quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Generosos...

"Eis a nossa sina: esquecer para ter passado, mentir para ter destino". (Mia Couto)

Quais seriam as exatas razões-de-ser das lembranças em nós? São pedaços de sonhos que um dia nos aconteceram? São as vozes de páginas passadas que nos ditam os próprios caminhos? Justificativa da memória que nos permitimos esquecer: sobrevivemos por contar histórias que preferimos acreditar; para que as nossas certezas vivam em paz na segurança de um tempo em que não se é mais. Acentuamos detalhes que nos importam por conveniências de existir. Preenchemos lacunas e inevitáveis vazios com explicações à nossa Alma e ao nosso peito que desconvençam medos, olhos e aflições. Remodelamos sensações conforme o encaixe de nossa desmedida lucidez. Pois seriam os amargos menos intensos ou o Amor mais sublime quando vistos com a distância das folhas do calendário? Seriam os momentos realmente tão coloridos no instante em que os resgatamos do passado e dizemos ao outro que assim nos aconteceram? A quase-perfeição em nós se declara inteira nas distâncias que dela mantemos. Costumamos ser mais felizes nos anos que não voltam mais, talvez porque nos seja mais fácil assim. Contamos detalhes de inexatos cenários que criamos por premeditados enganos de nossas fraquezas. E pela necessidade de coerência dos nossos caminhos, de ontem e de amanhã, filtramos como podemos as dores nos véus do esquecimento. Somos sempre mais generosos quando nos recriamos, eis a nossa natureza; que não nos impeça de novos voos e outros sonhos, que não nos prenda no mesmo e no morno, nem proíba sorrisos e ares mais frescos. Que as perdas e ganhos sejam sementes e jamais prisões; registros a nos dar identidade e pertencimento; ponte entre o hoje e o que de bom permanece em nós. Guardemos o bem nos silêncios ou entreguemos o mal às palavras, somos tudo aquilo e aqueles que nos permitimos continuar amando...

(Guilherme Antunes & Loridane Melchior)

5 comentários:

Poeta da Colina disse...

A fundação do nosso ser é o que vivemos. As lembranças são quadros na parede.

Amanda Laryssa disse...

"Costumamos ser mais felizes nos anos que não voltam mais(...)".

Talvez as lembranças sirvam de parâmetros para o futuro. "Eu sempre quero mais que ontem, eu sempre quero mais que hoje, eu sempre quero mais do que eu posso ser". Lembrei do trecho dessa música.

Sobre as palavras de vocês dois, fico sem palavras. Não sei se senti demais ou se não senti nada. Vocês são intensos. Eu gostei disso.

Belo blogger!

Antonia Albuquerque disse...

So lê um texto tão bom viajamos em cada linha escrita sonhando com a vida diferente e sempre queremos mais .parabéns .

Mayra Borges disse...

Em diversos momentos me pego a pensar sobre esse conceito. Ao recontar nossas histórias sempre soam mais intensas do que sentimos no momento em que ocorreram, alguns dizem que é a nossa maturidade que nos faz enxergar melhor o que vivemos. O fato é que vivemos com essas melhorias mentais a todo momento. Penso no passado de forma ampla tentando não modificar o que vivi e sem me prender a ele, porque afinal quero apreciar também o meu agora.

Acho que falei demais, mas é que o texto de vocês dois me faz imergir em certas reflexões, muito bonito.

Abraços.
eraoutravezamor.blogspot.com

B. disse...

Um dos melhores textos sobre o tema que já li. Parece eludicar nossas dúvidas e nossos traumas perante o passado. São tantas possibilidades novas, mas ainda assim continuamos presos às memórias insistentes.