quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Bruxa...

Ela previa com a assombrosa exatidão das suas fofocas, os tropeços da vida alheia. Criava intrigas e tramas no serviço com o poder das suas palavras, e puxava tapetes sem precisar sair do lugar. Sabia de olhos fechados se algum objeto da casa estava fora do lugar, fazendo com os filhos um verdadeiro inferno. Jogou todo o encanto do seu casamento pelo ralo, ao gritar por anos a fio por qualquer coisa com o seu marido. Tinha a habilidade de fazer voar as más notícias pelo bairro, intrometendo-se na vida da vizinhança. Com sua afiada maledicência, causava tristezas e invisíveis dores no coração dos seus amigos. Sacrificava o tempo de qualquer um com suas reclamações. Amaldiçoava os meninos que pulavam o muro para roubar manga no seu quintal abandonado. Afastou a tudo e a todos, nem as flores prosperavam. Colecionava apenas sombras e distantes memórias, além de uma vassoura de palha de que tanto gostava. E no dia de hoje, conjurando mil palavrões por ter que acordar cedo com o som da campainha, furiosa abriu a porta e não encontrou ninguém. Viu apenas sobre seu sujo tapete, velas, flores, doces e um cartãozinho de parabéns. Não entendeu nada.

2 comentários:

Poeta da Colina disse...

Ninguém está realmente só, contra todas as probabilidades e razão, alguém sempre empática pelos solitários.

Antonia Albuquerque disse...

Maravilhoso,amei