempre dois. Gosto dos olhos que rezam cores, despedem lágrimas e namoram frutos. Gosto da ingenuidade das sementes, das coincidências não-coincidentes, gratidão, promessas, planos, lembranças e até das expectativas. Procuro por boca que ao versar seus espinhos, também saiba ser remédio. Celebro multidão quando sou eu mesmo silêncio ou par. Exercito palavras que se arriscam pra fazer felicidade caber no vão do beijo. Sofro de lua, raízes, nuvem, borboletas e calendários. Sofro de carne e Almas, milagres, misérias e abundâncias. Sou eu mais um destes pobres abençoados que tanto e muito ama...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Breve tratado poético sobre a felicidade...

A felicidade genuína silencia os nossos vícios e elogia nossas virtudes. Assim, o homem feliz despede-se dos seus defeitos pelo não uso; desata os nós pela renúncia às amarras, e escolhe os sorrisos pela desnecessidade das batalhas. A felicidade nos distrai do nosso egoísmo e da nossa própria dor. E quando com a dor se ocupa, serve-se da alheia na intenção de distrai-la também. Tal qual a tristeza, felicidade dissolve os seus contrários quando em nós permanece, atraindo semelhantes razões que perpetuam e alimentam suas existências. Ambas podem facilmente ser encontradas embaixo de miudezas muitas ou nascerem de grandes empreendimentos e excursões da Alma. O não uso as envelhecem. A felicidade em nós se apresenta médica ou professora, visto que nos cura e nos ensina. Como médica, melhora os olhos, dando-nos vistas às singelezas. Também nos previne e nos imuniza dos inúmeros adoçantes e tons de cinza. Como professora se mostra de acordo com a matéria: em geometria, abençoa nossos planos; em economia, ensina a nos poupar das amarguras e excessos nossos, além de nos mostrar o real valor dos laços; na metereologia, anuncia tempo bom da janela-de-nós; em biologia, versa sobre o crescer e sobre os frutos; em gastronomia, deixa saudades sem gosto amargo; na arquitetura nos constrói e nos revela as dimensões interiores. Quando das horas vagas, é mágica, pois desaparece com mágoas e passados doídos. Ou então relojoeira distraída, pois não está nem aí para os tempos. Impontual, felicidade é o caminho estreito, a porta pequena, um sutil sussurro que só nos alcança quando ausente o grave tom da voz das nossas dores. A felicidade como raíz do próprio homem, carrega consigo alguns defeitos: imprevisível, dessabemos quando pousará ao nosso lado, se antes ou depois das nossas inquietas expectativas. Medrosa, corre por qualquer ameaça de grito ou boicote nosso. Esquecida, sofre quando foge por não lembrar facilmente o caminho de volta pra gente. Felicidade tem cor de plenitude. Acalma os amanhãs, abençoa os agoras. Adormece maledicências. Desnuda-nos de eventuais invejas de mão-dupla. Versa sobre inteiros. Aroma de Deus. Se no dicionário felicidade soubesse o que lhe cabe, verbete sonharia poesia.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Milagres...

Somos mágicos - normalmente desavisados - a produzir encantamentos nesta vida. Ou em tantas outras.

Curar feridas, multiplicar sorrisos, transformar vinho em noites de amor, andar por sobre as mágoas e dar nome às coisas são apenas exemplos de um continente que não costumamos desbravar além do seu litoral: a nossa própria alma.

É essencial não nos deslembrarmos das justificativas em nascer milagre.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Que assim seja...

Que entre as folhas do teu calendário habitem os teus novos sonhos. Que a partir de hoje os dias sejam mais teus. Que você se lembre que há sempre mais coisas a se pensar e a se fazer do que coisas já pensadas ou decididas. E que por isto, você abençoe seus amanhãs. Abençoe também a tua rotina, mas a evite o quanto puder. Que você possa respirar macio como não respirou no ano que passou. Que você não se afogue no mar da vida e que guarde espaço e tempo para os suspiros e estratégicas faltas de ar. Que os passos sejam mais leves. Que tenhas boa saúde para ser quem se é por inteiro e ir atrás do que se busca. Que a Vida lhe dê bonitezas e caminhos muitos em que as certezas caibam melhor. Que o Amor possa preencher tua agenda de compromissos, taças de vinho e perdão. Para os próximos capítulos, mais intensos e transbordamentos; menos excessos. Mais frutos, sementes, planos e 'de repentes'. Mais poesia, Alma e corpo também. Mais entregas e menos metades. Mais abraços e menos saudades. Mais voos e pés-no-chão. Sorrisos e cheirinhos de terra molhada, bebês, incensos e de quem se gosta. Mais livros, destinos, menos despedidas. Que sejas dono dos teus melhores pensamentos sobre ti mesmo. E que a gratidão atraia sempre mais coisas pelas quais seremos gratos. Que assim seja...

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo...
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta. 
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou. 
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar. 
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.
Tenho equilíbrio. Procuro por mais. 
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2013. (Guilherme Antunes)


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente".  (Carlos Drummond de Andrade)